A Reforma Agrária pôs as terras abandonadas a produzir ao serviço do povo
Necessidade de uma Reforma Agrária
em evocação no Escoural
<font color=0093dd>O sonho há-de ser realidade</font></color>

Os 35 anos do assassinato de Caravela e Casquinha e do ataque à Reforma Agrária foram evocados no sábado, 27, em Santiago do Escoural, com a inauguração de um Memorial e a realização de um grande comício, contando ambas as iniciativas com a participação do Secretário-geral do PCP.

Inscritos na galeria de heróis que na sua luta por uma vida melhor, recusando a servidão e a exploração, tombaram às balas assassinas das forças repressivas, estão os nomes de José Geraldo («Caravela»), 57 anos, e António Maria Casquinha, 17 anos, da UCP Salvador Joaquim de Pomar, assassinados há precisamente 35 anos (27 de Setembro de 1979) quando defendiam solidariamente na herdade de Vale Nobre, pertencente à UCP Bento Gonçalves, a Reforma Agrária que arduamente haviam conquistado e que lhes trouxera trabalho, pão e uma vida digna.

Lembrá-los e prestar-lhes homenagem é, pois, evocar esses valores de coragem e entrega total que os animaram, como é também afirmar a fidelidade plena à continuidade da luta heróica que foi a sua. A luta pela Reforma Agrária, com a entrega da terra do latifúndio a quem a trabalha, a luta emancipadora por uma sociedade mais justa, livre e fraterna, sem grilhetas nem exploração.

Confiança no futuro

Esse foi o sentido maior que marcou as iniciativas do passado sábado e que foi partilhado de forma emotiva pelas centenas de pessoas, novos e velhos, que evocaram a memória de Caravela e Casquinha, esses «dois heróis e mártires da Reforma Agrária cujos nomes, tal como o de Catarina Eufémia e os de tantos outros, viverão eternamente no coração de todos os trabalhadores e de todos os portugueses que aspiram a um Portugal de progresso e de justiça social», como referiu no comício Jerónimo de Sousa.

Escutado por cerca de seis centenas de pessoas, sempre sob uma chuva miudinha (que até aí, apesar das ameaças de trovoada, dera tréguas), o dirigente comunista, depois de homenagear os dois operários agrícolas assassinados pela GNR e pelos agrários, falou da longa luta do proletariado rural pelo direito a trabalhar a terra, contra a fome e a miséria. Abordou de seguida as extraordinárias transformações operadas com a Reforma Agrária e que mudariam radicalmente a vida nos campos do Alentejo e Ribatejo, identificando, por outro lado, todo o processo de ilegalidades e crimes, bem como os seus responsáveis, que levaram à destruição daquela que por muitos é considerada como a mais bela conquista da Revolução do 25 de Abril.

O líder comunista aludiu, por outro lado, aos «tempos muito difíceis» que o povo vive, em resultado da política de direita, agravada com três anos trágicos de pacto de agressão, com «todo um programa de retrocesso e empobrecimento social» e de destruição de direitos, deixando, por fim, palavras de confiança na luta, convicto de que o «futuro pertencerá ao povo».

A anteceder Jerónimo de Sousa, chamados que foram para a mesa do comício eleitos autárquicos e dirigentes locais, regionais e nacionais do PCP, interveio Rui Montoito que, em nome da Comissão Concelhia do Partido, pôs em relevo o contraste entre o que foi e representou a Reforma Agrária e o que significou a sua posterior destruição. Sublinhado foi nomeadamente o facto de a Reforma Agrária ter posto as herdades antes subaproveitadas ou abandonadas a produzir ao serviço do povo, realidade que a contra-revolução mudou por completo levando a que, hoje, nessas mesmas terras, haja apenas «cercas de arame farpado e algumas cabeças de gado».

Abril de novo

Antes do comício, como ponto alto desta homenagem que veio a constituir-se em si mesmo num acto de reafirmação da necessidade de se concretizar uma Reforma Agrária – um sonho que o PCP não abdica de ver concretizado, como salientou o líder do PCP (ver caixa) –, tempo ainda para a romagem às campas de Caravela e Casquinha, no cemitério local.

Às três em ponto, com a chegada de Jerónimo de Sousa, logo um caudal de gente se formou em direcção às suas portas, dirigindo-se para o local onde se encontram os restos mortais dos camaradas assassinados. Foi aí, em cada uma das campas, que o líder comunista depôs um ramo de flores. Tudo sob completo silêncio, sublinhado alguns minutos depois por uma prolongada salva de palmas.

O mesmo silêncio, em atmosfera de recolhimento e pesar, que haveria de ser observado pouco depois no percurso que separa o cemitério da praça onde se realizou o comício. Silêncio apenas interrompido, uma e outra vez, quando da massa humana emergiu o grito, em forma de palavra de ordem, «Abril de novo, com a força do povo». Uma exigência que vai no coração do povo e que se amplia de Norte a Sul.

 



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