• Anabela Fino

Fascismo silencioso

O fantasma do fascismo paira sobre a Europa. Embora seja impossível determinar o momento em que começou a manifestar-se, é um facto que os atentados terroristas de 11 de Setembro de 2001 nos EUA abriram a porta à imposição de legislação altamente restritiva da liberdade e dos direitos dos cidadãos naquele país e em todo o espaço europeu. Veio depois a «crise», também com origem no outro lado do Atlântico, com as consequências que se sentem deste lado. De súbito os trabalhadores e os povos da Europa ficaram a saber que viviam «acima das suas possibilidades», por isso se entendendo o trabalho com direitos, a habitação, o direito à saúde, à educação, à protecção social. Em menos de uma década registou-se uma regressão civilizacional tal que a expressão «escravatura do século XXI» entrou no vocabulário do velho continente.

Formalmente, claro, a democracia existe, mas a par da destruição paulatina de direitos elementares – apresentada sob a forma de «inevitáveis reformas estruturais» – sucedem-se casos de inegável matriz fascista. É o que se está a passar com a perseguição aos sem-abrigo, transformados em «inimigo público» a abater, não com a resolução das causas que lhes dão origem, mas escorraçando-os da sociedade. O caso extremo é o da Hungria, onde com a chegada ao poder da extrema-direita a escalada para a criminalização dos sem abrigo aumentou exponencialmente; dormir na rua é punido a nível nacional com multas e penas de prisão. O exemplo húngaro está longe de ser caso único. Em Liége, na Bélgica, mendigar tem horário, não podem estar mais de quatro mendigos na mesma rua e há espaços rigorosamente proibidos, como cruzamentos ou entradas de edifícios públicos, casas, empresas... Quem é apanhado três vezes em prevaricação é preso. Barcelona, Madrid, Roma, Verona enveredaram pelo mesmo caminho. Por uma questão de «higiene», como diz o presidente de Verona, eleito pelo partido da extrema-direita anti-imigração Liga do Norte.

Segundo o jornal The Guardian, que fez as contas, há na Europa 11 milhões de casas vazias e cerca de 4,1 milhões de sem abrigo, mas isso não interessa nesta história do fascismo silencioso que a direita está a escrever. Pensar que isto não nos diz respeito seria um erro trágico. Como diria Brecht, eles começam sempre por qualquer lado.




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