• Filipe Diniz

Macarthismo

Uma centena de personalidades ligadas ao mundo do cinema espanhol publicou uma carta aberta em protesto contra o que justamente designava como «ofensiva criminosa» de Israel em Gaza.

O documento exprimia-se com vigor e com verdade: «Gaza vive nestes dias o horror, acossada e atacada por terra, pelo mar e pelo ar. As casas dos palestinianos são derrubadas, é-lhes negada a água, a luz, o acesso aos hospitais, às escolas, às hortas, enquanto a Comunidade Internacional o permite». Apontava a raiz do problema: «a ocupação israelita que continua a avançar e a invadir territórios em lugar de se retirar para as fronteiras de 1967». Apelava ao governo de Espanha e à UE a que condenassem este «genocídio contra a população civil palestiniana». Apelava à abertura da «via de diálogo entre palestinianos e israelitas para alcançar a paz, justa e duradoura, como solução para o conflito».

Tirando o lobby sionista e os jornalistas cúmplices que descrevem o massacre como uma «guerra» e que justificam cada barbaridade israelita com um «gesto de defesa», pouca gente deixaria de subscrever esta carta.

Mas em Hollywood levantou-se um coro miserável. Lá veio a acusação de anti-semitismo, lá vieram as invocações do Holocausto. E veio o recado dos directores dos estúdios: os actores Penélope Cruz e Javier Bardem, subscritores da carta, iam para a lista negra. O Macarthismo está tão vivo como o sistema que o gerou. O mesmo sistema que, sob o chapéu ciático do «Congress for Cultural Freedom» dos anos 50, 60 e 70, ou sob outras siglas do mesmo calibre, investiu e investe milhões de dólares para fomentar a «dissidência» de intelectuais, artistas, jornalistas e cientistas em países socialistas e em países com orientação progressista, reage com a mais violenta intolerância perante quem tenha a honestidade e a coragem de denunciar os seus crimes. Hollywood não contrata actores e realizadores, compra-os. Sendo hoje, maioritariamente, uma peça central na propaganda da guerra e na difusão da visão imperialista do mundo, profundamente agressiva e maniqueísta, a grande indústria cinematográfica dos EUA reage assim. Os seus «efeitos especiais» antecipam, espectacularizam e justificam os massacres reais. E quem tenha um mínimo de vergonha não tem lá lugar.




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