As instalações não foram aproveitadas
e a I&D foi vendida
a uma multinacional
Parem e não repitam o crime da Sorefame
Marcha pela EMEF

Dez anos depois do encerramento da Sorefame, é preciso evitar que o Governo faça o mesmo à EMEF, a empresa que garante a segurança e a fiabilidade do material circulante da CP, alertaram centenas de trabalhadores na Amadora e em Lisboa.

Na quarta-feira da semana passada, dia 3, uma manifestação de trabalhadores da EMEF e de antigos trabalhadores da Sorefame percorreu cerca de doze quilómetros, para alertar a população acerca do perigo que corre a empresa de manutenção e reparação do Grupo CP, colocada na mira do Governo como alvo de uma privatização que terá como consequência a destruição.
A concentração começou às 9h30, nas instalações que antes foram da Sorefame e hoje alberga os serviços centrais da Empresa de Manutenção de Equipamento Ferroviário. No comunicado dos promotores da jornada – a Comissão de Trabalhadores da EMEF, os sindicatos dos Ferroviários e SITE CSRA e a União de Sindicatos de Lisboa da CGTP-IN – cuja distribuição foi feita ao longo do percurso da marcha, recorda-se precisamente que «uma das vitórias alcançadas pelos trabalhadores da Sorefame foi terem impedido que os terrenos da fábrica na Amadora fossem parar à especulação imobiliária».
Há oito anos, passou para a posse da EMEF o território onde foram produzidos os comboios que equipam a Linha de Sintra da CP e todos os comboios do Metropolitano de Lisboa, entre tantos outros. Foi declarada a intenção de ali instalar um pólo tecnológico e desenvolver valências produtivas, «mas as políticas de desinvestimento no aparelho produtivo continuaram». As organizações dos trabalhadores denunciaram, naquele folheto, que as instalações «nunca foram devidamente aproveitadas» e que «mesmo a unidade de investigação e desenvolvimento [I&D] aí montada foi vendida, o ano passado, à multinacional Nomad, pois estava a desenvolver projectos com um enorme potencial à escala mundial».
Também nas demais oficinas da EMEF (Matosinhos, Porto, Entroncamento, Lisboa, Oeiras, Barreiro e Vila Real de Santo António) «a tónica tem sido o desinvestimento, o despedimento de trabalhadores e a contratação de serviços externos, a crescente importação de serviços de Espanha».
No Orçamento do Estado para 2015, o Governo formalizou a intenção de privatizar a EMEF, a qual já tinha constado em 2010 no PEC do Executivo do PS e de Sócrates.
É essa intenção que a luta dos trabalhadores vai derrotar, porque «Portugal precisa da EMEF», e precisa dela «criando trabalho e produzindo riqueza, assegurando a manutenção e reparação dos comboios com qualidade e fiabilidade» e «avançando rumo a uma crescente incorporação nacional na produção de material circulante». Só que, «para isso, faz falta um governo que, em vez de pôr o País à venda para pagar juros e assegurar dividendos, aposte no trabalho e no desenvolvimento do aparelho produtivo», concluem as organizações dos trabalhadores.
Os promotores desta acção convidaram várias entidades, como as câmaras dos municípios com estabelecimentos da EMEF e todos os grupos parlamentares. Marcaram presença, em sinal de solidariedade, Bruno Dias, deputado do PCP, e deputados do PEV e do BE; o presidente da CM do Barreiro, Carlos Humberto (PCP) e vereadores do Partido nas câmaras da Amadora e de Lisboa.
No final da marcha, os participantes concentraram-se na Praça Luís de Camões, perto do Ministério da Economia, onde intervieram o coordenador da Fectrans, José Manuel Oliveira, e o Secretário-geral da CGTP-IN, Arménio Carlos. Outras intervenções tinham sido feitas no início da marcha e na Praça de Espanha.
A Fectrans revelou que foi recebida uma mensagem de solidariedade de Ricardo Maldonado, Secretário-geral da União Internacional dos Sindicatos de Transportes, Pescas e Comunicações, estrutura sectorial da Federação Sindical Mundial.

 

Luta com razão

O fim da Sorefame, aos 60 anos, foi ditado pela multinacional Bombardier em 2003, seguindo-se um ano de intensa e dura luta dos trabalhadores, recusando o desemprego e exigindo que ali se mantivesse uma unidade industrial para construção de material circulante ferroviário.
Antes, desde 1990 e na medida em que as decisões políticas de governos do PS e do PSD se conseguiam impor à luta dos trabalhadores, a empresa que construía comboios e barragens e tinha prestígio internacional consolidado por esse trabalho, tinha sido entregue à ABB, que mais tarde se tornou AD Tranz.
«Começou o rolo compressor do capitalismo e dos monopólios», refere-se no folheto distribuído dia 3 e no qual se recorda os argumentos que justificavam essas opções, como «era preciso privatizar para modernizar e haver investimento», «era preciso acabar com o proteccionismo, e o País começou a comprar comboios na Áustria, na França e na Alemanha».
Com «uma luta heróica», os trabalhadores da Sorefame alertaram há dez anos para as consequências que teria a destruição do aparelho produtivo, e «tinham razão, como hoje é evidente».

 



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