O apoio ao «Sim» foi maior nos centros operários
Escoceses contra políticas anti-sociais de Londres
Independência adiada

O referendo realizado, dia 18, sobre a independência da Escócia terminou com a vitória do «Não», após fortes pressões e muitas promessas de alargamento da autonomia.

O referendo mostrou que o eleitorado escocês está fortemente dividido. Se por um lado o «Não» venceu claramente, com 55,3 por cento (2 001 926 de votos), por outro, os partidários do «Sim» à independência alcançaram um resultado histórico, com 44,7 por cento (1 617 989 de votos), que inevitavelmente terá profundos reflexos na vida política, económica e social da Escócia.

Histórico foi ainda o nível de participação na consulta que atingiu a percentagem recorde de 85,6 por cento dos 4,3 milhões de eleitores.

Desde o início da campanha, o campo do «Sim» alargou-se significativamente, passando de cerca de 35 por cento creditado nas sondagens para um resultado final de 45 por cento.

Seria redutor atribuir-se este apoio massivo de quase metade do eleitorado a um mero surto de sentimento nacionalista. Na verdade o que esteve em debate neste referendo tem pouco a ver com nacionalismo e muito mais com os efeitos da ofensiva anti-social desencadeada pelos governos de Thatcher e prosseguida por Blair e Cameron.

Não foi certamente um acaso que o «Sim» tenha alcançado maior expressão nas regiões mais desfavorecidas e vencido nas cidades de grande concentração operária de Dundee e Glasgow, enquanto o «Não» se impôs com mais facilidade nas regiões mais prósperas.

Em causa está pois a política de Londres de privatização dos cuidados de saúde, de ataque ao ensino público gratuito, de discriminação dos imigrantes e, não menos importante, o militarismo britânico, que envia escoceses para os teatros de guerra e utiliza arrogantemente o seu território para o estacionamento de armas nucleares.

Todas estas questões estiveram no centro do discurso de Axel Salmond, líder do Partido Nacionalista Escocês, que, manipulando os genuínos sentimentos nacionais do povo escocês, chamou a si a defesa do serviço nacional de saúde e a educação contra a privatização, prometendo a retirada dos submarinos nucleares das águas profundas da Escócia e a «nacionalização» dos benefícios da exploração de petróleo no Mar do Norte, que hoje são transferidos directamente para os cofres centrais do Estado britânico.

Porém, as contradições de Salmond não passaram despercebidas. Ao mesmo tempo que defendia políticas sociais numa Escócia independente, o primeiro-ministro demissionário garantia a adesão à União Europeia e aos seus tratados anti-sociais.

Opondo-se ao militarismo e à presença de armas nucleares, assegurava que a futura Escócia seria membro da NATO. E querendo um país próspero e independente, desejava manter a libra como moeda, bem como a rainha como chefe do Estado.

A vitória do «Não» no referendo não apaga as razões de fundo que levaram à sua realização, entre as quais o aprofundamento da crise e das contradições que daí resultam – designadamente entre sectores do grande capital, nomeadamente no Reino Unido –, a contestação às políticas do governo britânico e da União Europeia, que estão na origem da profunda crise que alastra na Escócia (assim como no Reino Unido e noutros países da UE), ou ainda a rejeição das limitações à soberania e à independência dos estados por parte da União Europeia.

Promessas de autonomia

Para travar o vertiginoso ascenso do «Sim» nas últimas semanas, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, desfez-se em promessas de alargamento da autonomia e concessão de «excepções sociais».

Logo no dia seguinte ao referendo, Salmond, que anunciou a sua demissão do cargo de primeiro-ministro da Escócia e da liderança do partido, exigiu a concretização dessas promessas.

Em Londres, Cameron apressou-se a confirmar o aumento das competências nacionais:

«Tal como a Escócia aprovará separadamente no Parlamento escocês matérias relacionadas com as despesas e o Estado de bem-estar, também o farão a Inglaterra, Gales e o Norte da Irlanda», disse o chefe do governo britânico, na sexta-feira, 19.

Cameron anunciou ainda a nomeação de Lord Smith of Kelvin para supervisionar o processo de devolução de competências em matéria fiscal, despesa pública e política social.

Até ao final de Outubro, o governo britânico apresentará um documento com propostas concretas, com vista à elaboração de um projecto de lei até Janeiro próximo.

O novo sistema de autonomias do Reino Unido deverá ser concluído após as eleições legislativas previstas para Maio do próximo ano.

Como assinalou o jornal The Guardian, o resultado do referendo na Escócia poderá levar a uma profunda alteração do sistema político britânico. Mas como esteve patente na campanha, dificilmente contribuirá, sem o desenvolvimento da luta dos trabalhadores e do povo escocês, assim como dos trabalhadores e dos povos da Grã-Bretanha, para a resolução de muitos dos seus reais problemas e anseios, nem para a alteração das causas económicas e políticas essenciais que os determinam.

Radiografia do «Sim»

Uma sondagem da empresa de Lord Ashcroft, um apoiante do Partido Conservador, publicada no sábado, 20, no The Guardian, indica que 39 por cento dos votantes no «Sim» tomaram essa decisão ao longo do último mês que precedeu a consulta, o que confirma a acentuada subida do «Sim» nas últimas semanas.

Uma grande maioria dos votantes do «Sim» (74%) refere o «desencanto com os políticos de Westminster» (parlamento britânico) como uma das três principais razões do apoio à independência. O serviço nacional de saúde é referido por 54 por cento, enquanto 33 por cento evocam os impostos e a despesa públicas, e 20 por cento o petróleo escocês.

Para a maioria dos votantes do «Não» (57%), a manutenção da libra constituiu a principal razão do seu voto.

 



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