• Domingos Lobo

Mesmo no rumor fundo do silêncio, da submissão e do conformismo que nos querem impor, as palavras de José Carlos Ary dos Santos continuarão a estar vivas, a ressoar como um alerta aos nossos ouvidos despertos
José Carlos Ary dos Santos
O poeta que Abril nos deu

José Carlos Ary dos Santos foi o mais consequente poeta de Abril, o que esteve sempre, fraterno e cúmplice, na primeira linha do combate; o poeta generoso e lúcido, que mascarava, com o manto diáfano dos excessos, a sua íntima, profunda solidão; poeta que era, igualmente, a voz que plena, emotiva e certeiramente dizia as palavras necessárias e urgentes; o poeta solidário, morrendo aos poucos de ternura; o poeta dos instantes, dos dias altos, levantados, irrepetíveis de Abril.

Ary foi a voz e a palavra conjugadas num raro, inato talento de prestigiador, transformando, com engenho e arte, como Gabriel Celaya definiu, a poesia «numa arma carregada de futuro». E essa voz, e as palavras que ela veiculava, ajudaram, de forma perene, a construir Abril, a edificar esse canto maior, uníssono, da nossa colectiva alegria, da geral libertação que todo um Povo, erguendo-se do chão raso da vergonha e da ignomínia, pôde viver e sentir, e apossar-se, fazendo da Liberdade uma razão e de Abril e Maio a sua lança para o futuro.

Ary foi mais do que um grande poeta; foi um expressivo, poderoso inventor de metáforas, de imagens que percorrem, 40 anos volvidos sobre a madrugada que sonhámos, o nosso mais sensitivo território dos afectos e da luta.

Poeta a um tempo erudito e popular, ele conjugou, no seu modo peculiar de escrever, nesse pessoalíssimo e fecundo percurso criativo, a clareza efabulatória das palavras que a sua voz potente purificava e o guindaram próximo e amado do povo, com a inquietação das nossas mais fundas interrogações existenciais: a raiva, a ternura, o combate, a ironia, a solidão e o amor levados a limites de exaltação e acerto sintáctico como raros poetas entre nós conseguiram expressar com igual mestria e vigor, argúcia narrativa e assertiva evidência.

Próximo, por circunstâncias geracionais, do grupo da Poesia 61, ao qual só episodicamente pertenceu, mas tendo, na construção estilística, morfológica e imagética afinidades com alguns poetas do surrealismo, cuja influência está patente no seu livro Adereços, Endereços (1965), José Carlos Ary dos Santos cedo revelou possuir o sentido de busca de uma identidade, de uma voz própria, de invenção discursiva, um estilo, uma prosódia inconfundíveis – que se manifestava na abordagem de temas fracturantes –, que o tornariam num dos mais respeitados, consequentes e inimitáveis poetas da sua geração. Próximo, na contestação à ditadura, ou apenas na aventura, nas fortuitas confluências poéticas, que nesse período juntavam, tertuliando nos cafés da fauna literária de Lisboa, vozes oriundas de quadrantes estético/ideológico diversos, de poetas como Natália Correia, David Mourão-Ferreira, Cesariny, Alexandre O’Neill, Mendes de Carvalho ou, até, Fernanda de Castro, à qual o autor de Fotos-Grafias dedicou o «rimance» Tempo da Lenda das Amendoeiras (1964).

Mas será a partir do livro Insofrimento In Sofrimento (1969), publicado no ano em que adere ao PCP, que a sua voz se autonomiza e adquire um poder, uma vibração, uma consonância, uma coragem temática e verbal, que o irá projectar muito para além das coordenadas, das representações poéticas dos seus comparsas de geração. Desse livro, José Afonso musicará o poema Cidade, incluindo-o no álbum Cantos Novos, Rumos Velhos. Era apenas um sinal, mas significativo, auspicioso começo numa prática que o tornaria num dos mais importantes e solicitados poetas de cantigas

Arma de arremesso   

1969 é o ano, o tempo da afirmação, o tempo de um poeta vindo do lado esquerdo da noite, utilizar a força, o magnetismo das palavras, para as trazer para a rua, para a voz inquieta, desesperada de um povo sedento de liberdade e de palavras solidárias, rebeldes e provocatórias que expressassem as suas perplexidades e lhes devolvesse, mesmo no tempo escasso de uma cantiga, o direito à esperança: que agitassem, por breves instantes, as águas pútridas que o regime impunha aos seus quotidianos tolhidos pelo medo, pelas agruras da vida, pela guerra, pela omnipresente bufaria. Era o tempo das palavras das cantigas, da utilização da música popular urbana como arma de arremesso contra a ditadura e desse poderoso meio de comunicação de massas que era (é) a televisão, nomeadamente o Festival da Canção, para difundir «a mensagem», as palavras novas carregadas de futuro e de sentidos, espalhando-as pelo país inteiro.

