• Jorge Messias

A luta contra a fome<br> e outras lutas

«A agricultura de subsistência mundial foi pilhada pelos países centrais. A fome no mundo não é um problema episódico que possa ser resolvido pela intervenção caritativa ocidental ou no controlo dos preços e da produção prometido ao som de baladas celestiais… Só se resolverá com a instalação universal de Reformas Agrárias que devolvam aos países neocolonizados a soberania alimentar» (Ana Rajado e Renato Guedes, revista brasileira Rubra).

«As crises têm sido aproveitadas pelas classes dominantes como armas para reduzirem os custos da mão-de-obra, para transferirem receitas a favor dos 5% que constituem o cume da hierarquia de classe e para aumentarem a produtividade sem reactivarem a economia no seu todo. Os governos, quase sempre liderados pelas forças social-democratas, privatizaram empresas públicas, cortaram centenas de milhares de empregos públicos, elevaram o desemprego a níveis históricos e canalizaram dezenas de milhares de milhões para pagamento das dívidas externas» (James Petras, Universidade de Binghamton, USA).

«Todos os homens de boa vontade podem compreender quais são os desafios éticos ligados ao futuro da economia mundial: combater a fome… garantir a segurança alimentar… reunir reservas de alimentos de socorros mútuos… cerrar portas à corrupção… promover as hortas familiares… É o próprio Deus que nos chama, no “lamento do faminto”: “Afastai-vos de mim, malditos (os ricos)! Ide para o fogo eterno, previsto para o Demónio e para os seus Anjos… Porque eu tive fome e não me destes que comer” (Mateus, cap. 21). O cristão é chamado a escutar o apelo do pobre!» (Nota da Comissão Pontifícia Cor Unum).

Na luta contra as injustiças sociais nós, os comunistas, temos sempre presente uma distinção básica: apoiamos e compreendemos os crentes ou as instituições solidárias exclusivamente mobilizadas no sentido da promoção da justiça social; denunciamos e condenamos a Igreja institucional que se liga com os ricos e com eles partilha a suas ambição do lucro e do poder absoluto. Sobretudo, quando ela procura ocultar os objectivos globais do capitalismo com uma imensa falta de escrúpulos. A tal ponto a hierarquia religiosa e altamente conservadora olha com sobranceria a sua condição actual que não hesita em dizer-se e em desdizer-se, contradizendo o que de positivo se pode ainda encontrar nalguns conteúdos da própria doutrina católica. O sistema financeiro do Vaticano domina os mercados. O fosso entre ricos e pobres é cada vez maior. Assim, quem pode aceitar que, simultaneamente, do púlpito se proclame, como consta da Bíblia: «Os pobres herdarão a Terra!» e a prática da Igreja vise justamente o contrário?

Certo é, porém, que existe identidade entre os campos da religião e os de uma certa política. Ainda há poucos dias um dos mais destacados conselheiros de Cavaco Silva, o ultra-católico e neoliberal Vítor Bento, dissertava sobre esta questão central: «Pode a Religião salvar a Economia?». Evidentemente que, para ele e para aqueles que como ele pensam, economia é sinónimo de negócio, de conspiração ou de pacto secreto. Porque o Capitalismo, sobretudo na sua fase suprema de imperialismo, é uma religião.

Para os comunistas é tudo bem mais simples. São dialectas e terra-a-terra. Chamam as coisas pelos seus nomes. Foi o caso de Lenine que deixou escrito em relação à Terra, ponto de partida da luta contra a fome: «A terra é por nós considerada como propriedade comum. Que sucederá a essa noção de propriedade se eu tomar o meu quinhão e nele cultivar o dobro do trigo de que preciso e especular com o excedente, pensando que quanto mais fome os outros passarem mais caro me pagarão? Estarei a agir como um comunista? Não… Estou a agir como um explorador, como um proprietário. É contra esta mentalidade que é preciso lutar. Se as coisas continuassem assim, voltaríamos ao passado, voltaríamos a cair sob o poder capitalista e da burguesia, como sucedeu mais do que uma vez com revoluções anteriores...».

Os comunistas criticam e auto-criticam-se. Não são uma religião mas respeitam uma ética própria que vem constantemente ao de cima, sobretudo, nas fases críticas da História. As gerações de comunistas que ainda vivem e lutam por sociedades mais justas e humanas sabem que não terão suficiente tempo para ver concretizados os seus ideais. Imperturbavelmente, no entanto, a sua luta continua.

Lado a lado com muitos católicos, estamos certos!

 



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