• Henrique Custódio

Não digam

Um estudo de dois anos, realizado em quatro hospitais públicos da Região Centro, apresentou, em Coimbra, os resultados dum trabalho que envolveu mais de 1500 doentes e 300 enfermeiros. E foram alarmantes: neste momento, e nos quatro hospitais públicos envolvidos, há serviços (e este é apenas um exemplo) com dois enfermeiros por turno e 25 acamados idosos com necessidades regulares de mudança de posição, não tendo os dois enfermeiros mais que três horas para dedicar a cada um deles, no somatório dos turnos de um dia inteiro. «Só isto», explicam, «obriga ao internamento de mais quatro dias a cada um destes doentes», o que, «a 400 euros/dia, dá 1600 euros», verba suficiente para pagar a mais um enfermeiro e evitar o problema.
(No noticiário das 13 do passado domingo apenas a RTP-1 deu esta notícia – talvez em desconto pelo mortal pecado de sempre acompanhar as deliquescências que (já) qualquer governamental figura decida obrar.)
Não é novidade: o exclusivo trabalho e o denodado empenho do ministro da Saúde visam a destruição do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Num sossego de necrópole, todos os dias se reduzem ou fecham serviços, hospitais são transformados em postos médicos e postos médicos riscados do mapa do SNS, Urgências atrás de Urgências vêem reduzidos horários de atendimento ou são simplesmente encerradas, as Maternidades vão na mesma enxurrada e tornou-se rotineiro haver partos em ambulância, a caminho da assistência que fecharam perto de casa. Quanto aos quadros centrais da Saúde – os médicos e os enfermeiros –, a sistemática e deliberada degradação das carreiras, dos salários e das condições de trabalho estão a empurrá-los, aos milhares, para colocarem ao serviço do estrangeiro (nomeadamente Reino Unido) as suas qualificadas habilitações.
O instrumento central desta manobra é a drenagem de verbas e meios, estudada com a meticulosidade que destacou o ministro Paulo Macedo na estratégia de extorquir dinheiro aos contribuintes na DGI do governo Barroso, em 2004, auferindo para isso 23 mil euros mensais, o triplo do primeiro-ministro de então.
Tendo em vista a destruição do SNS, o especializado Paulo Macedo foi, sem dúvida, uma escolha adequada.
Na Educação, a actuação do ministro Nuno Crato continua a encerrar escolas e a destruir carreiras, na Segurança Social os cortes são constantes, na legislação anti-laboral o Governo não descansa nem pára, na Justiça a ministra quer liquidar largas dezenas de tribunais – tudo a rolar, enquanto a «governação» caótica, incoerente e desacreditada continua.
Por isso não digam que «o Governo está morto e enterrado» ou tremendismos quejandos.Em cada dia que passa, este Governo continua mortalmente vivo, e a envenenar o País. Derrubá-lo é o imperativo.




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