António Dias Lourenço passou 17 anos preso
Dias Lourenço evadiu-se de Peniche há 60 anos
Salto para a liberdade e para a luta

O PCP evocou a fuga de António Dias Lourenço da fortaleza de Peniche, concretizada na noite de 17 para 18 de Dezembro de 1954, que devolveu à luta revolucionária este destacado dirigente comunista.

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A evocação teve lugar no dia 18, no Forte de Peniche, onde até há 40 anos funcionou uma das principais prisões políticas do fascismo, por onde passaram mais de dois mil prisioneiros. Com a sessão pública realizada no salão nobre do forte, o PCP pretendeu lembrar a audaciosa fuga protagonizada por António Dias Lourenço, denunciar o fascismo, a sua natureza e os seus crimes e valorizar a resistência que desde a primeira hora a ditadura teve que enfrentar.

Na sessão, participaram dezenas de pessoas, entre comunistas e independentes que a ela se associaram. Entre os participantes estavam, entre outros, Manuela Bernardino, do Secretariado do Comité Central, e António José Correia, presidente da Câmara Municipal de Peniche. Depois da leitura de um poema de José Carlos Ary dos Santos, coube a Domingos Abrantes – ele próprio um antigo preso político e protagonista de uma outra fuga audaciosa, da prisão de Caxias, em 1961 – referir alguns aspectos marcantes da fuga de Dezembro de 1954 e da vida de António Dias Lourenço.

No que respeita à evasão, Domingos Abrantes lembrou que ela se deu a partir do chamado «redondo», situado no extremo da cadeia junto ao mar e que os carcereiros tinham transformado em célula disciplinar, «o segredo», para onde eram enviados os presos sujeitos aos mais pesados castigos. Preparada durante semanas, na solidão, ela constituiu, «pelo tempo e pelas condições de completo isolamento em que foi preparada, pelos perigos que comportou, pela audácia exigida, pelo facto de não poder contar com apoio exterior, a mais audaciosa e espectacular de todas as fugas individuais que tiveram lugar a partir das cadeias fascistas».

Esta fuga, afirmou ainda Domingos Abrantes, representou «uma derrota para o odioso regime prisional implantado no Forte de Peniche, sob a direcção do famigerado Ramos, o chefe dos guardas, do aparelho repressivo fascista, e uma vitória política do PCP». Fugir do «segredo» não era uma hipótese que os carcereiros colocassem, uma vez que os presos para lá enviados eram «totalmente despidos, as roupas passadas a pente fino e despojados de qualquer objecto» e a vigilância era assegurada por um posto próprio da GNR. Além disso, a altura que separava o «segredo» do mar seria suficiente para desmoralizar mesmo os mais afoitos. Enganaram-se.

Superar obstáculos

Domingos Abrantes sublinhou ainda a tenacidade e coragem demonstradas por António Dias Lourenço, que foi capaz de ultrapassar todos os imensos obstáculos que o separavam da liberdade e do retorno à luta clandestina do Partido. Em primeiro lugar, conseguiu introduzir no «segredo» uma faca de sapateiro, contornando a apertada e constante vigilância. Durante semanas, «paciente e laboriosamente, foi rasgando com a ponta da faca um postigo na porta da cela por onde devia aceder ao exterior, trabalho tão bem dissimulado que os carcereiros, apesar das vistorias diárias, nunca detectaram os rasgos na porta».

Na madrugada de 17 de Dezembro, acabou de cortar o postigo e, com a trouxa da roupa e as botas à cabeça e munido de uma corda feita dos cobertores cortados às tiras, «saiu pelo postigo e, iludindo a vigilância da GNR, inicia a fuga». Se até aqui tudo correra como previsto, houve imprevistos – que podiam ter sido fatais: a corda não tinha comprimento suficiente para chegar ao mar, que estava a uma distância muito maior do que o imaginado, pelo que Dias Lourenço teve que se deixar cair para o mar encarpelado de uma altura significativa, acabando por perder a trouxa e as botas. Estando a maré a vazar, ao contrário do que calculva, foi ainda arrastado no sentido oposto à praia. Quando conseguiu chegar a terra, depois de uma hora e meia a debater-se com a corrente e com o mar gelado, encontrava-se completamente exausto e próximo da hipotermia.

Depois de todo este esforço, a liberdade podia não ter sido alcançada se, como lembrou Domingos Abrantes, «não tivesse podido contar com a solidariedade dos trabalhadores de uma camionete que carregava peixe e a quem pediu auxílio». Arriscou dizer quem era e pedir ajuda – e arriscou bem, pois o auxílio foi-lhe prestado. Pela vida fora, António Dias Lourenço demonstrou sempre uma «enorme gratidão por aqueles que lhe manifestaram solidariedade num momento tão difícil». Pessoas que nunca mais voltou a ver, que nunca conheceu, mas que nunca esqueceu.

Uma vez em liberdade, dirigiu uma saudação ao Comité Central, considerando que «foi o Partido que lhe deu a força e a energia necessárias para vencer os difíceis obstáculos». 




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