BCE faz pressão ilegítima sobre a Grécia
União Europeia procura asfixiar resistência
à austeridade
Grécia recusa chantagem

Milhares de pessoas encheram, dia 5, a Praça Sintagma em protesto contra a decisão do BCE de rejeitar os títulos da dívida grega como garantia de novos empréstimos.

Além da capital, também em Salónica, a segunda cidade do país, centenas de pessoas saíram à rua.

Mobilizaram-se através das redes sociais e expressaram a sua indignação com cânticos e gritos contra a clamorosa chantagem.

Entre os poucos cartazes visíveis nas imagens publicadas, num deles lia-se em inglês: «Não somos uma colónia de Merkel».

Menos de duas semanas após a vitória eleitoral do Syriza, e a meio de uma ronda de contactos, empreendida pelo novo primeiro-ministro, Alexis Tsipras, e pelo ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, o Banco Central Europeu decidiu torpedear a iniciativa diplomática do governo grego.

A súbita decisão, anunciada na noite de dia 4, de não aceitar os títulos da dívida pública como garantia nas operações de refinanciamento da banca helénica é vista, no actual contexto, como uma verdadeira chantagem política, visando forçar o novo governo a recuar ou abandonar o seu programa eleitoral.

O porta-voz do governo helénico, Gavriil Sakelaridis, qualificou-a precisamente como uma «pressão política» por parte do BCE. «Não vamos chantagear, nem tão pouco vamos deixar que nos chantageiem», disse Sakelaridis, dia 5, em declarações à estação de televisão privada Mega.

Já o Ministério das Finanças grego observou que a decisão do BCE não é o resultado de uma «evolução negativa no sector financeiro», uma vez que ocorre «depois de dois dias de uma estabilização substancial».

E acrescentou que «aumenta diariamente» o círculo de parceiros e instituições com quem são mantidas consultas, garantindo que o governo «permanece firme na sua meta de aplicar o programa de salvação social, aprovado pelo voto do povo grego».

A julgar por estas reacções, os responsáveis gregos não se intimidaram face à manobra do BCE. Aliás, logo no dia seguinte, o próprio BCE veio amenizar a situação, alargando de dez mil milhões para 60 mil milhões de euros o montante que o Banco da Grécia pode ceder aos bancos do país.

Ainda no dia 5, o gabinete do primeiro-ministro revelou que o presidente russo, Vladímir Pútine, congratulou Alexis Tsipras pela formação do novo governo, convidando-o a visitar Moscovo a 9 de Maio, data em que se comemora os 70 anos da vitória sobre o nazi-fascismo.

Por seu lado, em Berlim, Varoufakis reafirmou que o seu país precisa de um programa transitório «até finais de Maio», enquanto prosseguem as diligências para alcançar «um novo contrato» que solucione «de uma vez por todas» a crise.

«Exigimos uma oportunidade para mostrar as nossas propostas», insistiu o titular das Finanças, notando que o dinheiro dado à Grécia até agora foi para um fim errado: «servir uma dívida insustentável».


O diktat alemão

Embora parcimoniosa em declarações públicas, a Alemanha tem dado sinais claros de que não está disponível para negociar com o governo grego.

Segundo um documento elaborado por Berlim para a reunião preparatória do Eurogrupo, que teve lugar dia 5, o governo de Angela Merkel pretende mesmo obrigar a Grécia a manter as políticas de austeridade.

De acordo com a agência Reuters, que teve acesso ao referido documento, a Alemanha quer que o Eurogrupo assuma uma posição de intransigência em relação às medidas impostas pela troika.

«O Eurogrupo precisa de um compromisso claro e antecipado da Grécia que garanta a total implementação das medidas chave das reformas necessárias para manter o programa [da troika na Grécia] dentro do previsto».

«O objectivo é a continuação da agenda de reforma acordada (sem recuo nas medidas), cobrindo áreas como a gestão das receitas, impostos, gestão das finanças públicas, privatizações, administração pública, saúde, pensões, segurança social, educação e combate à corrupção», diz o documento.

A mesma fonte afirma que os responsáveis alemães exigem que a Grécia cumpra o objectivo de redução do número de funcionários públicos em 150 mil, aplique a reforma da segurança social acordada, mantenha o salário mínimo ao nível actual e aposte em negociações salariais descentralizadas.

No documento preparatório consta ainda a intenção de obrigar o governo grego a declarar que irá honrar os seus pagamentos ao BCE, ao FMI e ao fundo de resgate da zona euro, bem como cumprir com o que deve em termos de empréstimos bilaterais a outros países europeus no âmbito do seu programa de resgate.




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