Uma nova geração de cantores e de compositores despontava então, com destaque para Fernando Tordo, Carlos Mendes, Paulo de Carvalho, Tonicha, Carlos do Carmo, Tozé Brito, José Luís Tinoco e Nuno Nazareth Fernandes, disposta a subverter os parâmetros estéticos e os conteúdos das cantigas, libertando a música popular do serôdio nacional cançonetismo. Essa música só foi possível e ganhou asas graças ao verbo transgressor, à claridade polifónica das palavras de Ary dos Santos. Era o tempo da Desfolhada Portuguesa, agitando as mentes conservadoras com esse desabrido Quem faz um filho/Fá-lo por gosto; da Menina do Alto da Serra, que cheirava a feno e trazia um ribeiro à cintura; de Tourada onde se dizia, metaforicamente, a verdade resistente desses dias, em que toureávamos ombro a ombro/as feras, porque estávamos na praça da Primavera e íamos pegar o mundo/Pelos cornos da desgraça/E fazermos da tristeza/Graça.

A exaltante e profícua capacidade criativa de Ary dos Santos, na particular vertente das letras para cantigas, que se pautou por mais de seiscentas produções poéticas, atingiria o seu ponto mais alto e significativo, com os álbuns Um Homem na Cidade e Um Homem no País, ambos interpretados por Carlos do Carmo, com músicas de Tinoco, Carlos Paredes, Paulo de Carvalho, Tordo e Victorino d’Almeida, entre outros, e com a parceria com o compositor Alain Oulman (também ele militante comunista, autor da música do famoso Fado Peniche), para os álbuns Com que Voz e Cantigas Numa Língua Antiga, gravados por Amália Rodrigues.

José Carlos Ary dos Santos foi uma das vozes que os poderes, os de antanho e os de hoje, que nos tiques censórios, e não só, cada vez mais se lhe assemelham, tentaram silenciar. Eduardo Pitta, num texto publicado no livro «Comenda de Fogo», punha a faca a jeito e apontava-a onde doía, revelando que por parte da crítica instalada existia o silêncio ensurdecedor – aquele que por completo obliterou o poeta das Fotos-Grafias. Nada, portanto, que já não soubéssemos e que ao poeta, ainda em vida, não doesse, exibindo, no entanto, a mágoa/raiva que lhe era peculiar, embora, quando a isso instado, esboçasse um sorriso de criança rebelde, remetendo-nos para os versos do seu poema Queixa e Imprecações dum Condenado à Morte: Por existir me cegam,/Me estrangulam,/Me julgam,/Me condenam,/Me esfacelam./ Por me sonhar em vez de ser me insultam,/Por não dormir me culpam/E me dão o silêncio por carrasco/E a solidão por cela. Poema incluído naquele que é considerado, oficialmente, o seu livro de estreia e um dos mais altos momentos da sua criação literária, um dos mais exaltantes e corajosos testemunhos poéticos inscritos na sua vasta, diversa, se bem que qualitativamente irregular e fragmentada, obra poética: A Liturgia do Sangue (1963). Este livro, fundamental no seu percurso criativo, feito de excessos verbais e imagísticos, de uma assumida teatralidade, com declinações neo-românticas, construído à medida da voz e da sua intensidade emocional e interpretativa, é ainda hoje, volvidos mais de cinco décadas sobre a sua publicação, um raro, estranho objecto literário no conjunto da lírica portuguesa contemporânea; incontornável na sua sinceridade expositiva, nas figuras estilísticas que elabora, que lhe bordejam uma fala feita de raivas mas, igualmente, das prodigiosas ressonâncias que a envolve, de um fulgor próximo do Guerra Junqueiro de A Velhice do Padre Eterno e onde, a espaços, lhe adivinhamos o rumor fluído, objectivo e subjectivo, de uma porosidade poética pós-surrealista.

