• Jorge Messias

O milagre brasileiro<br> num país em crise

«O agronegócio representa mais de 22% do PIB brasileiro ou seja, de todas as riquezas produzidas no país. Projecções mostram que, até 2022, a produção de grãos aumentará 22%, sendo a soja, a carne, os produtos florestais e o metanol (combustíveis à base de álcool e açúcar) os produtos exportados de maior destaque... O principal parceiro comercial do Brasil é a China… O governo brasileiro oferece aos importadores crédito a juros baixos… O preço das mercadorias é formado pelos jogos de mercado (Commodities), através da livre negociação entre produtores e compradores» (Lúcia Dias Magalhães, “Agronegócio brasileiro e mercados futuros”, 2011).

«A fome não é um fenómeno natural mas sim político!» (Josué de Castro, “Geografia da Fome”, 1946).

«O que mais chama a atenção relativamente ao aumento de produção é o perfil desse crescimento. Trata-se de um fenómeno caracterizado pela entrada de grandes empresas controladas por fundos estrangeiros ou por grandes empresários nacionais ligados a outros ramos da economia... os que exploram um modelo de produção que combina, em altíssima escala, a gestão profissional e o acesso aos mercados de capitais» (Gerson Freitas, “O avesso da Reforma Agrária”, 1.4.2013).

«A Ministra para a Agricultura, Mar, Ambiente e Ordenamento Territorial, Assunção Cristas, previu hoje (23.5.2013) que a indústria agroalimentar portuguesa vai conseguir chegar aos mil milhões de euros de exportações… O caminho vai-se fazendo...! declarou» (Assunção Cristas (“Agência Lusa”).

Olhando o actual panorama económico português, para o desequilíbrio e para as taxas reais de lucro das grandes empresas, para o aumento da dívida pública e para os níveis do desemprego, fácil é concluir-se ser o actual Governo português da escola do banco central e tentar gerir dois lares diferentes, um para os ricos, outro para os pobres. No caso do agronegócio, por exemplo, é claramente assim. Envolvermos no assunto a Igreja e os países do Mercosul, faz todo o sentido.

É aí que se prepara a prometida exportação para a Europa e para a África dos processos de exploração desenfreada impostos pelos seus protectores norte-americanos e outros oportunistas. A evolução dos factos que ameaçam transbordar, sobretudo da América do Sul, para a Europa, revela-se, não podemos esquecê-lo, em países que se mais dizem fiéis aos princípios essenciais da doutrina cristã. O Vaticano tudo vê, tudo cala e tudo consente.

O esquema já instalado ou prestes a instalar em todos os territórios da Mercosul compreende um complexo sistema financeiro sustentado em grande parte pelo Banco Mundial e pelas mega empresas da globalização, como sejam o Grupo Carlyle ou o Goldman Sachs. O aparelho que se prepara vai, porém, muito mais longe e compreende ramos seguradores, bolsas de mercadorias, grupos transportadores, formações de defesa do ambiente, igrejas, IPSS, fundações, etc. Toda a fina flor do grande capital privado mundial.

Na sua esmagadora maioria, os críticos económicos reconhecem que o agronegócio tem aliviado sensivelmente as balanças de pagamento de vários estados sul-americanos. Mas a massa financeira poupada é investida depois pelos governos neoliberais na sustentação dos bancos privados e no reforço das transnacionais e no negócio especulativo, quando não nos mercados negros ultralucrativos. Enquanto isso acontece, sucedem-se os cortes nas fontes de rendimento do trabalho, os aumentos do custo de vida, as falências das pequenas empresas, a degradação dos serviços públicos conquistados e aperfeiçoados ao longo de séculos de lutas colectivas.

Poderão os crentes permitir que a sua hierarquia se cale acerca destes intoleráveis escândalos e insista em contar as histórias fabulosas do seu imaginário?

Olhemos o Vaticano, mesmo em tempos do afamado papa Francisco I.

Os ojectivos do agronegócio são evidentemente financeiros. Mas são também políticos, imperialistas. Trata-se de submeter os fracos à vontade dos fortes e os pobres ao poder dos ricos. De recusar segurança e direitos aos trabalhadores. De promover a desigualdade entre as autarquias. Trata-se, finalmente, de retomar o modelo imperialista da recolonização. A colónia é do colonizador. São dos senhores as terras produtivas, as florestas, os mares e os rios, as pescas. Pertencem-lhes as sementes que se lançam à terra e a forma como são tratadas, tóxica ou não.

Quando se pronuncia sobre estes temas, a hierarquia da Igreja reafirma sempre as sua posições de extrema-direita.




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