• José Casanova

Fernando Lopes-Graça
Intelectual, músico, militante comunista

Homenagear Lopes-Graça é homenagear uma figura maior da história da cultura portuguesa que é, ao mesmo tempo, um exemplo de resistente antifascista e de lutador, durante toda uma vida, por uma sociedade livre, justa, fraterna e solidária, liberta de todas as formas de opressão e de exploração.

Trata-se de homenagear a vida e a obra de Fernando Lopes-Graça – uma vida e uma obra nas quais o compositor, o musicólogo, o maestro, o escritor, é inseparável do resistente antifascista, do democrata, do militante comunista.

Com efeito, Fernando Lopes-Graça foi, na música, uma figura singular e sem paralelo em Portugal – e, internacionalmente, um dos grandes compositores do seu tempo; e foi, na vida, um exemplo de integridade, de verticalidade, de coerência interventiva e revolucionária.

Impõe-se que recordemos aqui, hoje, ainda que sumariamente, alguns momentos da vida de Fernando Lopes-Graça – momentos certamente conhecidos de todos nós mas que nunca é demais serem evocados.

Nasceu em Tomar, em 17 de Dezembro de 1906 e iniciou os estudos musicais com 11 anos de idade. Aos 17 anos, em Lisboa, frequenta o Curso Superior de do Conservatório Nacional e inscreve-se no Curso Complementar de Letras do Liceu Passos Manuel.

Tinha 19 anos quando ocorreu o golpe militar que, em 28 de Maio de 1926, instaurou a ditadura e abriu caminho à implantação do regime fascista.

O jovem Fernando Lopes-Graça assumiu desde logo a sua oposição ao regime, iniciando uma actividade resistente que se prolongaria até ao 25 de Abril de 1974 e que o transformaria num alvo constante de perseguições e represálias.

Em 1931, no dia em que concluiu, com a mais alta classificação, as provas de Solfejo e Piano do Conservatório Nacional, foi preso pela polícia política – então PVDE, mais tarde PIDE, mais tarde DGS – e, posteriormente, desterrado durante um ano para Alpiarça. Em 1934 ganhou um concurso para uma Bolsa de Estudo em Paris, na área da música, mas a decisão do júri foi anulada por ordem da polícia política. No ano seguinte, foi de novo preso e, desta vez, enviado para o Forte de Caxias, onde permaneceu cerca de dois anos. Libertado, partiu para Paris, em 1937.

Entretanto, o fascismo avançava no mundo: as ditaduras de Mussolini, na Itália, e de Hitler, na Alemanha, impulsionavam o surgimento de partidos fascistas em quase toda a Europa; em Espanha, as tropas fascistas de Franco, com o apoio da Itália, da Alemanha e de Portugal, avançavam no seu objectivo de liquidar o recentemente eleito governo de Frente Popular e de implantar uma ditadura fascista.

Viviam-se tempos sombrios, marcados pelo peso da ameaça fascista: Hitler preparava-se para cumprir o seu sonho de domínio do mundo e de instauração de uma «nova ordem» fascista – e, terminada a guerra de Espanha com a vitória dos fascistas, a Alemanha iniciava a Segunda Guerra Mundial.

Chegado a Paris, em 1937 como já referi, Fernando Lopes-Graça alistou-se no corpo de voluntários dos Amigos da República Francesa. Foi-lhe imposto, como condição para permanecer em França, naturalizar-se francês. Ele recusou e as autoridades francesas obrigaram-no a regressar a Portugal.

Aqui, as perseguições da PVDE acentuavam-se: Lopes-Graça é alvo de vigilância cerrada por parte da polícia política.

Em 1940 foi-lhe proposto dirigir os Serviços de Música da então Emissora Nacional. Aceitou, mas não chegou a tomar posse do cargo porque se recusou a assinar a declaração a que o regime fascista obrigava todos os funcionários públicos. Tratava-se de uma declaração de «repúdio activo do comunismo», e que implicava, ainda, a obrigatoriedade de denunciar todos os cidadãos que professassem «ideias subversivas».

