O dilema do prisioneiro

Existe, nas ciências sociais, um problema de lógica que coloca a seguinte situação hipotética: dois prisioneiros são interrogados pela polícia em celas separadas. Os detidos, cientes de que a acusação não conseguiu reunir provas bastantes, podem recusar-se a responder às perguntas dos investigadores e aceitar uma pena de seis meses de prisão. As autoridades propõem, porém, um acordo a cada um dos arguidos: sair em liberdade a troco de denunciar o parceiro, sentenciando-o a um castigo de 10 anos. Se ambos os prisioneiros se denunciarem mutuamente, ambos receberão, então, uma pena de cinco anos de cárcere.
Dir-se-ia que, para dois prisioneiros que partilham os mesmos interesses, a solução mais racional seria optar pelo silêncio, aceitando a pena conjuntamente mais reduzida. Mas separados, desconfiados do companheiro e convidados a beneficiar-se individualmente à custa do outro, os cativos acabam por receber uma pena de cinco anos.
O dilema aplica-se, com avisada transparência, à querela que se impôs no arquipélago da esquerda norte-americana desde que o senador do Vermont Bernie Sanders anunciou a entrada na corrida das primárias do Partido Democrata, que irão decidir, em 2016, o candidato deste partido nas próximas eleições presidenciais. Bernie Sanders, que não é membro do Partido Democrata, é conhecido nos EUA por ser o único congressista que se assume «socialista», termo que, contudo, faz acompanhar de fiança «democrata» e «social-democrata».
Lançada a 28 de Maio, a campanha de Bernie Sanders tem atraído um entusiasmo raramente visto desde a eleição de Barack Obama e mostrou-se ágil na conquista do apoio de várias organizações como o movimento Occupy Wall Street, o partido Alternativa Socialista, a tendência democrata dos Progressistas da América, a rede Anonymous, ou o Sindicato de Trabalhadores de Rádio, Eletricidade e Máquinas (UERMWA). Rejeitando o recurso às infames superpacks, que permitem doações ilimitadas de grandes grupos económicos, o senador do recôndito Estado do Vermont conseguiu angariar, em apenas quatro dias, mais de quatro milhões de dólares.

Escolher o caminho longo

A estratégia historicamente definida do grande capital para a prevenção de organizações revolucionárias nos EUA tem sido a detenção das forças progressistas, em celas separadas, dentro do Partido Democrata. No contexto de uma correlação de classes monstruosamente assimétrica, atravancada de obstáculos legais e políticos de manifesta natureza anti-democrática, é fácil de prever que alguns prisioneiros, ansiosos por uma liberdade imediata, sucumbam à tentação de colaborar com o polícia, neste caso com a cara esquerda do partido bicéfalo do capital. E, todavia, essa é precisamente a estratégia do carcereiro: pressionadas pela delação de Sanders, outras forças aceitarão o mesmo tipo de colaboração.
O Partido Democrata sempre foi o mais seguro parque infantil para as aventuras e desventuras do esquerdismo norte-americano. Após uma corrida viciada entre infantis e seniores, em que se alimenta a ilusão democrática de «mudar por dentro» este partido, as energias da classe trabalhadora acabam invariavelmente derrotadas e esgotadas, mas ainda dentro do Partido Democrata. Foi assim com o candidato progressista Dennis Kucinich, nas primárias das presidenciais de 2004 e 2008 e, tudo leva a crer, também será assim com Bernie Sanders, que já pressagiou que, caso saia derrotado das primárias, não hesitará em apoiar a mais que provável vencedora, Hillary Clinton, de modo a não pôr em causa a unidade do «voto democrata».
Mais do que a trajectória política de Bernie Sanders, marcada por uma contínua viragem à direita, de que são exemplos o apoio à guerra do Afeganistão, a recusa em condenar os últimos massacres perpetrados por Israel em Gaza ou o estranho silêncio sobre a luta dos afro-americanos contra a brutalidade policial, o que nos deve preocupar, como marxistas, é a orientação de classe que os movimentos políticos encarnam. E a candidatura de Bernie Sanders é, para além de qualquer dúvida, um passo atrás na emergência de uma força política independente das amarras do grande capital, um contributo para adiar um partido de classe trabalhadora, com a classe trabalhadora e para a classe trabalhadora.

 



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