Compositores

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George Bizet (1838-1875)
Suite L’ Arlésienne nº. 2

Composta como música de cena para a peça L’ Arlésienne (de Alphonse Daudet), por ocasião da estreia desta em Outubro de 1872, esta famosa obra do grande compositor francês dividia-se em mais de 20 números musicais de maior ou menor duração, que intervinham como comentário ou pontuação às incidências e ao desenrolar da intriga.
Dizem as crónicas que a peça teatral em questão não suscitou particular êxito nem demorou muito tempo em cena;  mas o facto é que a música, como tal, isoladamente considerada, sobreviveu com particular apreço por parte do público, como obra simultaneamente de grande fôlego
e delicadeza.
Geralmente dividida, enquanto música pura, em duas suites, por vezes tocadas em separado, aquela que ouviremos a abrir o concerto de hoje é precisamente a número dois. E o arranjo orquestral que ficou conhecido desta parte, realizado por Ernest Guiraud a partir dos temas originais de Bizet, foi publicado já em 1879, portanto após a morte do compositor, mas mantendo-se fiel e conservando o habitual fascínio e musicalidade do mestre.
Dividida em quatro andamentos — I – Pastoral; II – Intermezzo; III – Minueto; e IV – Farândola –, este último inclui a famosa Marcha dos Reis, que era ouvida no início da peça.

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Giuseppe Verdi (1813-1901)
Va pensiero (Coro) da Ópera Nabucco

Giuseppe Verdi foi um dos maiores compositores italianos de todos os tempos, em particular no domínio da Ópera, no qual sucedeu, em termos de importância e grandiosidade, a outros grandes compatriotas seus como Bellini, Donizetti ou Rossini.
Quantos melómanos não continuam a nutrir uma permanente paixão pela audição de obras-primas imortais da sua lavra, como Macbeth, Rigoletto, Os Trovadores, Um Baile de Máscaras, A Força do Destino, Don Carlos, Aida, Otello, para apenas mencionar algumas das mais conhecidas.
Sendo que, por um lado, a sua volumosa produção musical o transformou numa das personalidades mais singulares e distintas do movimento operático italiano, o cidadão Verdi sempre se distinguiu, por outro lado, no plano cívico e político, o que se traduziu, por exemplo, na sua adesão ao movimento do Rissorgimento que sempre pugnou e se bateu pela reunificação da Pátria.
Não por acaso, vários trechos corais das suas óperas reflectiram em particular e da melhor maneira este posicionamento e estas ideias, como se diz ser o caso daquele que  teremos o gosto de ouvir neste concerto: o muito célebre Va Pensiero, da ópera Nabucco (estreada em 9 de Março de 1842 no Teatro alla Scala, de Milão).
Também conhecido como Coro dos Escravos Hebreus, este trecho poderoso e pleno de significado situa-se no terceiro acto da ópera, tendo alguns estudiosos italianos adiantado que a sua composição e introdução na ópera terá sido pensada, pelo compositor, como um hino que unisse todos os patriotas italianos.
E o facto é que, até aos dias de hoje, este sentimento se tem mantido, tendo ficado célebre, durante uma récita do Nabucco, realizada em 2011 no Teatro de Ópera de Roma, uma intervenção política do maestro Riccardo Mutti perante o próprio Berlusconi, em protesto contra os cortes orçamentais e pela soberania da Itália, seguida da execução de Va Pensiero, pelo coro e por toda a assistência presente.

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Mikhail Glinka (1813-1901)
Ruslan e Ludmilla (Abertura)

