• Henrique Custódio

Estradas

Eduardo Catroga declarou que este Orçamento «tem de acreditar» em várias coisas («retoma nacional», «retoma europeia» e etc.), uma espécie de matéria de fé.

Este feliz economista dos Mellos, que Cavaco catapultou para a ribalta como seu ministro das Finanças, teve uma vida cheia ao serviço da CUF e depois na governação de Cavaco (onde exibiu estimadas prestações na política de estrangulamento da economia). E se caracteriza por exibir ultramontanismos vários: económicos, financeiros, políticos e até de linguagem. Basta lembrar o ritmo alambazado que imprimiu às negociações com o PS/Sócrates para o OE de 2011 ou na elaboração do «programa de governo» do Executivo Passos. Foi o tempo em que Catroga determinou, agastado, que não perdia tempo «com pintelhices». Agora, só pretendia dizer que este era «um Orçamento de risco», a par de outros galhardetes, como o de que os portugueses «têm de se habituar a baixos salários».

Portanto, até esta criatura inferiu reservas ao OE/2015.

O que realmente conta é que ninguém engoliu a monumental treta do Governo, a vender este Orçamento como um «benefício» para as famílias, quando o que, efectivamente, realiza é um novo aumento de impostos (vide «imposto verde» ou sobre os combustíveis), enquanto mantém e aperta os garrotes conhecidos sobre trabalhadores e pensionistas.

O Governo Passos/Portas já fez tudo e mais um par de botas em matéria de burla governativa: para se alcandorarem «numa maioria» juntaram os fracos resultados de cada um em 2011 (PSD 38,65% e CDS 11,7%), e, desde aí, construíram uma sólida reputação de mentirosos: mentiram ao eleitorado garantindo que não aumentariam impostos e, em três anos, lançaram uma inaudita carga fiscal que pôs a economia de rastos, o desemprego a disparar em flecha, os reformados e os cidadãos a verem desaparecer o Estado como «pessoa de bem», para se transformar num predador fiscal e numa entidade sem regras, sem princípios, sem responsabilidade social e ele próprio um predador de topo que age em rapina sobre os mesmos de sempre: os trabalhadores públicos e privados, as pequenas e médias empresas, os reformados e todos os fragilizados sociais que recebiam subsídios de desemprego ou de reinserção social, tudo decidido contra a Constituição e consentido por um Presidente da República que se deixou capturar por esta governação revanchista.

E a depredação deste OE/2015 continua, assente num recorde de carga fiscal de 38% do PIB, coisa nunca vista em países civilizados.

Há por aí comentadores a decidir que Passos não fez um OE «eleitoralista», porque visa mais longe – o seu «papel» na História.

Já podemos dizer-lhe qual vai ser: o de um reaccionário de meia-tigela que caiu do cavalo abaixo, não na Estrada de Damasco, mas na Estrada de Abril que se esforçou por destruir.

 



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