A luta de classes tende a agudizar-se
Greve geral no Paraguai
Êxito político histórico

Trabalhadores e camponeses aderiram massivamente à greve geral no Paraguai, realizada dia 26, que constituiu um sucesso e uma expressão de unidade das forças políticas e sociais que rejeitam o programa vende-pátria do governo.

À única paralisação nacional convocada, nos últimos 20 anos, pelo movimento sindical e por organizações de camponeses pobres e sem-terra aderiram, segundo informações dos promotores citadas por agências latino-americanas, cerca de 80 por cento dos trabalhadores de todos os sectores, assim como um significativo número de pequenos proprietários do campo e da cidade.

A determinação em realizar a greve e os protestos que a precederam, bem como a adesão aos piquetes e marchas ocorridos no dia 26 (com destaque para as acções de massas na capital, Assunção), travaram a provocação preparada pelo executivo liderado por Horacio Cartes que, neste quadro, não teve outra alternativa senão ordenar que o forte contingente militar e policial colocado nas ruas se abstivesse de intervir, e, horas antes do início da jornada, propôs mesmo a instalação de um espaço de diálogo.

O êxito da iniciativa estende-se, igualmente, ao facto de todas as seis centrais e muitas estruturas sindicais não-filiadas se terem juntado, e na participação das influentes Federação Camponesa e Coordenadora de Organizações Camponesas e Indígenas. Convergência em torno da rejeição da Lei de Aliança Público-Privada e da consequente privatização de empresas, sectores e recursos estratégicos do país; em defesa da reforma agrária num território onde 80 por cento da terra pertence a dois por cento da população e a pobreza extrema atinge 30 por cento da população rural; do aumento dos salários, e nomeadamente do salário mínimo em 25 por cento, e da melhoria generalizada das condições de vida do povo.

Dirigentes sindicais e camponeses fizeram entretanto saber que convocarão nova paralisação abandonando a mesa das negociações caso as suas reivindicações não sejam atendidas.

Governo vende-pátria

Depois do derrube do presidente Fernando Lugo, em Junho de 2012, a oligarquia nacional e internacional passou a contar com governos de uma fidelidade canina aos seus interesses. O actual presidente, Horacio Cartes, anuncia como objectivo da Lei de Aliança Público-Privada a captação de 16,5 mil milhões de dólares de investimento directo estrangeiro. Nem poder legislativo nem judicial podem interferir nos benefícios concedidos pelo chefe de Estado, prevê a norma. Já esta sexta-feira, 28, o Japão concedeu ao Paraguai um empréstimo de 175 milhões de dólares para obras na rede viária de duas regiões centrais no quadro das exportações do Paraguai, exigindo, em contrapartida, que os empresários nipónicos sejam tidos em contra no programa de privatizações e investimentos.

Alvo da cobiça do capital transnacional, também, o poderoso sector agro industrial do país, que é o quarto exportador mundial de soja, o oitavo de milho, o nono de carne de vaca e o décimo de trigo, isto para além de deter solos férteis por explorar e as maiores reservas aquíferas do mundo, e de ser um grande produtor de energia eléctrica, sobretudo para o Brasil e a Argentina.

Não é por isso de estranhar que a reforma agrária não passe de uma promessa vã e que, mesmo em casos em que os tribunais decidem a favor dos camponeses sem-terra, os agrários com títulos de propriedade ilegais impeçam a aplicação da sentença, como aconteceu faz amanhã uma semana. No total, estima-se que sete milhões de hectares de terra tenham sido roubados ao Estado e às comunidades pelos latifundiários.

O projecto que hoje cabe ao governo de Horácio Cartes aplicar é denunciado pelo Partido Comunista Paraguaio como contrário aos interesses populares e lesivo da soberania nacional. A luta de classes tende, por isso, a agudizar-se.


PCP saúda

Em notas enviadas no dia 28 de Março ao Partido Comunista Paraguaio e à Frente Guasú, o Secretariado do Comité Central do PCP saudou «a grande mobilização dos trabalhadores e do povo paraguaios em defesa dos seus direitos políticos e sociais, contra a política neoliberal e as medidas repressivas do governo de Assunção, subordinado aos interesses do grande capital transnacional e financeiro», e reafirmou a solidariedade do PCP «com a luta dos comunistas paraguaios e a convergência e unidade das forças representadas pela Frente Guasú».

Ao PC Paraguaio e à Frente Guasú, que o Partido saudou particularmente junto com «as diferentes forças que a integram e convergem na luta por um Paraguai democrático, de progresso e justiça social», o PCP expressou, ainda, que «o êxito da presente jornada confirma, uma vez mais, que perante as diferentes expressões e realidade da crise económica do capitalismo e a intensificação da ofensiva contra os trabalhadores e os povos – situação agravada no Paraguai com a consumação do golpe de Estado reaccionário que afastou, em 2012, o Presidente Fernando Lugo –, é através da via do desenvolvimento persistente da luta de massas que se poderá abrir o caminho das mudanças e transformações almejadas pelos trabalhadores e o povo paraguaios».




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