• Correia da Fonseca

Gente, lixo, África, mundo

Por alturas do Dia Mundial do Combate à Pobreza, embora não só nesse dia, a televisão costuma trazer-nos boas notícias. Boas mesmo, estreitamente relacionadas com bondade, isto é, com corações sensibilizados, com amor ao próximo ou pelo menos reconhecimento de que o próximo existe e anda por perto, com pendores para a dádiva do que não nos faça falta. Talvez mais do que em qualquer outra altura do ano, é o momento em que muitos se lembram daquela santa regra de investimento rendoso, de bom negócio, que ensina a vantagem de emprestar a Deus dando aos pobres pois, tanto quanto se sabe, Deus Pai é mais idóneo que o Espírito Santo, e não se está a falar aqui da sua Terceira Pessoa, apenas por mero acaso homónima. Assim, a televisão voltou agora a falar-nos do que, não sendo já novidade e tendo até sido já objecto de referência e louvor por parte do senhor Presidente da República, é sem dúvida uma clara marca do espírito de solidariedade desta nossa comunidade que já era cristã e passou a ser menos desperdiçada em resultado do efeito da crise, que como se sabe produz carenciados a tal ritmo e quantidade que até dá para exportá-los. E a coisa é simples: dia após dia, sobram da actividade de restauração e decerto também das mesas lautamente abastecidas grandes quantidades de comida cujo quotidiano destino era a lixeira mais próxima ou, mais exactamente, o contentor postado na rua. Pois bem, esse trajecto e esse destino foram alterados: onde até há pouco tempo estavam os recipientes de lixo indiferenciado onde a comida sobrante era lançada estão agora as mãos dos cidadãos mais desfavorecidos, digamos assim, e num segundo tempo as suas bocas e as dos seus filhos, assim se consumando uma forma de justiça social característica da Era Passos Coelho que nos cabe viver. É claro que os felizes beneficiários desta peculiar modalidade de partilha não podem escolher ementas nem exigir grande qualidade, essa fase está naturalmente reservada aos que estão na primeira linha de acesso aos bens alimentares, mas em princípio estão dispensados de remexer em contentores para matar a fome, espectáculo desagradável que muito se via e é de recear que continue a ver-se apesar da implementação da actividade caritativa que a TV noticiou e pode ser sumariamente descrita numa frase breve: onde dantes estava a lixeira estão agora mãos resignadas à esmola alimentar. Bem se diz por aí que o País está melhor.

A vingança de África

Porém, em colunas que têm por dever a abordagem do que na televisão vai acontecendo e sendo dito não pode ficar sem referência o justificado alarme provocado pela epidemia de Ébola que, com evidente falta de respeito pelas seculares diferenças entre África e os continentes povoados por pessoas evoluídas, decidiu atravessar mares, embarcar em aviões, e infiltrar-se não só em países da Europa mas também nos Estados Unidos da América. Ora, parece claro que não era isto o que estava combinado com a suposta ordem natural das coisas. A África foi, durante séculos, a larguíssima porção de terra e de gentes que fornecia a preços mínimos as matérias-primas e a mão-de-obra que permitiam negócios, desenvolvimentos, luxos, aos que tinham a força militar. É certo que, décadas atrás, aos africanos deu para acederem à independência política, o que naturalmente causou transtornos aos seculares hábitos, mas de um modo ou de outro a exploração continuou graças a diversas formas de pressão. E, é claro, as fomes e outras formas de penúria, incluindo a ausência de elementar saneamento básico, foram mantidas como uma espécie de sinistro ex-líbris da miséria em que milhões de africanos continuam a ser mantidos. Eis, porém, que de súbito o Ébola salta desse caldo de pobreza e abandono sob a forma de uma epidemia que parecia nem merecer o esforço de procura de uma vacina que as populações atingidas, pobríssimas, nem poderiam pagar. Eis que o Ébola, passageiro clandestino, desembarca na Europa e na América do Norte. Sem respeito nenhum pela ordem estabelecida. Como se África quisesse vingar-se de séculos de sujeição e sofrimento. Obrigando o mundo, desta vez, a tomá-la muito a sério.




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