Crimes destes não podem ser desligados das ingerências e agressões imperialistas
Ataque contra o Charlie Hebdo
PCP condena crime <br> e rejeita manipulação

O PCP repudiou «firmemente o atentado ocorrido na sede do jornal Charlie Hebdo», expressou «a sua consternação e solidariedade ao povo francês» e chamou a atenção «para os perigos de instrumentalização de genuínos sentimentos de indignação».

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Em nota divulgada pelo gabinete de imprensa na quinta-feira, 8, o Partido «salienta que crimes desta natureza não podem ser desligados de uma situação internacional marcada por ingerências e agressões contra estados soberanos, através da instigação de conflitos religiosos e étnicos e da promoção de forças de extrema-direita, xenófobas e fascistas. Uma realidade que é acompanhada por políticas que aumentam a exploração e a exclusão social, nomeadamente nos países da União Europeia (UE)», acrescenta-se.

No texto, o PCP chama ainda a atenção «para os perigos de instrumentalização de genuínos sentimentos de indignação para intensificar medidas de cariz securitário que agridem direitos, liberdades e garantias dos cidadãos», bem como «para promover sentimentos racistas e xenófobos que têm alimentado o crescimento da extrema-direita e do fascismo na Europa.»

«O PCP insiste que o combate a tais crimes exige uma inversão de políticas, quer de âmbito económico e social, quer de relacionamento internacional entre estados. Exige o fim do apoio político, financeiro e militar dado pelos EUA e países da UE a grupos que espalham o terror e a destruição, nomeadamente no Médio Oriente, bem como o desenvolvimento de políticas de paz e cooperação respeitadoras do direito internacional, da soberania dos povos, da liberdade e da democracia», conclui-se na nota.

Entre quarta e sexta-feira da semana passada, três incidentes violentos ocorreram em Paris, resultando na morte de 20 pessoas, entre as quais os três envolvidos nos atentados.

Os irmãos Kouachi, que efectuaram o ataque ao Charlie Hebdo que vitimou 10 jornalistas, cartonistas e dois polícias, puseram-se em fuga e acabaram, sexta-feira, 9, sitiados numa gráfica nos arredores da capital francesa, onde foram abatidos pela polícia.

Destino idêntico teve Amedy Coulibaly, que também na sexta-feira sequestrou funcionários e clientes de um supermercado no Leste de Paris, provocando a morte de quatro pessoas. Coulibaly terá também executado, quinta-feira, uma agente da polícia de um município a Sul da cidade.

A sequência de crimes e a justificação de actos terroristas invocando fidelidade e a defesa de qualquer religião foi unanimemente repudiada por chefes de Estado e de governo, dirigentes e organizações políticas, sociais e confessionais de todos os quadrantes, motivando uma onda de solidariedade e repúdio que se manifestou um pouco por todo o mundo, com destaque para a França e para Paris em particular, que, no domingo, 11, registou das maiores manifestações de sempre. No total, terão estado nas ruas do país cerca de quatro milhões de pessoas. 

Liberdades e paz em perigo

Entretanto, e confirmando a justeza das advertências do PCP, sucedem-se as declarações e iniciativas do imperialismo. A próxima Cimeira da UE, a 12 de Fevereiro, será dedicada ao «combate ao terrorismo», anunciou, dia 12, o presidente do Conselho Europeu. No domingo, 11, os EUA confirmaram a realização, em Washington e sob direcção da Casa Branca, frisaram, de uma conferência internacional, a 18 do mesmo mês.

O anúncio norte-americano foi feito depois de uma reunião, em Paris, à margem e antes da acção de massas, realizada durante toda a tarde na capital francesa. Manifestação em que também participaram dezenas de «líderes mundiais», muitos dos quais proeminentes defensores dos grupos jihadistas que levam a cabo as guerras na Líbia, Síria ou Iraque, e responsáveis por campanhas de agressão e ingerência contra povos e estados soberanos.

«Juntar os recursos» e «os nossos aliados para discutir as maneiras de contrariar este extremismo violento [expressão bem mais flexível do que a de radicalismo islâmico, n.d.r.]» foram os objectivos propagandeados pelo procurador-geral dos EUA. Eric Holder reuniu com ministros do Interior europeus, com o coordenador antiterrorista da UE e o comissário europeu com a tutela desta área. Falaram sobre o reforço da detecção e controlo dos europeus que atravessam as fronteiras exteriores da UE, revelaram.

Menos dado a enigmas, o responsável espanhol adiantou que não está descartada a possibilidade de alterações à livre circulação estabelecida pelo tratado de Shengen, e admitiu que se pondera impulsionar de vez a criação de um sistema de dados dos viajantes, medida que tem enfrentado a oposição do Parlamento Europeu.

«Os dados que vão ser incluídos neste ficheiro podem afectar a privacidade das pessoas. Temos de ser capazes – e acredito que seremos capazes – de, tecnicamente, recolher esses dados sem vulnerabilizar o direito à privacidade. Mas não podemos ignorar aqueles que se deslocam a zonas de conflito nem os que regressam delas. Temos de dar uma resposta do ponto de vista do Estado a essa ameaça», justificou Jorge Fernández Díaz.

Na sexta-feira, 9, o primeiro-ministro italiano, Matteo Renzi, defendeu «a criação de um serviço de informações comum da UE». No mesmo dia, o departamento de Estado dos EUA apelou a «um elevado nível de vigilância».

Simultaneamente, Barack Obama e David Cameron encontraram-se em Washington e discutiram os temas que unem os dois países, entre os quais a luta contra o «Estado Islâmico», as «acções da Rússia na Ucrânia», a cibersegurança e o programa nuclear do Irão, informaram.

O primeiro-ministro da Grã-Bretanha, já esta segunda-feira, prometeu, numa acção de campanha eleitoral, que caso vença o sufrágio legislativo dará mais competências aos serviços secretos. Do outro lado do Canal da Mancha, milhares de militares franceses assumem nas ruas funções de patrulhamento, e o ex-presidente Nicolas Sarkozy, actual líder da União Para um Movimento Popular e principal candidato a destronar o presidente François Hollande da presidência gaulesa, considerou, de acordo com a AFP, que a imigração «não está ligada ao terrorismo, mas complica as coisas».




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