Entretanto, a Segunda Guerra Mundial prosseguia, primeiro com os exércitos nazis a avançarem pela União Soviética, numa cavalgada que parecia imparável, enquanto os EUA e a Inglaterra esperavam para ver quem seria o vencedor. Durante três anos, a União Soviética fez frente, sozinha, à ofensiva nazi, com isso perdendo mais de vinte milhões de vidas humanas. E só quando se tornou evidente que estava em condições e a caminho de libertar toda a Europa com as suas próprias forças, só então as tropas britânicas e norte-americanas desembarcaram na Normandia, em 6 de Junho de 1944.

Depois, em 2 de Maio de 1945, o Exército Vermelho entrava em Berlim e içava a bandeira vermelha no edifício do Reichstag, em 3 de Maio Hitler suicidava-se no seu bunker de Berlim, e em 8 de Maio a Alemanha hitleriana assinava a rendição incondicional. Era o fim da Segunda Guerra Mundial e, com ele, o início de uma nova era plena de perspectivas promissoras e em que a perspectiva do derrubamento do regime salazarista era vista por muitos como coisa certa e inevitável.

Na verdade, não foi assim: menos de um mês após a derrota da Alemanha nazi, os EUA e a Inglaterra fizeram questão de, pública e explicitamente, declarar o seu apoio a Salazar e ao regime fascista português – e, como se sabe, também logo após a derrota do nazismo, a reacção mundial reagrupou-se em torno de uma política anticomunista e anti-soviética, e a ofensiva capitalista passou a desenvolver-se por novas linhas de intervenção.

Armas no combate à ditadura

Entretanto, o fim da guerra e a derrota do nazi-fascismo fora comemorado em todo o mundo com manifestações de regozijo e, em Portugal, com impressionantes manifestações por todo o País. E a luta contra o regime ganhou nova dimensão e assumiu expressões significativas.

Foi criado o Movimento de Unidade Democrática – MUD – que congregava todos os sectores democráticos e antifascistas e, logo a seguir, surgiu o MUD Juvenil que viria a ter uma intensa actividade e chegaria a ter 20 mil aderentes.

Fernando Lopes-Graça integra o MUD, do qual foi dirigente regional, e a partir do qual inicia um novo tipo de intervenção resistente. É no âmbito da sua actividade no MUD e no MUD Juvenil que cria, em 1945, o Coro da Academia de Amadores de Música, imprimindo-lhe, desde logo, um marcado cunho político e antifascista. O Coro, através de uma intensa intervenção cultural e política, e num ambiente de convívio solidário e fraterno, levou a todo o País as Canções Regionais Portuguesas e as Canções Heróicas – fazendo delas importantes armas no combate à ditadura fascista.

Com tudo isto, o ódio do fascismo a Fernando Lopes-Graça crescia e intensificava-se – e refinava. Na década de 50, o regime proibiu todas as orquestras nacionais de interpretarem obras do Maestro. Mais do que isso: roubaram-lhe os direitos de autor; anularam-lhe o Diploma de Professor do Ensino Particular; obrigaram-no a abandonar a Academia dos Amadores de Música. O regime fascista vigiava-o e perseguia-o com o mesmo implacável ódio com que perseguia os resistentes clandestinos. Vigiava-lhe as intervenções, os passos, a casa, as pessoas que contactava e o contactavam, a caixa do correio… As dezenas e dezenas de folhas do seu processo nos arquivos da PIDE são bem elucidativas do temor que a sua personalidade prestigiada, firme e intransigente suscitava ao fascismo.

Como também já foi dito, toda a vida e toda a acção de Lopes-Graça são inseparáveis do núcleo fundamental das suas convicções, da sua inteligência e do seu génio criador voltado para o povo e para o futuro. As suas palavras, mesmo quando fala apenas de música ou de cultura, são as de um revolucionário, como quando afirma: «Uma cultura, qualquer espécie de cultura, é incompleta, viciada, unilateral, se só olha para o passado e recusa o presente, naquilo que ele tem ou possa ter de vivo, de criador, de fecundo, se não acompanha o presente no seu caminho de descoberta e de conquista do futuro.»

É nessa perspectiva e nessa visão revolucionárias que se inserem as suas Canções Regionais, recriadas através de geniais arranjos e harmonizações – a partir do notável trabalho de recolha levado a cabo por Michel Giacometi. E, sobretudo, aquelas que, segundo ele, mais se identificavam com o povo, com os seus anseios de liberdade, de amor, de paz, de progresso – e que, porque portadoras da imensa sabedoria de vida do povo, transportavam consigo a capacidade de luta e de resistência. Canções que o Coro cantava por todo o País e que, pouco a pouco, passaram a ser cantadas por operários, camponeses, estudantes, intelectuais – pelo povo, ao qual, afinal, tinham sido devolvidas.

