• Anabela Fino

Tanto sarro, senhores...

Desde que foi arredado das cadeiras do poder o CDS descobriu uma nova vocação, que a bem dizer são duas: questiona tudo e mais um par de botas no que à actividade governativa e parlamentar diz respeito, e reclama a torto e a direito que os deputados sejam chamados a votar toda e qualquer matéria de iniciativa do Governo.

Esquecido do tempo em que assobiava para o lado sempre que o governo PSD/CDS tomava medidas – e perdeu-se o conto a quantas foram – que literalmente trituraram as chamadas grandes bandeiras centristas, o CDS afadiga-se agora a limpar o bolor às panaceias tradicionais da dita democracia cristã e a exigir de dedo em riste e ar convencido que a «nova maioria», como chama à correlação de forças na AR, resolva, responda, trate dos juros da dívida, do crescimento da economia, dos problemas da banca, da pobreza, do emprego e etc. e tal, como se nada tivesse a ver com o assunto e como se qualquer mudança de rumo, por escassa que seja, fosse a prova provada de que o País que deixaram no abismo caminha... para o abismo.

Com a esperteza saloia dos que pensam que todos os outros são parvos, o CDS exige que a AR vote o Programa de Estabilidade e o Programa Nacional de Reformas, documentos do Governo que o Parlamento pode e deve discutir mas que não lhe cabe aprovar. O objectivo é por demais evidente, conhecidas que são as divergências, designadamente entre PS e PCP, sobre a matéria. Mas sendo do domínio público que PS e PCP têm bem definido o âmbito de convergência e divergência, tal manobra não passa de chicana política por parte de quem, sendo co-responsável com o PSD pelo estado a que o País chegou, nada mais tem a propor do que a insistência nas políticas que levaram ao desastre nacional.

É claro que a bazófia centrista tem os seus limites, como ainda recentemente se viu a propósito da sobranceria com que Vítor Constâncio afirmou nada ter a dizer à comissão parlamentar de inquérito sobre o caso Banif, pois o BCE «não presta contas aos parlamentos nacionais». Sem um vestígio de indignação, logo o CDS, abanando a metafórica cauda, se prestou a ir questionar sua excelência o vice-presidente do BCE ao Parlamento Europeu. Típico dos subalternos com sarro na língua de tanto lamber botas e a quem não resta já um pingo de noção do que é a dignidade nacional.




 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: