• João Ferreira

Comentário
«A ascensão dos Vallenzi»

Num dos seus últimos números (04/10/2014), a revista «The Economist», ponta-de-lança mediática do neoliberalismo mais assanhado, sob o sugestivo título que encima esta crónica, dedicava um artigo à situação em França e em Itália e às fundadas esperanças depositadas nos seus primeiros-ministros, respectivamente, Manuel Valls e Matteo Renzi, para levar a cabo «reformas económicas» necessárias.

A revista louva a agenda «blairista» de ambos, recordando os tempos em que a social-democracia, de Schroeder a Blair, passando por Jospin, Prodi e Guterres, estava instalada na maioria dos governos da Europa. Com os resultados que se conhece.

Em Itália, Renzi, ao mesmo tempo que recebe os encómios da Economist, enfrenta a contestação dos sindicatos. O intrépido reformador avançou com uma proposta de alteração da legislação laboral, afirmando ser necessário «eliminar o veneno que mata o investimento» – ou seja, o trabalho com direitos. O objectivo: embaratecer os despedimentos. Onde é que já vimos isto…? Eis o rasgo «progressista» de Renzi – insistentemente incensado pela família «socialista» europeia. Mas há mais. Uma vez eleito, Renzi começou por lançar mãos à tarefa de mexer no sistema eleitoral. Objectivo: reconfigurar o sistema de representação, de forma a assegurar condições de «governabilidade», ou seja, forçar maiorias artificiais, que se afastam da vontade expressa pelos eleitores em urnas mas aproximam da necessidade de assegurar a continuidade de uma mesma política no quadro da alternância entre a direita e a social-democracia. Perante um sistema de representação profundamente desacreditado aos olhos do povo, justamente recalcitrante por isso, cada vez mais, no que toca a dar o seu voto aos habituais dois intérpretes de uma mesma política, se a alternância é difícil pela aritmética dos votos, a engenharia eleitoral dá uma ajuda. A Economist rejubila: há «razões de esperança. O Sr. Renzi levou a cabo mudanças constitucionais que tornarão mais fácil forçar reformas difíceis».

Em França, Valls, conhecido enquanto ministro do interior por uma postura xenófoba, que a Frente Nacional de Marine Le Pen não desdenharia, foi promovido por Hollande a primeiro-ministro. Perante as críticas que se seguiram à agenda «reformadora» de Valls, Hollande – o homem que ia mudar o mundo e a Europa – reafirmou a confiança total no primeiro-ministro e reforçou o seu poder. A Economist define assim a missão abraçada por Valls: «reconciliar a esquerda com os negócios». Com esse objectivo, já em 2015 serão reduzidas as contribuições dos patrões para a Segurança Social. Os cortes nos apoios sociais serão de 9,5 mil milhões de euros. No seu conjunto, o orçamento do Estado será espremido em 21 mil milhões de euros de investimento público. A taxa prometida por Hollande, em campanha, sobre os escalões de rendimentos mais elevados tem morte anunciada. As reformas estendem-se, está claro, às leis laborais. Aumentar a competitividade é o mote, pouco original – que põe em causa as 35 horas semanais e, em certos casos, o descanso aos domingos. A «simplificação» da legislação laboral, assim designada, entre outros aspectos, acaba com os conselhos de trabalhadores nas grandes empresas, previstos na lei e que têm intervenção em domínios como a higiene e segurança no trabalho. Os desempregados que recebem o subsídio de desemprego estão também debaixo de fogo. A retórica justificativa é bem nossa conhecida: «Há que estimular a procura activa de emprego». Também na legislação do arrendamento se prepara alterações – e não serão para defender os inquilinos…

A ascensão dos Vallenzi merece ser perscrutada. Depois do desastre económico e social a que conduziram anos de governos e políticas de direita, em Itália e em França, a social-democracia assume o governo de turno, para continuar as mesmas políticas de direita, agora com consequências mais graves.

Com as respectivas economias mergulhadas em recessão ou, na melhor das hipóteses, enfrentando uma estagnação duradoura, França e Itália, respectivamente a segunda e a terceira maiores economias da Zona Euro, enfrentam níveis de desemprego elevados, desequilíbrios orçamentais persistentes e dívidas públicas estratosféricas (130 por cento do PIB em Itália e 95 por cento do PIB em França, cerca de dois biliões de euros). Os Vallenzi prometem a mudança. Chegaram ao poder na sequência de uma profunda insatisfação e revolta com as políticas de personagens tão sinistros quanto Sarkozy e Berlusconi. Mas ao verem que à alternância não corresponde uma verdadeira alternativa, o sentimento de frustração apodera-se de milhões de franceses e de italianos e abre caminho ao avanço da extrema-direita e dos mais desbragados e inconsequentes populismos.

Por cá, Costa e o PS esperam a confirmação da velha máxima da alternância: as eleições não se ganham; quando outros as perderem, o poder cairá de maduro em novas mãos, prontas a dar continuidade às mesmas velhas políticas. A seu tempo, lá virão as encomiásticas referências ao denodo reformista do Vallenzi nacional. O fim desta história está porém ainda por escrever…




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