O Partido Comunista Ucraniano está ameaçado de ilegalização
Crise na Ucrânia
Nazi-fascismo à solta

A sede central do Partido Comunista da Ucrânia (PCU) foi atacada e vandalizada, uma das consequências do que o partido considera ser um golpe de Estado organizado pelo imperialismo e por forças nazi-fascistas.

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Em texto divulgado após a difusão de uma nota de alerta sobre o ataque às instalações comunistas em Kiev (as quais continuam ocupadas), domingo, 23, o Primeiro secretário do Comité Central do PCU sublinha que «num dos momentos mais trágicos da história do nosso país», durante o qual foi «derramado sangue [fontes médicas falam num total de 82 mortos e mais de 700 feridos, n.d.r.]», a «integridade territorial da Ucrânia» e a «sua existência como Estado unificado, independente e soberano», encontram-se ameaçados.

Piotr Simonenko (cuja casa foi assaltada e incendiada) salienta, igualmente, que «estes acontecimentos não têm um carácter unívoco. A participação neles de grandes massas de pessoas reflecte o profundo descontentamento na sociedade com o regime político de Yanukovitch e do seu círculo, que governou o país de forma inepta, enganando as pessoas, abandonando as suas promessas de campanha, e em momentos difíceis abandonando cobardemente o seu posto».

«O clã que se formou em torno de Yanukovitch, que recebeu a designação de “Família” e que enriqueceu de forma desavergonhada, afastou de si a maioria dos seus apoiantes e eleitores», acrescenta Simonenko, antes de frisar, no entanto, que «os protestos de massas não adquiriram o carácter de um confronto de classes», mas o de «uma batalha feroz entre duas facções da mesma classe de exploradores — a burguesia oligárquica —, das quais a mais organizada e preparada se revelou o agrupamento que juntou as forças pró-ocidentais, nacionalistas e radicais de direita», que «utilizaram habilmente o descontentamento das pessoas e com o seu apoio realizaram um golpe de Estado».

O máximo dirigente do PCU realça, igualmente, a ingerência aberta «e sem cerimónia» do Ocidente, apoiando «as acções das forças radicais de direita, na medida em que elas visam uma séria mudança na situação geopolítica na Europa e no mundo, a destruição dos seculares laços (...) entre os povos ucraniano e russo, e os outros povos irmãos da antiga União Soviética, e entregam a Ucrânia ao protectorado dos EUA, da UE, da NATO, do Fundo Monetário Internacional e de diferentes empresas transnacionais».

Piotr Simonenko refere-se também que «as acções dos radicais de direita, liderados por forças abertamente neonazis alimentadas pelo regime de Yanukovitch — herdeiros

ideológicos dos ocupantes hitlerianos —, são acompanhadas por uma nova e extremamente perigosa vaga de histeria anticomunista, pela destruição em toda a parte dos monumentos a Lénine e aos heróis da Grande Guerra Patriótica, por ataques banditescos às instalações do nosso Partido em Kíev e outras cidades do país, pelo terror moral e físico contra os comunistas, pela exigência da proibição da actividade do Partido Comunista da Ucrânia».

«Tudo isso testemunha que estas forças que tomaram o poder podem recorrer a quaisquer acções ilegais, não se detendo na repressão não só dos funcionários do partido mas também dos militantes comunistas», alerta, adiantando que, no momento, as tarefas prioritárias são «manter a estrutura e os quadros do partido, estar vigilantes, não sucumbir às provocações» e «aproveitar todas as oportunidades para esclarecer os trabalhadores sobre a natureza do golpe ocorrido e o perigo das suas consequências para os cidadãos comuns — uma acentuada deterioração da economia, o aumento do desemprego e dos atrasos no pagamento dos salários e pensões, o aumento dos preços e tarifas, uma criminalidade desenfreada, um ainda maior empobrecimento do povo».

Sucessão vertiginosa

A crise na Ucrânia precipitou-se ao final do dia de sexta-feira, 21, quando um acordo subscrito entre os representantes dos três partidos da oposição com representação parlamentar e o presidente Yanukovitch, sob os auspícios dos ministros dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, França e Polónia, e na sequência de uma maratona negocial de várias horas, foi reduzido a cinzas, aliás à imagem das tréguas que vinham sendo pactadas nos dias anteriores.

Tal como havia acontecido na terça-feira, 18, os batalhões de choque dos neonazis do partido Sector de Direita, que se reclamam herdeiros do Bandera, organização que colaborou com a ocupação do país pelas hordas hitlerianas durante a Segunda Grande Guerra Mundial, recusaram-se a cumprir o texto. Dominando o perímetro da Praça Maidán e os seus acessos, bem como os edifícios governamentais depois da retirada das autoridades ordenada por Yanukovitch, o Sector de Direita deu um ultimato para a demissão do ainda presidente e instigou mesmo os apupos ouvidos por Vitaly Klichko, do partido «Golpe», e Oleg Tyagnibok, do «Liberdade», quando anunciaram o acordo na tribuna da praça.

A partir dai, a sucessão de acontecimentos foi vertiginosa. Yanucovitch partiu para parte incerta conhecendo-se apenas uma comunicação vídeo em que fala de golpe de Estado, do assalto a mais de 200 sedes do Partido das Regiões e faz um paralelismo com a tomada do poder pelos nazi-fascistas na Alemanha e Áustria, nos anos 30 do século passado.

Deputados do Partido das regiões que, posteriormente haviam de renegar o seu líder culpabilizando-o e ao seu círculo mais próximo pela violência, ou debandaram, ou passaram a sufragar tudo o que foi apresentado no parlamento entre sexta-feira e domingo: libertação da ex-primeira-ministra Yulia Timoshenko, condenada por abuso de poder, a qual, sábado, 22, saudaria a Praça Maidán como «o melhor que têm a Ucrânia»; destituição do ministro do Interior que procurou responder aos ataques terroristas contínuos (incluindo o sequestro de 70 polícias ou o assalto a um paiol de armas em Lvov); destituição de Yanukovitch e de todo o seu governo e a entrada em vigor da Constituição de 2004; nomeação de Alexander Turchinov, do partido de Timoshenko, como novo presidente da Rada, e a distribuição dos postos-chave, atribuindo ao partido da ex-primeira-ministra a pasta do Interior, ao «Golpe» os Serviços de Segurança, e ao «Liberdade» a Procuradoria-geral da República.

As eleições presidenciais foram marcadas para 25 de Maio e o novo poder já pediu formalmente um empréstimo ao FMI e à UE, as quais exigem como contrapartida a aplicação de medidas de austeridade. Os cortes orçamentais exigidos terão estado na base da hesitação de Yanukovich em formalizar o acordo que a UE tinha por objectivo assinar.

Contra Yanukovitch foi emitido um mandato de captura e Vitaly Klichko sugeriu a criação de uma comissão de investigação aos crimes cometidos pelo regime. O «Liberdade» pretende proibir a transmissão de canais não europeus, revogar o russo como segunda língua oficial em algumas regiões e proibir o Partido Comunista da Ucrânia e o Partido das Regiões.

Em Lvov, noticiou a Lusa anteontem, pelo menos uma centena de polícias antimotim foram levados por brigadas do Sector de Direita para uma praça central e filmados de joelhos, num acto de exovalho público, pedindo desculpas pela violência desencadeada contra os manifestantes.




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