Eis de novo mais música de cena a ilustrar este concerto. Desta vez, trata-se da conhecida Abertura para a ópera Ruslan e Ludmilla, uma obra de clara inspiração russa, de grande insinuação melódica e harmónica e poder sonoro e orquestral, que o compositor russo Mikhail Glinka compôs ao longo de seis anos, entre 1837 e 1842.
Esta ópera, com libreto de Valerian Shirkov, Nestor Kukolnik e N.A. Markevich, teve como ponto de partida e inspiração o poema homónimo de Alexander Pushkin, datado de inícios dos anos 20 do século xix, e, para além da sua estreia pouco entusiástica em S. Petersburgo, em 1842, dada então a supremacia e a moda da ópera ao «estilo italiano», foi muito bem recebida nas suas estreias de Londres (1931) e Nova Iorque (1942), esta numa versão de concerto.
Do muito que se poderia dizer desta obra, refira-se, a título de curiosidade, que a Abertura, que ouviremos, é tradicionalmente considerada um verdadeiro «pesadelo» para o naipe de contrabaixos, dadas as dificílimas passagens que estão a seu cargo. No geral, para além da utilização de melodias do folclore russo, Ruslan e Ludmilla, é muito apreciada ainda entre os compositores, pelo o uso (pouco habitual à época) de modos orientais e da escala de tons inteiros.

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Étienne Nicolas Méhul
«Chant du Départ»
Poema de Marie-Joseph Chénier

Nascido em 22 de Junho de 1763 e falecido em 18 de Outubro de 1817, Étienne Nicholas Méhul é considerado o compositor clássico mais importante do período da Revolução Francesa. Além de numerosos concertos e óperas (entre as quais se destaca «Eufrosina»), compôs várias peças de índole patriótica para serem apresentadas em espectáculos e celebrações do período revolucionário.
Entre estas, a mais conhecida é «Le Chant du Départ», com letra de Marie-Joseph Chénier, irmão de André Chénier. O tema celebrou a derrota das tropas estrangeiras que ameaçavam a revolução, referindo igualmente as lutas travadas na Vendeia entre os exércitos republicanos e os monarquistas chouans.
Altamente apreciada quando da sua estreia (nomeadamente por Robespierre) o «Chant du Départ» foi considerado hino oficial militar e milhares de pautas foram distribuídas pelos regimentos, o que levou os soldados a baptizarem-no «A Irmã da Marselhesa».
Desenvolvendo-se em vários quadros, o mais popular refere os fuzilamentos pelos monarquistas dos jovens tambores republicanos Joseph Bara (com 12 anos, feito prisioneiro, recusou gritar «Vive le roi», respondendo «Vive la République) e Joseph Agricole Viala, com 13 anos, abatido quando tentava derrubar uma ponte de forma a impedir o avanço adversário.

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Free at Last
Espiritual negro, rec. J.W Work

O espiritual Free at Last, incluído embora no reportório de vários grupos corais e solistas (Joan Baez, Al Gre, Mal Waldron) ganhou particular dimensão cultural e política em 1963, quando da Marcha sobre Washington na qual Martin Luther King encerraria o famoso discurso I Have a Dream com uma avassaladora declamação dos últimos versos do tema: And when this happens, when we allow freedom to ring, when we let it ring from every village and hamlet, from every state and every city, we will be able to speed up that day when all of God’s children, black men and white men, Jews and Gentiles, Protestants and Catholics, will be able to join hands and sing in the words of the old Negro spiritual, «Free at last! Free at last! Thank God almighty, we’re free at last!».
É possível encontrar o clip  do discurso em https://www.youtube.com/watch?v=gevdV4LvipQ

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Fernando Lopes-Graça (1906-1994)
– José Gomes Ferreira (1900-1985)

Canções heróicas

Num concerto tão especial como este, não poderia faltar a presença de um compositor português e, de entre todos eles, Fernando Lopes-Graça seria a escolha mais natural.
Considerando-se, a si próprio, nem um «compositor político» nem um «político compositor» — mas sim «um artista (...) inseparável dos compromissos que, como cidadão, tinha com a “Cidade” e com a “Grei”» (citação livre de um estudo de Teresa Cascudo) — Lopes-Graça foi natural e inequivocamente, durante a sua vida, um exemplo de trato fácil e humor franco, contagiante cidadania e fina ironia, integridade ética, talento artístico e empenhamento político, multifacetado e insubstituível no seu pensamento teórico e na própria praxis musical e abordando um espectro composicional extremamente diversificado, que podia ir da obra orquestral da mais transcendente modernidade até à mais «simples» (mas jamais «fácil» e «óbvia») harmonização de uma canção regional ou de um canto de intervenção política.
É esta faceta do grande Mestre de que hoje teremos dois exemplos, saídos do conjunto das Canções Heróicas, compostas por Lopes-Graça para poemas de grandes escritores e poetas portugueses: Acordai e Jornada, ambas com poemas de José Gomes Ferreira.

