• Henrique Custódio

Escorpião

As disjunções no Governo irrompem pelas brechas e o Executivo de Passos/Portas assemelha-se à carapaça instável de um vulcão, resfolegando fumarolas que lhe atardem a explosão piroclástica.

Todos os dias há novos episódios, sempre carregados de maior inverosimilhança e mais espessa insensatez. Como o que se passou com o esperado «chumbo» do TC: numa primeira reacção, o Governo acusou o Tribunal de «forçar ao aumento de impostos», impor «a continuação do resgate», «impedir o fecho da última avaliação da troika» e cercear o «recebimento da última tranche de dois mil milhões», para de seguida acusar directamente os juízes, a sua idoneidade, a sua competência e até a sua legitimidade, abrindo estas inacreditáveis hostilidades o próprio Passos Coelho que, com a voz colocada de artista de circo, pinoteou insultos do jaez de que «os juízes do TC têm de ser melhor escolhidos» e que a sua sentença «carece de aclaração», a que se seguiu as usuais asneiras-de-grande-porte cometidas pelo facundo Marco António Costa, que não perde uma ocasião para exibir o neurónio que Deus lhe deu, rematando Teresa Leal Coelho, a Némesis de serviço ao PSD que, apesar de formada em Direito, confessou que o seu partido «foi iludido» pelos juízes que nomeou para o TC e que este Tribunal «devia ser sancionado» por uma instância europeia – ou seja, a Constituição da República portuguesa devia «sujeitar-se» a juízos estrangeiros...

Não saciados com tanto desprezo democrático, esta ranchada consegue geralmente ir mais longe. E ei-los a atacar de seguida pela voz da ministra Luís Albuquerque, que anunciou, sem perturbações na voz (aliás, exprime-se, de uso, na monocórdia duma aluna interna), que afinal já não queríamos a «tranche» de dois mil milhões de euros, porque... não precisávamos.

Literalmente, de um dia para o outro a situação passou de novo resgate, perda de dois mil milhões e mais impostos «por causa» do TC – que foi insultado a granel –, a situação tão desafogada, que até dispensa os horas antes tão chorados dois mil milhões da «tranche».

Nada disto é inacreditável porque tudo neste Governo é possível, desde que não tenha a ver com honestidade, princípios, ética ou elementar democracia. O relaxo é tanto que a mentira circula como o sangue deste Executivo, já ninguém se parece importar com as contradições flagrantes, os desmentidos em cascata, as mentiras desavergonhadas, a incorência dos discursos, a óbvia e total ausência de escrúpulos a que reduziram o acto governativo.

Todavia, como o escorpião na boleia do sapo, continua a envenenar o País, ora fechando mais um centro de tratamentos continuados, ora legislando subtis alíneas que permitem às Finanças cobrar coercivamente dívidas de empresas privadas, e etc.

O escorpião picou o sapo apenas por feitio, mas o Governo envenena o País por convicto reaccionarismo.

 



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