Para Erdogan,
o golpe foi um «presente de Deus»
Após golpe militar falhado
Imensa purga na Turquia

Após a tentativa de golpe de Estado militar de sexta-feira, 15, está a ser levada a cabo pelas autoridades turcas uma imensa purga que inclui a detenção ou o afastamento de milhares de militares, polícias, magistrados e funcionários públicos.

O Presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e o seu Partido da Justiça e do Desenvolvimento (AKP) conseguiram travar e derrotar o golpe militar da semana passada, que provocou pelo menos 290 mortos e 1400 feridos. Continuam por esclarecer cabalmente importantes contornos que rodearam esta tentativa de golpe, desde logo o que efectivamente se passou, quais os reais intuitos dos golpistas e quem foram os seus mandantes.

Membro da NATO e parceiro privilegiado da União Europeia, a Turquia, que tem desempenhado um papel fundamental na guerra de agressão à Síria e ao Iraque e na crise dos refugiados que esta causou, está a ser palco de uma imensa purga visando adversários de Erdogan, muitos dos quais outrora seus aliados, como sucede com os seguidores de Fethullah Gulen. Erdogan e os sectores que este representa procuram assim assegurar a sua sobrevivência política e poder autoritário.

A Turquia vive uma situação cada vez mais polarizada e tensa, em resultado da política de Erdogan e do AKP, crescentemente repressiva e fascizante, de brutal opressão da população curda e de agressão à Síria, esta à beira do fracasso. As contradições e fracturas na sociedade turca e no próprio poder acentuaram-se, tendo igualmente expressão no quadro das relações externas do país.

O presidente já reconheceu publicamente que a rebelião militar «é um presente de Deus para nós porque será o pretexto para limpar o nosso exército» e prometeu que vai «continuar a eliminar o vírus de todas as instituições do Estado». Admitiu até a reposição da pena de morte, para ajudar a «limpeza» em curso e fazer os acusados de envolvimento no golpe pagarem «um preço alto».

Milhares de prisões e demissões

Os números da denominada «limpeza» não cessam de crescer. Na segunda-feira à tarde, cerca de 7 500 pessoas tinham sido detidas: mais de seis mil militares, 755 juízes e procuradores, uns 650 funcionários civis e uma centena de polícias. Cerca de 8 500 polícias foram suspensos em todo o país, pelo seu alegado envolvimento no golpe. Foram ainda suspensos um governador provincial, 29 ex-governadores da administração regional e 47 responsáveis distritais. Outros 1 500 funcionários de vários ministérios foram afastados dos seus cargos, juntando-se aos 2745 juízes (um sexto do total) demitidos.

Entre os militares atingidos pela purga, há 103 generais e almirantes, quase um terço dos 356 que formam a cúpula das forças armadas turcas, com cerca de 400 mil efectivos. Entre as altas patentes presas figuram os comandantes do 2.º e 3.º exércitos terrestres e o ex-comandante da Força Aérea, general Akin Ozturk, apontado como o cérebro das operações dos golpistas.

O primeiro-ministro turco, Binali Yildirim, reiterou entretanto as acusações contra o imã Fethullah Gulen, que é apontado por Erdogan e seus partidários como mentor do golpe. Gulen tem fortes e profundas ligações nos Estados Unidos, país onde vive desde 1999. Aliás, responsáveis turcos têm apontado o dedo aos Estados Unidos, aludindo ao seu conhecimento e, mesmo, eventual envolvimento na tentativa de golpe de Estado.

Yildirim revelou que as autoridades turcas estão a preparar o pedido de extradição do clérigo. «Agradecemos aos nossos parceiros o apoio oferecido. Os EUA são um amigo, um parceiro estratégico, mas que mais provas querem?», afirmou. E acrescentou que se os norte-americanos não extraditassem Gullen seria «uma grande decepção» e a Turquia questionar-se-ia «se os EUA são verdadeiramente um amigo».




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