Há um importante processo de rearrumação de forças à escala mundial que, acompanhando o declínio relativo dos EUA, questiona objectivamente o domínio hegemónico do imperialismo
Entrevista com Ilda Figueiredo
É imperioso e urgente<br>reforçar a luta pela Paz

«Se a situação internacional encerra sérios e grandes perigos, abre igualmente grandes potencialidades para a luta de emancipação dos trabalhadores e dos povos, para a luta pela Paz» – afirma Ilda Figueiredo, presidente do Conselho Português para a Paz e Cooperação (CPPC) em entrevista ao Avante!, onde entre outros aspectos refere a importância do Concerto pela Paz do próximo dia 22 como meio de mobilizar vontades, que é preciso alargar muito, face à ameaça da guerra com o seu rasto de barbárie e destruição.

O CPPC tem agendado para os próximos dias duas iniciativas de grande importância: a 25.ª Assembleia da Paz e o Concerto pela Paz. No caso do Concerto, para além de ser uma iniciativa pouco habitual – pelo menos nos anos mais recentes – é particularmente exigente do ponto de vista da mobilização. Que razões levaram o CPPC a avançar para uma acção desta envergadura?

A preocupante situação internacional, com o crescimento de ameaças à Paz em diferentes regiões do mundo e a necessidade, sentida por muitos homens e mulheres amantes da paz, de expressar a sua indignação face às guerras de agressão. Assim, procurámos criar uma oportunidade de não só expressar essa indignação mas também poder afirmar, a muitas vozes, a solidariedade com os povos vítimas do colonialismo, de actos de ingerência externa e de conflitos armados, de injustiças e desigualdades sociais, da opressão do desrespeito da sua soberania e independência nacionais.

Com este Concerto Pela Paz, que tem o apoio das câmaras municipais de Lisboa e de Loures, e a intervenção solidária de muitos artistas, queremos dar voz a todas as palavras de indignação às agressões aos povos que se mantêm em várias regiões do mundo e fazer um apelo ao reforço da solidariedade e da luta pela Paz que o povo português sabe ter quando é necessário.

Veja-se como em pleno mês de Agosto foi possível, em Portugal, em zonas tão diferentes como Braga, Aveiro, Lisboa, Porto ou Coimbra, realizar diversos protestos públicos, concentrações e vigílias, que mobilizaram milhares de pessoas contra a agressão de Israel à martirizada Palestina e de solidariedade com um povo palestino que sofre a opressão e a colonização.

Mas os povos vêem crescer estas ameaças em vastas zonas do Médio Oriente e na própria Europa. Depois da destruição da Jugoslávia; da agressão ao Afeganistão, ao Iraque e à Líbia; da operação contra a Síria; das ameaças sobre o Irão; do crescente intervencionismo militar e operações de recolonização em África; da galopante militarização do Extremo Oriente visando a China e a permanente tensão na Península da Coreia; do bloqueio contra Cuba e da desestabilização na Venezuela e noutros países da América Latina, assistimos ao premeditado agravamento da situação na Ucrânia, visando a escalada de confronto com a Federação Russa.

Estas expressões da escalada agressiva das potências ocidentais dominantes para impor os seus interesses demonstram a necessidade de, com urgência, se trabalhar na convergência das forças que possam confluir na luta contra as guerras imperialistas, contra a opressão e a ameaça do fascismo e pelo fortalecimento do movimento da paz e de solidariedade com os povos.

Note-se como os EUA e os seus aliados, designadamente potências da União Europeia, reforçam as suas alianças político-militares, avançam na corrida aos armamentos e no militarismo, instrumentalizam forças fascistas e terroristas, generalizam focos de tensão e de desestabilização, fomentam a ingerência, a agressão e a guerra. Em Setembro passado, na Cimeira da NATO, no país de Gales/Reino Unido, foi claro esse propósito de reforçar orçamentos militares para uma intervenção de crescente agressividade, o que representa uma séria ameaça para a paz no mundo, num quadro em que uma nova guerra mundial poderia significar o aniquilamento da Humanidade.

Neste contexto, aos amantes da paz coloca-se a exigência do fortalecimento da luta em prol do desarmamento, em particular do desarmamento nuclear, do fim das bases militares estrangeiras, da dissolução da NATO, da resolução pacífica dos conflitos internacionais, do respeito da soberania e independência nacional, do progresso social, da amizade e cooperação entre os povos – de uma acção que contribua para a ampliação da consciência de que a causa das guerra radica no próprio sistema que a engendra, o capitalismo.

Com este Concerto pela Paz o CPPC quer dar o seu contributo para esse mobilizar de vontades, que é preciso alargar muito, face à ameaça da guerra com o seu rasto de barbárie e destruição. Como habitualmente dizemos: pela paz, todos não somos demais.

