• Carlos Lopes Pereira

Karim não vai <br>ao Euro 2016

Greves, inundações, risco de atentados e polémicas racistas ensombram a fase final do campeonato europeu de futebol que começa amanhã em França.  
Ao longo de um mês – a final será em 10 de Julho – e de 51 jogos em diversas cidades, 24 selecções nacionais e 552 jogadores disputarão o título europeu. Para assistir aos desafios esperam-se dois milhões e meio de espectadores, dos quais um milhão e meio vindos do estrangeiro.
As lutas sociais que mobilizaram milhares de trabalhadores contra a Lei do Trabalho, que o presidente François Hollande e o primeiro-ministro Manuel Valls impuseram sem ir a votos no parlamento, podem perturbar a organização do Euro 2016. A contestação nas ruas ao governo «socialista», pela legislação neoliberal visando reduzir direitos laborais e sociais, afectou a venda de combustíveis e os transportes ferroviários e aéreos.
Ao mesmo tempo, fortes chuvas provocaram inundações no centro do país, sobretudo na região de Paris, com a subida das águas do rio Sena. Registaram-se quatro mortos, milhares de pessoas deslocadas, prejuízos materiais, mas a situação acalmou.
Paira agora o risco de atentados durante a competição. Em 2015, na capital francesa, foram atacados, em Janeiro, a sede da revista Charlie Hebdo e, em Novembro, diferentes locais como restaurantes, uma sala de espectáculos e o Stade de France, em Saint-Denis. O mesmo estádio que acolherá na sexta-feira, 10, a partida de abertura (França-Roménia) e, depois, a final.
Os Estados Unidos alertaram os cidadãos norte-americanos que pretendam viajar neste Verão rumo ao Velho Continente para «o risco de potenciais ataques terroristas» contra locais turísticos e grandes eventos desportivos como o Euro e a Volta a França em Bicicleta, esta de 2 a 24 de Julho.
O ministro francês do Interior destacou mais de 60 mil polícias e gendarmes para a segurança do campeonato e um dispositivo de 26 mil efectivos para proteger o Tour. Bernard Cazeneuve prometeu tudo fazer para evitar acções terroristas mas advertiu que «100 por cento de precauções não garantem o risco zero».

As pressões racistas

Esses seriam já motivos suficientes para causar dores de cabeça aos organizadores do campeonato da Europa. Mas eclodiu ainda a controvérsia do afastamento, na selecção anfitriã, de um dos seus melhores avançados, por alegadas pressões racistas.
Trata-se de Karim Benzema, de 28 anos, de origem argelina, com 81 internacionalizações e 27 golos, o maior marcador em actividade dos Bleus. O atacante do Real Madrid, treinado pelo lendário Zinédine Zidane, acusou o seleccionador Didier Deschamps de não o convocar por ter cedido «à pressão de uma parte racista da França», referindo-se aos apoiantes da Frente Nacional, de extrema-direita. Karim fora considerado «não seleccionável» pela federação francesa de futebol por ter o seu nome ligado a um caso policial de chantagem envolvendo o jogador Mathieu Valbuena.
Em recente entrevista ao diário desportivo espanhol Marca, Karim alegou inocência e confessou não compreender por que o excluíram no plano desportivo se no plano judiciário não foi julgado. «Será preciso esperar que o tribunal se pronuncie», considerou.
As declarações de Karim Benzema mereceram o apoio do antigo internacional francês Eric Cantona, estrela do Manchester United nos anos 90. Numa crónica no britânico The Guardian, escreveu que Deschamps afastou Benzema e o médio Hatem Ben Arfa, com uma boa época no Nice, pelas «suas origens norte-africanas».
Benoit Hamon, deputado socialista, crítico das políticas de direita de Hollande e Valls, tomou o partido do colega de Cristiano Ronaldo na equipa de Madrid, assegurando que ele «tem razão em dizer que vivemos num país onde o racismo aumenta».  
Lúcido, o actor franco-marroquino Jamel Debbouze manifestou na revista France Football a opinião de que Benzema e Ben Arfa estão «a pagar pela situação social» em França.
Também na Alemanha, em vésperas do arranque do Euro, futebolistas de origem africana e árabe foram alvos dos racistas.
O vice-presidente do partido xenófobo Alternativa para a Alemanha, Alexander Gauland, provocou Jérome Boateng, com raízes no Gana e defesa do Bayern de Munique e da selecção alemã. Em entrevista ao Frankfurter Allgemeine Zeitung, assegurou que «as pessoas apreciam-no como futebolista mas não o querem ter como vizinho». À Spiegel disse que a selecção do seu país, com tanto «estrangeiro», «há muito tempo deixou de ser alemã».
Dias antes, um grupelho racista insurgiu-se contra o lançamento pela empresa italiana Ferrero de barras de chocolate Kinder com fotografias, quando crianças, de internacionais alemães como Jérome Boateng ou Ilkay Gündogan, este de ascendência turca.

 



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