• Henrique Custódio

Histórias

Este Governo «é uma história feliz» – Passos Coelho dixit na tournée eleitoral em que mergulhou da cabeça aos pés, sendo que estes últimos parecem prevalecer sobre a primeira, no uso.

O imaginário do chanceler afunila no mundo infantil: primeiro falava de «histórias de criança», agora sintetiza com «história feliz». Simultaneamente, e como quem prega uma partida, manda para Bruxelas um discurso às escondidas «sobre a Europa», onde, além de não apresentar ao País e aos cidadãos o que lhe vai na excelsa cabeça sobre tal matéria, ainda por cima apresenta clandestinamente, em nome «da pátria», uma alteração radical do que arengou e impôs nos últimos quatro anos, em nome «dos compromissos internacionais».

É um político de disneylândia, quiçá um Capitão Gancho a perlimpimpar a Fada Sininho, como dizia o Herman José (no que toca ao verbo).

­O chanceler a classificar o seu descalabro governamental como «história feliz» impõe que se lhe desfie alguns sucessos.

Foi notoriamente feliz receber um défice de 90 por cento do PIB e, passados quatro anos, entregá-lo em 130 por cento do PIB (mais 45%), tal como se afigura de notória ventura o aumento do desemprego, durante o consulado Passos/Portas, que subiu de meio milhão para milhão e meio de desempregados (mais 300%).

Para nos mantermos nas felicidades mais relevantes recordemos os mais de 400 mil jovens, muitos licenciados, a emigrarem nestes quatro anos em busca de trabalho, tal como a subida para perto de 40 por cento dos jovens desempregados em território nacional, ou os cortes generalizados em apoios da Segurança Social como o abono de família, o complemento solidário para idosos e o rendimento de inserção social, a que se junta um desbaste brutal nas pensões e reformas, tal como nos salários e carreiras na Função Pública, a que se foi juntando a perda sucessiva de direitos, a instabilidade nas profissões e postos de trabalho e a degradação geral da vida para a esmagadora maioria dos portugueses.

A este feliz espalhar de miséria no povo e no País juntam-se tranquibérnias avulsas no corpo da coligação, pertinazmente regulares e generalizadas. Respiguemos apenas o alegado «enriquecimento à custa da política» de Marco António Costa, denunciado por um correligionário, ou as acusações a Luís Filipe Meneses sobre alegado enriquecimento ilícito em não menos alegadas corrupções como presidente da CM de Gaia, para não falar dos volteios de Miguel Relvas e do próprio Passos Coelho, com uma longa carreira e cumplicidades em comum, nomeadamente nas aventuras da Tecnoforma, jamais esclarecidas.

Chamar a este lodaçal «uma história feliz» não revela insensatez. O que aqui pontifica é uma arrepiante frieza e uma gélida indiferença não apenas pelo País, mas pela vida das pessoas que este bando de aventureiros tomou de assalto.

 



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