A opção pela luta antifascista acarretava sacrifícios imensos. Pedro Soares aceitou-os a todos
Pedro Soares nasceu há cem anos
Uma vida consagrada<br>ao Partido e à luta

Pedro Soares foi um daqueles revolucionários que, em tempos sombrios, enfrentando e resistindo a todo o tipo de violências e privações, tomou a opção de se dedicar de corpo inteiro ao Partido Comunista Português e à luta dos trabalhadores e do povo contra o fascismo e pela liberdade, contra a exploração e pelo progresso – pelo socialismo e o comunismo. No momento em que se assinala o centenário do seu nascimento, o Avante! destaca um percurso singular, em que as prisões, as fugas, as torturas e a entrega abnegada à luta revolucionária marcaram toda uma vida, interrompida cedo de mais, aos 60 anos.  

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De Pedro Soares poder-se-ia dizer, o que era já muito, que integrou o primeiro grupo de prisioneiros a chegar, em Outubro de 1936, ao Campo de Concentração do Tarrafal, onde permaneceria (em dois períodos) durante sete anos. Aí, como os restantes presos, sofreu o que havia para sofrer: espancamentos, trabalhos forçados, condições insalubres e bárbaros castigos. Entre eles, merece especial destaque a «frigideira», para onde o próprio Pedro Soares foi enviado por duas vezes, uma delas durante 20 dias. Após uma das estadias na «frigideira», seguiu-se a enfermaria por um período de 40 dias.

Não menos violento era assistir à agonia e à morte de companheiros e camaradas, vitimados pelos maus tratos, pela doença e pela carência de cuidados médicos. A linha que no Tarrafal separava carcereiros e «médicos» era muito ténue: se o director Manuel dos Reis recebia os presos com «quem vem para o Tarrafal vem para morrer», o médico Esmeraldo Pais Prata especificava que «não estou aqui para curar, mas para passar certidões de óbito».

Tal como sucedeu a muitos outros prisioneiros, também Pedro Soares rumou ao Tarrafal após já ter cumprido – nas cadeias do Aljube, Peniche e Caxias – a totalidade a pena a que fora condenado em 1935 pelo Tribunal Militar Especial. No seu caso particular, o embarque rumo à ilha de Santiago, em Cabo Verde, dá-se precisamente no dia seguinte ao fim da sua pena. Era assim a «legalidade» fascista…

Mas se o nome de Pedro Soares ficará para sempre ligado ao Campo de Concentração do Tarrafal é sobretudo por ter sido o autor do primeiro folheto do PCP, editado clandestinamente em 1947, sobre aquela que foi a mais tenebrosa prisão política do fascismo: «Tarrafal, Campo da Morte Lenta» relata a experiência da sua primeira passagem pelo campo, entre 1936 e 1940. Foi reeditado após a Revolução de Abril e permanece ainda hoje como um pungente retrato da violência fascista e da tenaz e corajosa resistência que comunistas e outros democratas sempre lhe opuseram, mesmo nas mais terríveis condições.

Primeiros anos

Nascido em Beja a 13 de Janeiro de 1915, Pedro Soares era oriundo de uma família de fortes sentimentos democráticos e antifascistas, o que foi determinante para cimentar as suas convicções. Com apenas 16 anos, era já colaborador de vários jornais publicados em Beja, escrevendo ainda no República, à data um dos principais jornais legais de orientação democrática.

À mudança para Lisboa, em 1932, para aí prosseguir os estudos liceais, seguiu-se o início da actividade revolucionária: nesse mesmo ano, adere aos Grupos de Defesa Académica, criados por iniciativa da Federação das Juventudes Comunistas Portuguesas (FJCP) e pelo Partido, que reuniam estudantes antifascistas. A adesão à FJCP dá-se no ano seguinte.

Nesses anos de chumbo, resistir ao fascismo significava, com grande probabilidade, cair nas garras da polícia política; foi o que sucedeu a Pedro Soares em Março de 1934, quando participava numa manifestação de estudantes contra a Acção Escolar Vanguarda, predecessora da Mocidade Portuguesa. Esta primeira prisão durou apenas cinco dias, os primeiros de milhares.