 

No que respeita à assembleia, que se realiza numa altura em que aumenta a tensão a nível internacional, designadamente na escala de confrontação do binómio NATO/UE contra a Rússia e na persistência/multiplicação das guerras de agressão, quais serão as questões em destaque?

Nesta 25.ª Assembleia da Paz vamos, naturalmente, reflectir sobre a evolução da situação nacional e internacional após a última assembleia, que se realizou em 7 de Dezembro do ano passado, e, face aos objectivos e ao Plano de Acção que aprovámos para o biénio 2014/2015, tentaremos aprofundar as medidas que importa tomar para reforçar o movimento da paz em Portugal, dando assim também o nosso contributo para o reforço do movimento da paz no plano mundial.

Sem dúvida que é notória a crescente agressividade do imperialismo, a partir dos EUA e das potências suas aliadas. Foi claro durante todo o Verão com os bombardeamentos de Israel à Palestina e os bombardeamentos, que prosseguem, de EUA e seus aliados em vários países do Médio Oriente sob o pretexto de «combate ao terrorismo», nomeadamente ao chamado «estado islâmico». Seguiram no mesmo sentido o reforço da militarização e da ingerência aprovados na Cimeira da Nato, e as sucessivas decisões da União Europeia convergindo com os EUA, designadamente nas provocações à Federação Russa.

Tudo isto estará em debate na nossa Assembleia da Paz, até porque são muito preocupantes os avanços das forças de extrema-direita na Europa, com destaque para a Ucrânia, onde o golpe antidemocrático de Fevereiro passado levou ao poder forças de extrema-direita e fascistas, com apoio da União Europeia e dos EUA.

Toda esta evolução demonstra a necessidade e urgência do desenvolvimento e reforço do movimento da Paz em Portugal e no mundo.

É também nesse sentido que o CPPC está a preparar em conjunto com a CGTP-IN e o MPPM uma importante Conferência de Solidariedade com a Palestina, que se vai realizar a 29 de Novembro, em Almada.

Entretanto, iremos debater a possibilidade de realizar um conjunto de acções para o próximo ano, preparando posições públicas e materiais que denunciem a guerra e o militarismo, a ingerência e a agressão do imperialismo, continuando a dar particular atenção à situação na Ucrânia e União Europeia. Assumirá particular atenção o assinalar dos 70 anos do fim da Segunda Guerra Mundial, incluindo a criação da NATO e a exigência da sua dissolução como aspectos importantes da luta pela Paz.

Mas continuará a merecer toda a nossa atenção a solidariedade com a luta dos povos do Sara Ocidental, da Palestina e de todo o Médio Oriente contra as agressões, o colonialismo e as ingerências externas de que são vítimas. Tal como continuaremos a luta contra o bloqueio dos EUA a Cuba, a solidariedade com a República Bolivariana da Venezuela, com os povos de África e outros que, em cada momento, se mostre necessário

 

Tem-se notado nos últimos tempos uma intensificação da acção do CPPC um pouco por todo o País. Que avaliação fazem da vossa actividade? Que perspectivas de futuro apontarão na assembleia?

Temos procurado chegar a mais pessoas, intervir em mais zonas do País, lançar programas de educação para a Paz em colaboração com autarquias e escolas, como já aconteceu com as duas exposições que estão a circular: «Construir a paz com os valores de Abril», produzida em colaboração com as câmaras municipais de Almada e Seixal, e «100 anos da Grande Guerra e a luta pela Paz», que contou com o apoio das câmaras municipais de Loures, Constância e Vila Nova da Barquinha.

Alguns exemplares da primeira exposição já estão a circular em zonas tão diferentes como o Algarve, Porto, Coimbra e Trás-os-Montes, além dos municípios que mantêm connosco uma cooperação mais estreita, como já referi. Com essa exposição queremos assinalar que a Revolução portuguesa se inseriu no amplo movimento, e tempo, de avanço da emancipação social e nacional que marcou a década de 70 do século passado, na sequência da vitória sobre o nazi-fascismo e da correlação de forças favorável às forças democráticas e antifascistas, da paz e da libertação nacional, do progresso e do socialismo, que marcou a segunda metade do século XX.

Recentemente, inaugurámos em Constância, Loures e Sesimbra a segunda exposição «100 anos da Grande Guerra e a luta pela Paz» onde Portugal participou, designadamente através do Contingente Expedicionário Português, o que teve consequências dramáticas para o povo português.

