• Jorge Cordeiro

Cegueira ensaiada

Até algum tempo se daria por feliz coincidência, ou antecipada premonição, não se ter dado o infeliz caso de ver localizada, no Arco Cego, a sede do Banco de Portugal. Não por qualquer infundado ímpeto discriminatório para com o conhecido bairro mas porque, só por ironia, se devesse juntar a alegada função de supervisão da entidade a que Carlos Costa preside e o bairro que ostenta a designação de cego. Hoje muitos se interrogam e verberam o facto de ninguém ter tido o rasgo de ter juntado o que poderia ter constituído casamento perfeito. Olhando para o caso BES/GES razões de sobra haveria para assim pensar. Mas curto seria resumir tudo a um problema de maior ou menor acuidade visual ou mesmo à simples constatação, que no caso presente confirma, por inteiro, o acerto do conhecido ditado popular segundo o qual não há pior cego que aquele que não quer ver.

Só por ingenuidade se pode zurzir nas insuficiências da supervisão ou da regulação sem perceber que os que a exercem não só lá não estão para isso como pedir-lhes tal função seria, perdoado que seja o recurso à efabulação, encomendar à raposa a guarda das galinhas. Olhando-se para o topo do Banco de Portugal e vendo-se que por ali residem os que já passaram pela escola do BCP ou do BES, vendo regressar pela mão de Vítor Bento e Carlos Costa ao «Novo Banco» os que ainda há poucos dias haviam sido suspensos na sequência da gestão danosa do banco velho, vendo Ricciardi reconduzido para o BES internacional, é caso para se dizer que fiquem banqueiros e especuladores tranquilos porque o festim está para continuar. E se a isto se somar a contratação do filho de Durão Barroso para funções superiores no BdP por ajuste directo, ficará o filme feito sobre aquela separação entre poder político e económico e o apregoado combate à promiscuidade que Passos Coelho, talvez sob efeito de um golpe de sol, verbalizou sem o mais leve sorriso no Pontal. É caso para se dizer, olhando para a renovada imagem do Novo Banco sob o lema de «um bom começo» que não é difícil imaginar como vai acabar. Com o País e os portugueses a pagar o que, a pretexto da falta de visão ou deliberada cegueira, governantes e grande capital andam a tramar.

 



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