• Ângelo Alves

A UE está mergulhada em crises múltiplas
A «verdade» de Juncker

São raros os momentos em que grandes potências ou instituições internacionais deixam transparecer de forma clara os pensamentos, escolhas, decisões ou análises. A realidade é encoberta numa cortina de fumo. Aquilo que lemos, ouvimos e vemos raramente corresponde à verdade dos factos e aos verdadeiros objectivos dos que detêm o poder.

Vem o comentário a propósito de acontecimentos recentes na União Europeia que aparentemente contrariam esta tese.

Há várias semanas que assistimos à novela das «sanções» a Portugal e Espanha. Há poucos dias, o presidente da Comissão Europeia, Jean Claude Juncker, afirmou que a «França é a França» e que por isso nunca foi «castigada» pelo seu «défice excessivo» e pelo incumprimento das «regras» do Pacto de Estabilidade. Tem razão e está a dizer uma verdade que o PCP sempre denunciou. Mas Juncker também poderia ter dito: «A Alemanha é a Alemanha». Mais uma vez teria razão e estaria a dizer a verdade. No mês de Março aquele país registou valores recorde de excedente externo e comercial – 30,4 e 26 mil milhões de euros, respectivamente – e isso constitui uma «violação», desde 2013, das «regras». Também não foi «sancionada». Tudo isto diz muito sobre para que serve e a quem serve o euro e UEM.

Juncker cometeu um pecado, disse em voz alta o que se diz em surdina nos corredores de Bruxelas. Como não poderia deixar de ser a sua afirmação suscitou reacções. A muralha de propaganda do «rigor» e da «imparcialidade» tinha acabado de abrir uma fissura. O contraponto foi o chefe do Eurogrupo Jeroen Dijsselbloem que acusou imediatamente Juncker de minar a credibilidade da Comissão, pedindo sangue para todos os «pecadores». Já o presidente do Parlamento Europeu Martin Schulz veio a Lisboa dizer que não estaria de acordo com as sanções, mas de seguida defendeu os eixos centrais do «relatório dos cinco presidentes» (assinado por Jucnker, Shculz e Dijsselbloem, entre outros) que defende, entre outras questões, um endurecimento do Pacto de Estabilidade, a centralização da política fiscal, um Tesouro para a Zona Euro e um ministro das finanças europeu.

A «novela» das sanções revela-nos dois elementos importantes da realidade na União Europeia e que estão na origem das dissonâncias conjunturais dos «presidentes». A primeira é que a UE está mergulhada em crises múltiplas. Económica, social, política e de legitimidade. Uma crise que acirra rivalidades que nunca deixaram de existir no processo de integração capitalista e que, quanto mais funda, mais perturbações cria nos consensos e «equilíbrios» entre diferentes sectores do grande capital e entre direita e social democracia.

A segunda é o calendário e os dias 23 e 26 de Junho – o referendo na Grã-Bretanha e as eleições em Espanha. Até lá a novela das «sanções» irá ainda fazer correr alguma tinta, e a probabilidade de não serem aplicadas é quase total. Isto porque o que se pretende com esta «discussão» – e todas estas declarações vão nesse sentido – é, por via da dramatização, trilhar o caminho para uma ulterior imagem de «flexibilidade» e de «tolerância» e para uma agenda pós Junho de «refundação» e de «nova unidade europeia» que salve o «projecto europeu». O objectivo é claro: manter intactos e aprofundar os mecanismos de domínio e imposição que nenhum dos protagonistas questiona.

Juncker falou verdade? Sim. Mas o seu objectivo (e o de Schulz) não é questionar o Pacto de Estabilidade. Pelo contrário, o seu objectivo é salvá-lo no quadro da crise da UE e de uma profundíssima crise do capitalismo que como acaba de reconhecer o próprio G7 pode sofrer proximamente novos episódios de explosão no campo económico. E isso sim, é verdade.




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