 Um poeta de pé

Ary dos Santos faz parte desse restrito número de poetas que conseguiram, pela conjugação evocativa dos sinais mais perenes da honra e da justiça, transfigurar e universalizar os rumores extensos das ruas, os clamores que se erguiam do pó, e dar-lhes uma dimensão outra, transmudar em verbo, em versos lapidares, torná-lo a consciência do momento histórico, o movimento impressivo das massas em luta; o poeta recupera e traz para o discurso poético os acontecimentos candentes, e históricos, da Revolução de Abril: a Reforma Agrária, as nacionalizações, as lutas dos trabalhadores, o direito à Terra e ao Trabalho, à Paz e ao Pão. E de tal forma foi activo participante nas quotidianas lutas do nosso povo, protagonista e interprete dos momentos mais altos da Revolução, que conseguiu elaborar uma nova estética, uma nova arquitectura verbal que, em seu bojo contém, e renova, os conteúdos de uma poesia de afirmação e de combate, próxima do neo-realismo, sobretudo a que foi gerada pelos autores de Notícias do Bloqueio, mas que na sua explosão sintáctica, na sua expressiva oralidade, a torna também afim de formas poéticas populares. A palavra poética de Ary dos Santos, a dinâmica, o tórrido verbal que a configura, assume não só um lugar de extrema resistência, para utilizar uma expressão feliz de Eduardo Lourenço, mas de esconjuro contra manobras reaccionárias de toda a índole: Agora ninguém mais cerra/as portas que Abril abriu.

José Carlos Ary dos Santos foi sempre um poeta de pé, de coragem, de afrontamento. De causas. Excessivo e claro, generoso até ao osso, sensível até ao desatar das lágrimas, um sátiro que usava com destreza e originalidade o verbo para despir na praça os hipócritas, os sabujos e deixar à mostra o cetim estiraçado da moral burguesa.

Ary foi, como o afirmou Natália Correia, «um dinamizador da matéria poética», sabia que o poema é uma janela aberta aos horizontes, um caminho a desbravar, um instrumento mais para erguer a voz e cantar a justiça e a paz, para ajudar Abril a caminhar, acreditando que O que é preciso é termos confiança/se fizermos de Maio a nossa lança/isto vai meus amigos isto vai.

Mesmo no rumor fundo do silêncio, da submissão e do conformismo que nos querem impor, as palavras de José Carlos Ary dos Santos continuarão a estar vivas, a ressoar como um alerta aos nossos ouvidos despertos, a caminhar ao nosso lado. Dado que, por muito que o tentem calar, um poeta Nunca canta sozinho e, mesmo morto, a sua voz ecoará no descampado, viverá nas palavras que dele herdámos e são parte da voz que temos, da nossa voz que afirma sem temer que das entranhas da terra hão-de passar/o tempo da humana gestação/e parir como um rio a rebentar/o corpo imenso da Revolução.



O Poema Original

Original é o poeta
que se origina a si mesmo
que numa sílaba é seta

noutra espasmo ou cataclismo

o que se atira ao poema

como se fosse ao abismo

e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum

que sendo de toda a parte

não é de lugar algum.

O que gera a própria arte

na força de ser só um

por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso

por saber compreender

o que é o choro e o riso;

aquele que desce à rua

bebe copos quebra nozes

e ferra em quem tem juízo

versos brancos e ferozes.

Original é o poeta

que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor

de escrever todos os dias

como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher

e nela emprenha a alegria

de ser um homem qualquer.

Ary dos Santos, in 'Resumo'

 


Retrato do Herói

Herói é quem num muro branco inscreve
O fogo da palavra que o liberta:

Sangue do homem novo que diz povo

e morre devagar de morte certa.

Homem é quem anónimo por leve
lhe ser o nome próprio traz aberta

a alma à fome fechado o corpo ao breve

instante em que a denúncia fica alerta.

Herói é quem morrendo perfilado
Não é santo nem mártir nem soldado

Mas apenas por último indefeso.

Homem é quem tombando apavorado
dá o sangue ao futuro e fica ileso

pois lutando apagado morre aceso.

Ary dos Santos, in 'Fotos-Grafias'




 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: