- Edição Nº2094  -  16-1-2014

Diferenças

Foi, na RTP1, uma reportagem acerca de duas escolas públicas. A avaliar pelos resultados de exames nacionais do 12.º ano, aceites aliás como indicadores seguros ou pelo menos atendíveis, uma dessas escolas seria a melhor do País ao passo que a outra seria a pior. A reportagem foi ver de perto e tanto quanto possível por dentro o que poderia explicar tão abissal diferença entre duas escolas portuguesas, ambas frequentadas por jovens portugueses e reguladas por normas emanadas do mesmo Ministério. Começou por nos informar dos lugares onde se situam uma e outra: ficámos a saber que a melhor das escolas é de Coimbra e a pior é do Barreiro, localizações diferentes que talvez possam sugerir uma primeira indiciação de causas, pelo menos a um nível quase simbólico, pois bem se sabe que Coimbra é «cidade de doutores», e ainda bem, ao passo que Barreiro tem a reputação de ser sobretudo terra de gente de trabalho duro e mal pago, e ainda mal. É claro que esta caracterização é esquemática e convencional, que «vale o que vale», como é uso dizer-se das sondagens de opinião, e que se terá tornado obsoleta no decurso de décadas transcorridas, mas ainda assim é capaz de conter alguma verdade. Depois, a reportagem informou-nos das designações das duas escolas, sendo que a de Coimbra, a melhor do País, é a Escola Infanta D. Teresa, e a do Barreiro, a pior, é a Escola de Santo António, sendo legítimo presumir que a Infanta foi senhora de teres, haveres e sangue azul, ao passo que o santo foi um pobretanas, frade franciscano com muitas virtudes, sim, mas tão escasso êxito social que um dia se viu reduzido à necessidade de pregar aos peixes por ausência de mais qualificada audiência. Dir-se-ia que até em matérias do ensino público há designações que indicam caminhos para que entendamos por dentro o que as coisas são.

A lição omissa

Passemos, porém, para dados mais concretos. Segundo a reportagem, uma grande parte das alunas e dos alunos da Escola Infanta D. Teresa chega aos portões da escola em automóveis conduzidos por pais ou mães, e em grande parte automóveis de bom preço. Logo a seguir, disse-nos que os tais pais e mães são maioritariamente senhoras e cavalheiros com formação superior e profissões a condizer: médicos, advogados, economistas, gestores de boas empresas. Dos pais e mães dos alunos da Escola de Santo António não nos disse muita coisa, recordo a informação de boa parte deles serem de etnia cigana decerto com níveis de vida a condizer ou de origem africana. Desta diferença decorrem consequências importantes para o desempenho escolar dos filhos: os pais com escolaridade superior acompanham a trajectória escolar dos garotos, apoiam-nos no estudo em casa, pagam-lhes explicadores, ao passo que os filhos de gente sem estudos nem posses ficam entregues a si próprios, o que muitas vezes significa que não ficam bem entregues. A reportagem abordou ainda outros aspectos, designadamente a diferença entre os estabelecimentos comerciais frequentados pelos alunos da «Infanta D. Teresa», género catedrais de consumo, e pelos alunos da «Santo António», mais do tipo lojeca da esquina em bairro pobre. Entenda-se que nada disto significa que todos os alunos da escola dita «melhor» tenham assegurado êxito escolar e que todos os da escola «pior» estejam de antemão condenados ao fracasso: a reportagem até destacou o caso de um aluno da Santo António, jovem de ascendência africana, que não apenas tem bom aproveitamento como até mantém o sonho de vir a ser médico neurocirurgião. Mas é claro que mesmo uma eventual excepção não invalidaria a regra geral: os meninos de famílias pobres estão tendencialmente condenados a pior aproveitamento, os meninos de famílias bem instaladas na sociedade têm condições de êxito escolar, uns e outros «fazendo» a diferença entre «a melhor» e «a pior» das escolas públicas do País. Entretanto os anos irão passar e, se nada de substancial se alterar, os meninos da Escola Infanta D. Teresa e de outras escolas que pela frequência se lhe assemelham irão integrar a renovada geração da classe não apenas dominante, mas também de facto beneficiária da exploração dos actuais meninos pobres. Sendo essa, ainda que omissa, a grande lição da reportagem.



Correia da Fonseca