Nova Democracia e PASOK averbam nova derrota
Syriza vence legislativas na Grécia
Expectativas comprometidas

As eleições legislativas antecipadas de dia 20 na Grécia ditaram mais uma derrota da Nova Democracia e do PASOK e a recondução do Syriza no governo.

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As sondagens vaticinavam em uníssono o «empate técnico» entre o Syriza e a Nova Democracia, promovendo a bipolarização, mas tal como já sucedera no referendo de Junho, o «prognóstico» revelou-se totalmente desfasado do resultado saído das urnas.

Repetindo a vitória de Janeiro, o Syriza bateu os conservadores da Nova Democracia por uma vantagem superior a sete pontos percentuais e com mais cerca de 400 mil votos, não obstante o forte aumento da abstenção (43,45% contra 36,4% em Janeiro).

Com 1,92 milhões de sufrágios (-320 mil face a Janeiro), a formação de Alexis Tsipras obteve 35,45 por cento dos votos (-0,9 por cento) e elegeu 145 deputados (-4), beneficiando do bónus de 50 deputados atribuído à força mais votada.

A Nova Democracia ficou em segundo lugar com 75 deputados (-1), 28,09 por cento (+0,2%) e 1,52 milhões de sufrágios, tendo perdido quase 200 mil votos em relação a Janeiro.

O partido de extrema-direita «Aurora Dourada» manteve-se como terceira força, com 18 deputados (+1) e 6,99 por cento dos votos (+0,71). Seguiu-se a coligação Pasok-Dimar (socialistas), com 6,28 por cento e 17 deputados, perdendo em conjunto e face a Janeiro cerca de 100 mil votos.

O Partido Comunista da Grécia subiu ligeiramente em percentagem (5,55% contra 5,47% em Janeiro), mantendo os seus 15 deputados, totalizando perto de 301 mil sufrágios (menos 37 mil votos).

Por sua vez, o Potami (O Rio) elegeu 11 deputados com 4,09 por cento dos votos (contra 6,06% e 17 deputados em Janeiro), perdendo cerca de 150 mil votos.

A União dos Centristas, com 3,69 por cento dos votos, estreia-se no parlamento com nove deputados. Em contrapartida, a «Unidade Popular», formação de dissidentes do Syriza, não foi além dos 2,86 por cento dos votos, ficando excluída do hemiciclo.

Um «memorando» draconiano

A vitória do Syriza revela que há sectores na sociedade grega com expectactivas que a prática deste partido não confirma.

Na noite das eleições, o primeiro-ministro cessante anunciou a intenção de renovar a coligação governamental com o ANEL (Gregos Independentes), sétima força no parlamento com dez deputados (-3), número suficiente para garantir a maioria no parlamento de 300 assentos.

Festejando a vitória, Tsipras interpretou o resultado como uma manifestação popular de «dignidade e resistência». «O povo grego deu-nos o mandato de continuar a lutar pelos seus direitos», declarou o líder do Syriza, definindo três linhas mestras para os próximos quatro anos: mudanças no modelo económico, luta contra a corrupção e intervenção na União Europeia para alterar a correlação de forças.

No entanto, o novo governo prepara-se para aplicar um programa de medidas draconianas, acordadas com os credores (UE e FMI), no quadro do chamado resgate de 86 mil milhões de euros assinado pelo governo Syrisa/ANEL em Agosto.

O programa afectará praticamente todos os domínios da vida do país, entre os quais: energia, fiscalidade, segurança social, sistema judicial, legislação laboral.

O novo «memorando de entendimento» determina uma vaga de privatizações no valor de 50 mil milhões de euros, prevendo a venda das autoestradas, portos, das participações em várias empresas públicas e até mesmo dos serviços de água de Atenas ou Tessalónica.

Na segurança social, as «reformas» apontadas visam obter uma «poupança» de 0,25 por cento do Produto Interno Bruto ainda em 2015, o que implica cortes imediatos nas prestações, proibição das reformas antecipadas e a subida da idade de aposentação para os 67 anos.

Todas estas medidas devem começar a ser concretizadas já a partir de Outubro, sob ameaça de o país não receber os três mil milhões de euros prometidos pelos credores para Novembro.

Só depois a União Europeia e o FMI aceitarão negociar os termos da eventual reestruturação da dívida grega e o desbloqueamento das verbas para recapitalizar a banca e pôr fim ao controlo de capitais.

 

PCP sobre as eleições na Grécia

Em conferência de imprensa realizada na noite de dia 20, o PCP, através de João Ferreira, membro do Comité Central, pronunciou-se sobre os resultados das eleições na Grécia, salientando que estas se realizaram «num quadro marcado pela imposição de um terceiro memorando e de uma continuada campanha de pressão sobre o povo grego.

«Os resultados confirmam a condenação dos partidos que historicamente são responsáveis pela situação a que a Grécia foi conduzida, num quadro de posicionamento do governo SYRIZA/ANEL marcado por hesitações, contradições, cedências e claudicações que conduziram ao novo memorando.

«O processo de ingerência da União Europeia e do FMI tem no novo memorando acordado pelo governo SYRIZA/ANEL e apoiado pela Nova Democracia, o PASOK e o POTAMI o instrumento para prosseguir a política que levou a Grécia à catástrofe social e económica, a uma dívida insustentável e impagável, à pilhagem dos seus recursos, à subordinação à troika.

«O PCP reitera a sua solidariedade aos comunistas, aos trabalhadores e ao povo da Grécia e à sua luta contra a política de exploração, de empobrecimento e de submissão aos interesses do grande capital, da União Europeia e do FMI, e por melhores condições de vida, pela recuperação de direitos e rendimentos, pela soberania e o desenvolvimento do seu país.

«A evolução da situação na União Europeia e o processo em torno da Grécia demonstram a necessidade de rupturas com os processos de submissão aos interesses do grande capital financeiro e do directório de potências ao seu serviço.

«O PCP reafirma que uma política comprometida com os valores da justiça e progresso social, do desenvolvimento soberano e da democracia, exige a libertação do país dos constrangimentos e dos instrumentos de dominação da União Europeia, do euro, do Tratado Orçamental, da Governação económica, das políticas comuns.»



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