As Heróicas e o Coro eram sementes dos cravos

E as suas canções Heróicas – cuja beleza empolgante se funde com a beleza da poesia de combate dos poetas do neo-realismo, dos grandes poetas da resistência e da luta pela liberdade (como, entre outros, Armindo Rodrigues, Arquimedes da Silva Santos, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira, Luís Veiga Leitão, Mário Dionísio, Papiniano Carlos) – são tão profundamente parte integrante da resistência ao fascismo como cada luta de trabalhadores, cada praça de jorna, cada luta estudantil, cada greve operária, cada manifestação antifascista. Proibidas pelo fascismo, mas cantadas por todo o País pelo Coro da Academia de Amadores de Música – para todos o Coro Lopes-Graça, ou simplesmente O Coro – as Heróicas foram um estímulo e um incentivo à resistência, um grito de confiança e de esperança para os milhares e milhares de pessoas que as ouviam e, com o Coro, as cantavam.

Mas foram mais, muito mais do que isso: foram, elas próprias, resistência. E quando o regime fascista as proibiu, o Coro Lopes-Graça foi complementado por um outro coro: o de milhares de vozes cantando essas canções em milhares de locais, em convívios do mais diverso tipo, em iniciativas de resistência ao fascismo, no exílio, nas prisões. Foi como se, da semente lançada à terra da luta pelas Heróicas cantadas pelo Coro, tivesse florido a mais bela de todas as searas.

Quantas vezes as ouvi, e juntei a minha voz (lastimável, confesso, mas cheia de boas intenções…) às vozes de outros amigos e camaradas em Caxias, em Peniche, na Prisão da Pide no Porto! Quantas vezes as ouvi em colectividades das zonas de Almada e de Sacavém!

Recordo que, por vezes, depois das actuações do Coro, apenas autorizado a cantar as Canções Regionais (e, mesmo essas, sujeitas a censura prévia e com pides e bufos a vigiarem os espectáculos) as Heróicas eram cantadas pela assistência ou, no final dos espectáculos, pelo Coro e pela assistência, já longe dos ouvidos dos esbirros fascistas.

As Heróicas e o Coro ocupavam, assim, a primeira fila da resistência e da luta antifascista, eram sementes dos cravos que haviam de florir no Dia da Liberdade.

Depois veio Abril, primeira grande etapa do caminho que há-de conduzir ao fim da estrada. E o Coro Lopes-Graça cantou as Heróicas livremente, cantou-as, logo, enquanto desfilava nesse momento maior da nossa vida colectiva que foi o primeiro 1.º de Maio; cantou-as, precisamente um mês depois do Dia da Liberdade, em 25 de Maio de 1974 – num memorável espectáculo realizado no Coliseu dos Recreios; cantou-as no decorrer do processo revolucionário, nesse que foi o tempo mais luminoso e criador da história do nosso País, quando o povo, nas ruas, nas fábricas, nos campos, nos escritórios, nas escolas, dava os primeiros grandes passos na construção de uma democracia avançada, de uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural; cantou-as em comícios e festas do PCP; cantou-as nas Unidades Colectivas de Produção da Reforma Agrária; e em colectividades e salas de espectáculos por todo o País; cantou-as em França…

As Heróicas, porque foram parte integrante da resistência que construiu Abril, foram naturalmente parte integrante do processo revolucionário e continuam, hoje, a integrar a luta de todos os dias contra a política da contra-revolução que novamente agrava o atraso, a dependência e a subalternização de Portugal no contexto internacional, incluindo nos planos da cultura artística e científica.

Um exemplo maior de intelectual comunista

Também já foi dito, mas nunca é demais repetir, que poucos artistas têm, como Lopes-Graça, em cada criação um acto de resistência – que nele é, também e sempre, resistência a qualquer submissão, a qualquer facilitação, a qualquer demagogia, a qualquer transigência de linguagem ou de ordem estética. É essa a atitude coerente com o profundo respeito que sempre teve pelo seu povo.

