• Maurício Miguel

Comentário
Da alternativa

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Uma eventual evolução positiva da situação social e política na Grécia teria sempre – o condicional do verbo é propositado – um efeito positivo para os trabalhadores e os povos de todo o mundo, mas em particular para os países da UE. Para o PCP, Partido da classe operária e dos trabalhadores portugueses, força patriótica e simultaneamente internacionalista, essa evolução seria um importante elemento para o desenvolvimento da luta em Portugal. Embora cada país tenha o seu percurso e a sua situação diferenciada, as suas especificidades, condições para o desenvolvimento da luta do seu povo e um processo de amadurecimento da sua consciência social e política, a resistência e, quando possível, a luta por mais direitos laborais e sociais constituem um contributo e um elemento de referência para a luta de outros povos. Ora, no quadro das particularidades existentes em cada país, existem similitudes entre a situação da Grécia e a situação em Portugal. Desde logo a imposição de programas draconianos de destruição social, utilizando o subterfúgio do combate à dívida pública e impondo a submissão de ambos os países aos ditames da grande finança internacional e da UE (com ou sem o FMI, com ou sem troika). Ao contrário de alguns partidos nacionais que se colocam em bicos de pés para falar das conquistas do governo grego do Syriza, não conseguimos vislumbrar um quadro que indique o propagandeado fim da austeridade na Grécia e na UE - nem sequer do início do seu fim. Por mais vontade que se possa ter, não se afigura possível encontrar na negociação e no acordo entre o governo grego e o eurogrupo sinais de ruptura com a submissão do anterior governo ou das imposições da troika estrangeira. Os principais meios que permitiram infernizar a vida aos gregos permanecem intactos. Não basta trocar o nome da troika por instituições, ou passar a chamar «programa» ao memorando da troika. E não basta a euforia da vitória eleitoral para camuflar as cedências ou a mutação política. Para além do seu significado imediato, o acordo estabelecido entre o governo grego e o eurogrupo para prolongar o memorando de entendimento por mais quatro meses legitima investidas contra a vida do povo grego. Queríamos ver para além dos jogos de palavras e das polémicas públicas uma postura séria e vertical contra o domínio colonial sobre países e povos como os nossos e o que vemos são intermitências políticas, um discurso cuja radicalidade termina nas palavras. Se não faltam razões para zurzir nos governos de direita de Portugal e de Espanha, como fizeram o primeiro-ministro ou o ministro das Finanças grego, serão eles os únicos responsáveis pelo acordo que o governo grego assinou? Não terão idênticas responsabilidades os governos da social-democracia que são igualmente carrascos dos nossos povos?

Se as teses do governo grego e dos seus sósias nacionais estivessem correctas e fosse possível realizar uma política alternativa sob os ditames do euro e da UE, com todos os constrangimentos que essa opção implica, a realidade está a mostrar o contrário. O PCP tem razão quando afirma que sob o domínio do euro e da UE é negado aos trabalhadores e ao povo de países como o nosso o seu direito ao desenvolvimento e que apenas a afirmação soberana e a ruptura com os instrumentos do grande capital e das grandes potências possibilitará soluções de progresso. E tem igualmente razão o PCP quando avalia como impossível reformar a UE, defendendo em alternativa uma outra Europa dos trabalhadores e dos povos, de paz e cooperação entre estados soberanos e iguais em direitos, uma Europa que apenas será possível pela afirmação, em primeiro lugar, de forças que lutem pela derrota do processo de integração capitalista na Europa. Em Portugal essa solução passa por uma política patriótica e de esquerda como o PCP propõe, rumo que permitirá equacionar uma integração favorável aos povos. O imparável caminhar histórico é feito de avanços e recuos e a alternativa vai-se clarificando pela luta dos trabalhadores e dos povos em cada momento. Na UE, apesar da crise e dos eminentes perigos, vai-se tornando mais claro o rumo e a alternativa que pode levar à libertação dos povos. É essa a motivação que percorre a acção e a luta do PCP pela alternativa política e pela política alternativa em Portugal.




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