No final desse mesmo ano, pela actividade revolucionária que então desenvolvia junto dos trabalhadores da região de Beja, é novamente preso. É na sequência desta segunda prisão que é enviado para o Tarrafal, de onde sai em Julho de 1940, abrangido por uma amnistia. Regressado a Lisboa, decide retomar e concluir o curso na Faculdade de Letras. Mas faz mais do que isso…

Reorganização e prisões

Pedro Soares não foi o único comunista libertado no período de 1940/41. Do Tarrafal e de outras cadeias saem militantes como Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro, Sérgio Vilarigues, Pires Jorge, José Gregório, Manuel Guedes, Júlio Fogaça e Américo de Sousa, que constituíram o núcleo central da reorganização do PCP levada a cabo nos primeiros anos da década de 40. Anos em que, é bom não esquecer, o fascismo parecia triunfante, em Portugal como em grande parte do continente europeu, e o Partido se encontrava praticamente desmantelado, fruto de golpes policiais sucessivos e da não aplicação de regras conspirativas fundamentais pelos dirigentes de então.

Pouco tempo se passou até que o PCP se reerguesse mais forte do que nunca, em resultado de uma justa orientação política e da adopção de medidas orgânicas e conspirativas adaptadas às condições da luta clandestina: a organização partidária estende-se a praticamente todo o território nacional; retoma-se a publicação do Avante! E de O Militante; alarga-se a influência junto da classe operária; o Partido ganha autoridade junto das outras tendências antifascistas.

Depois de, em finais de 1941, ser um dos dirigentes da luta dos estudantes universitários de Lisboa contra o brutal aumento de propinas, Pedro Soares é novamente preso, em Agosto do ano seguinte, acusado de participar na reorganização do Partido em Beja. Na sequência de uma tentativa de fuga da prisão de Caxias, é enviado pela segunda vez para o Tarrafal, em Junho de 1943, e libertado em Fevereiro de 1946.

Clandestinidade, prisões e fugas

Em 1947, acompanhado pela mulher, Maria Luísa Costa Dias, é destacado pelo Partido para Moçambique, onde fica durante três anos. Aí impulsiona a organização do Partido, estabelece relações com patriotas moçambicanos, organiza reuniões com democratas e elabora panfletos sobre a independência de Moçambique.

Quando regressa a Portugal, em 1950, passa à clandestinidade. Três anos depois, é chamado ao Comité Central, onde permanece até à sua morte. Entre as tarefas que assume, contam-se as responsabilidades pelo trabalho do Partido nos distritos de Aveiro, Coimbra e Viseu e, por um determinado período, pela redacção do Avante!.

Em Abril de 1954, é uma vez mais preso. Depois de passar por Aljube e Caxias, é transferido em Agosto para as celas da PIDE no Porto. É daqui que se evade em Outubro do mesmo ano, juntamente com Joaquim Gomes: depois de abrirem um buraco no tecto da cela, chegam ao telhado (através de uma claraboia), de onde saltam para um quintal e daí escapam.

Em 1958, no Porto, Pedro Soares é novamente capturado pela PIDE. Enviado para Peniche, está entre os dez dirigentes e militantes comunistas que protagonizam a heróica fuga de 3 de Janeiro de 1960. Foi ele que, ao descer pelo muro, sofreu uma contusão no joelho, que o atormentou pela vida fora.

Depois da fuga, desenvolveu inúmeras tarefas partidárias: assume um papel destacado na criação e funcionamento da Rádio Portugal Livre, da qual foi o primeiro director, entre 1962 e meados do ano seguinte; participa na preparação e nos trabalhos do VI Congresso do Partido, realizado em 1965; representa o PCP na Frente Patriótica de Libertação Nacional, lutando incansavelmente pela unidade do movimento antifascista e pela sua ligação ao movimento popular de massas. O 25 de Abril apanha-o em Itália, no desempenho de importantes tarefas partidárias.