A obra de Fernando Lopes-Graça, enquanto compositor, musicólogo, pianista, maestro, professor, investigador, teórico, crítico de arte, marcou profunda e impressivamente o nosso século XX.

E é óbvio que numa personalidade como a de Fernando Lopes-Graça, a energia criadora está indissociavelmente ligada à sua visão do mundo e à sua opção política e ideológica: desde as Canções Tradicionais às Heróicas e a obras como Em Louvor da Paz ou Requiem para as vítimas do fascismo em Portugal, o artista criador e o combatente pela liberdade, pela paz, pelo progresso são um só – e não poderiam sê-lo de outra forma.

Aliás, um dos aspectos mais admiráveis e exemplares na personalidade de Fernando Lopes-Graça é a firmeza e coerência das suas convicções, dos seus princípios, do seu carácter; do conjunto da sua criação intelectual e artística, da sua intervenção cívica e política. Lopes-Graça, que aderiu ao PCP em meados da década de 40, é um exemplo maior de intelectual comunista. Do intelectual livre que, por o ser em todas as circunstâncias, toma como sua a causa da emancipação e da liberdade do seu povo, a causa da luta contra o obscurantismo e a opressão, da luta contra a exploração – a causa do socialismo e do comunismo.

É necessário sublinhar que Fernando Lopes-Graça foi um resistente sem quebras, um combatente de todos os momentos: combatente desse tempo sombrio, opressivo e repressivo do fascismo; combatente do tempo novo, luminoso, empolgante da revolução de Abril, com as suas conquistas económicas, políticas, sociais, culturais, civilizacionais; combatente deste tempo manchado de sombras e de sinais do passado com que a política de direita, a política da contra-revolução, praticada ora pelo PS, ora pelo PSD, vem flagelando desde há trinta e sete anos os trabalhadores, o povo e o País.

Como militante comunista, Fernando Lopes-Graça esteve sempre com o seu Partido; sempre afirmando e defendendo com convicção e coerência a razão de ser da existência e da história do PCP; sempre com o colectivo partidário; sempre afirmando de forma muito clara a sua profunda compreensão sobre a natureza, a identidade e a luta do partido a que ligou meio século da sua vida – e foi, até ao fim da sua vida, militante do PCP.

Em Outubro de 1994 – um mês antes da sua morte – ele fez a sua última apresentação pública num sessão realizada no CT Vitória, na Avenida da Liberdade. Ali, vimo-lo pela última vez a dirigir o Coro – e o coro da assistência que o acompanhou. No ano anterior tinha composto a sua Música Festiva N.º 23, para, como escreveu, «os oitenta anos do grande camarada e amigo Álvaro Cunhal».

E ali, no Centro Vitória, ouvimos a primeira audição absoluta da sua peça para piano «Preito à Memória de Francisco Miguel, uma vida heróica».

Nas palavras então proferidas pelo Autor, tratava-se «de uma homenagem aos nossos queridos mortos que se estreia no sítio adequado».

Foi a homenagem «aos nossos queridos mortos» individualizada num lídimo representante de todos eles.

Foi a homenagem prestada através da linguagem universal da música que, tal como o ideal comunista, «não reconhece e ajuda a derrubar as barreiras que separem cada indivíduo da humanidade a que pertence».

Fernando Lopes-Graça, intelectual, músico, militante comunista, caminha a nosso lado no caminho da história. Com ele, com o seu exemplo, com a sua música, com as suas Heróicas cantadas pelo seu Coro, havemos de chegar ao fim da estrada – ao sol desta canção.

 

 

* Intervenção proferida a 17 de Dezembro, no Clube Estefânia, em Lisboa, na sessão de homenagem promovida pela Associação Lopes-Graça por ocasião do 107.º aniversário do nascimento de Fernando Lopes-Graça e da apresentação do CD/Livro das Canções de 25 de Abril – 13 Canções Heróicas, músicas de Lopes-Graça para voz (Celeste Amorim) e piano (Madalena Sá Pessoa). A edição do CD/Livro, segundo a própria direcção da Associação, constituiu não apenas «um contributo para a divulgação da obra do seu Patrono», mas também uma homenagem a Celeste Amorim, fundadora da Associação e que ao longo de 44 anos foi o soprano solista do Coro Lopes-Graça da Academia dos Amadores de Música, até à sua súbita morte em Março de 2009.



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