O CPPC está também a tentar convergir com sindicatos e outras organizações da paz em acções de luta e denúncia das agressões contra os povos. Igualmente participamos solidariamente nas manifestações de luta da CGTP-IN, com quem mantemos um protocolo de colaboração, por considerarmos que a construção da Paz exige o combate às desigualdades sociais e à exploração de que são também vítimas os trabalhadores portugueses.

Reforçámos o trabalho dos núcleos no Porto, Coimbra, Évora, Beja, Seixal e estamos a dinamizar a criação de novos núcleos, designadamente em Setúbal, Almada, Lisboa. Pretendemos também que nos municípios onde se realizaram recentemente iniciativas ou se estabeleceram protocolos de colaboração com as autarquias, haja núcleos do CPPC com funcionamento regular.

Temos procurado assegurar uma maior regularidade e divulgação do boletim Notícias da Paz e alguns núcleos estão a desenvolver ciclos de cinema e debates com êxito.

 

As ameaças à Paz de que falaste exigem o reforço do movimento da Paz à escala mundial. O CPPC tem particulares responsabilidades no seio do Conselho Mundial da Paz. Que nos podes dizer sobre o estado actual do movimento da Paz?

O Conselho Mundial da Paz (CMP) está a assinalar os 65 anos da sua criação. Tem desempenhado um importante papel na luta anti-imperialista. A última Assembleia do Conselho Mundial da Paz, em que participei em representação do CPPC, foi em Julho de 2012, no Nepal. Aí aprovou-se uma importante Resolução de denúncia do imperialismo, do militarismo, da NATO e de apelo ao reforço da luta anti-imperialista e de solidariedade com os povos vítimas do colonialismo, das agressões, da barbárie da guerra e da NATO.

Depois disso, realizou-se, em Portugal, no Seixal, em Julho de 2013, uma reunião de secretariado do CMP e uma reunião dos movimentos da Paz da Europa que são membros do CMP. Recordo que o CPPC é coordenador para a Europa e faz parte do secretariado e do executivo do CMP. E no final do ano passado houve uma reunião do executivo do CMP em Caracas, na República Bolivariana da Venezuela, onde também participei em representação do CPPC.

Já este ano realizou-se uma nova reunião da região Europa em Belgrado, na Sérvia, aproveitando-se a solidariedade do Fórum de Belgrado por um Mundo de Iguais, por ocasião da realização da sua Conferência Internacional organizada em colaboração com o CMP, nos dias 22 e 23 de Março de 2014 – «15 anos depois do início da agressão da NATO contra a Sérvia e Montenegro».

Agora está prevista uma reunião do executivo do CMP que se realizará em Goa, na Índia, nos dias 26 e 27 de Novembro, a que se seguirá uma Conferência Internacional de Solidariedade com a Palestina. Eu e o Filipe Ferreira iremos representar o CPPC nestas iniciativas do CMP em colaboração com o Movimento da Paz da Índia.

Também aí iremos debater iniciativas que possibilitem o reforço do movimento da paz face à ofensiva imperialista e aos perigos que a humanidade corre. Sabemos que a ofensiva do imperialismo se confronta com a resistência dos trabalhadores e dos povos. Apesar de, ao nível mundial, os tempos serem ainda de resistência e acumulação de forças, as dificuldades, as contradições, a crise em que o capitalismo está mergulhado e, sobretudo, a luta crescente dos trabalhadores e dos povos em todo o mundo, podem travar os sectores mais reaccionários e agressivos do imperialismo, impor-lhe revezes e recuos e alcançar importantes conquistas e transformações progressistas e revolucionárias.

Há um importante processo de rearrumação de forças à escala mundial que, acompanhando o declínio relativo dos EUA, questiona objectivamente o domínio hegemónico do imperialismo. É um complexo processo que, não isento de contradições, pode abrir perspectivas positivas na evolução da correlação de forças a nível mundial, assim consiga resistir à tentativa de recuperação imperialista e os processos de afirmação da soberania e independência nacionais caminhem na via de mais avançadas transformações anti-monopolistas e anti-imperialistas. Se a situação internacional encerra sérios e grandes perigos, abre igualmente grandes potencialidades para a luta de emancipação dos trabalhadores e dos povos, para a luta pela Paz.

Daí considerarmos de grande importância a convergência e unidade do Conselho Mundial da Paz com outras forças progressistas e anti-imperialistas, em prol do direito à autodeterminação dos povos e da luta de libertação do domínio colonial, contra o fascismo e a opressão, pela liberdade e a democracia, em defesa da soberania e independência nacionais e do direito dos povos a optar por processos de transformação anti-monopolista e anti-imperialista, na luta pelos seus justos direitos e aspirações, pela paz e amizade e cooperação com os povos de todo o mundo.




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