Curta mas intensa participação na revolução

Regressado a Portugal pouco depois da Revolução de Abril, Pedro Soares vive intensamente, ao longo de pouco mais de um ano, o período revolucionário, participando em momentos cruciais da vida do PCP e do País: desempenha funções na redacção do Avante! legal e colabora com a Seara Nova; participa em comícios e sessões de esclarecimento e desenvolve uma intensa actividade em prol da unidade dos democratas; está na mesa do VII Congresso (Extraordinário) do PCP, realizado em Outubro de 1974; integra a delegação do PCP que entrega em tribunal o processo de legalização do Partido; encabeça a lista do PCP à Assembleia Constituinte pelo distrito de Santarém, tendo sido eleito deputado.

No dia 10 de Maio de 1975, quando regressava de uma reunião partidária em Benavente, morre num grave acidente de viação, que vitima também a sua companheira de sempre, Maria Luísa Costa Dias. No funeral dos dois camaradas, realizado no dia 13, Álvaro Cunhal afirma: «feliz o Partido que ao fazer o balanço da vida dos seus militantes mortos pode dizer de um, de Pedro, que em 60 anos de vida consagrou mais de 40 à luta revolucionária, que foi preso e torturado numerosas vezes e sempre superou estoicamente a prova, que passou 12 anos nas prisões, que duas vezes se evadiu para voltar à luta, que passou longos anos de vida clandestina e que sempre esteve pronto a executar as tarefas que lhe foram confiadas e a executá-las com dedicação, com a coragem, com a alegria daqueles que na luta nada pretendem para si próprios, pois apenas querem servir o povo e o País.»

 

Rectângulo de arame farpado

«O campo de concentração do Tarrafal é um rectângulo de arame farpado, exteriormente contornado com uma vala de quatro metros de largura e três de profundidade (…). A falta de vegetação, os montes escarpados, o mar e o isolamento a que os presos estão submetidos, dão à vida, aí, uma monotonia que torna mais insuportável o cativeiro. Como únicos vestígios do mundo há o ar carrancudo dos guardas e das sentinelas negras que vigiam, as cartas das famílias que demoram meses a chegar, e dias a serem distribuídas, os castigos e os enxovalhos, os trabalhos forçados, as doenças e a morte de alguns companheiros.»

Tarrafal: Campo da Morte Lenta

 

Resistir sempre

«A 29 de Outubro de 1936, na pequena baía do Tarrafal, desembarcámos 150 presos antifascistas, os primeiros que o fascismo português atirou para o Campo de Concentração de Cabo Verde (…) «A bordo foi-nos imposto um severíssimo comportamento. As metralhadoras estiveram assestadas durante toda a viagem, para abrirem fogo à primeira voz. Praças da GNR vigiavam-nos (…). Quando chegámos ao campo de concentração, fomos alojados em doze barracas de lona, com sete metros de comprimento por quatro de largo. Aí deviam viver doze homens. Durante quase dois anos, essas barracas, que o sol e a chuva depressa apodreceram, serviram para nos arruinar a saúde.»

Tarrafal, Campo da Morte Lenta

 

Modéstia, coragem, confiança

«Dentro de algumas horas irei abandonar de novo o nosso país, a caminho do degredo, do campo de concentração de Cabo Verde. Sinto-me calmo, corajoso, modestamente digno do espírito revolucionário do nosso Partido. (…) A certeza do triunfo, mesmo que não tenha a felicidade de o viver, dá-me mais coragem para não vacilar e combater com coerência até ao fim.»

Carta ao Comité Central, 1943

 

Servir a classe operária e o povo

«É com profunda alegria e com emoção que vos saúdo, ao ter conquistado de novo a liberdade e ao encontrar-me em condições de comunicar convosco. Aqui estou para servir de novo o Partido, com tudo o que de melhor possuo, para servir a classe operária e o povo».

Carta ao Comité Central após a fuga da PIDE do Porto, 1954




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