 

Acordai
(Canção Heróica)


Acordai
acordai
homens que dormis
a embalar a dor
dos silêncios vis
vinde no clamor
das almas viris
arrancar a flor
que dorme na raíz

Acordai
acordai
raios e tufões
que dormis no ar
e nas multidões
vinde incendiar
de astros e canções
as pedras do mar
o mundo e os corações

Acordai
acendei
de almas e de sóis
este mar sem cais
nem luz de faróis
e acordai depois
das lutas finais
os nossos heróis
que dormem nos covais
Acordai!


Mais conhecidas na interpretação do Coro da Academia de Amadores de Música — para o qual foram escritas — com Olga Prats (piano), as Canções Heróicas datam de meados dos anos 40, quando Lopes-Graça adere ao MUD e, pouco depois, ao PCP. Inicialmente, foram particularmente editadas em volumes diferentemente intitulados e destinavam-se a ser cantadas pelos resistentes políticos antifascistas, em reuniões clandestinas de trabalho e confraternização política, manifestações e concertos públicos e até cantadas nas prisões e no exílio pelos resistentes à ditadura. Jornada, também com poema de José Gomes Ferreira, foi uma das Canções Heróicas mais significantes e mobilizadoras.

 

Jornada  (Canção Heróica)

Não fiques para trás oh companheiro
É de aço esta fúria que nos leva
Para não te perderes no nevoeiro
Segue os nossos corações na treva.

Vozes ao alto, vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada
Ao sol desta canção.

Aqueles que se percam no caminho
Que importa? Chegarão no nosso brado
Porque nenhum de nós anda sózinho
E até mortos vão a nosso lado.

Vozes ao alto, vozes ao alto
Unidos como os dedos da mão
Havemos de chegar ao fim da estrada
Ao sol desta canção.

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Dmitri Shostakovich(1906-1975)
Sinfonia nº. 10 em Mi menor, op. 93
Allegro (2º. Andamento)

Mais um exemplo da grande música russa/ /soviética, agora pelo traço sempre inspiradíssimo e singular de um dos seus maiores compositores — Dmitri Shostakovitch, Entre as suas 15 Sinfonias, a Sinfonia nº. 10, em Mi menor, op. 93, foi estreada pela Orquestra Filarmónica de Leninegrado, sob a direcção de Yevgeny Mravinsky, em Dezembro de 1953, ou seja, nove meses após a morte de Joseph Stalin, embora não seja claro em que período daquele ano o compositor lhe dedicou maior trabalho e empenho composicional.
Trata-se de um dos mais brilhantes exemplos da multiplicidade de influências e direcções estéticas que ocupavam, preocupavam e inspiravam a transbordante imaginação do compositor, desde a grande tradição sinfónica, até à evocação da música popular russa, sempre temperada por uma originalíssima vontade de modernidade.
Neste concerto, a nossa atenção concentrar-se-á na dificílima execução do 2º. Andamento, Allegro, um scherzo curto e impetuoso, tecnicamente exigente pelo obsessivo uso das passagens em semi-colcheias e pela dinâmica polirritmia e sincopado da percussão.

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«Katyusha»
Mikhail Isakowsky/Matwec Blanter

Um pouco por todo o Mundo, faz parte do imaginário poético a figura feminina de noiva ou namorada que, esperançosa, aguarda o regresso do seu apaixonado mobilizado para a guerra em períodos de conflitos militares. Nomeadamente na literatura e música populares são inúmeras as figuras tradicionais de jovens em torno dos quais se desenvolve uma vasta literatura de amor, afectos e desgostos, figuras
e lendas.
Do cancioneiro soviético ligado à II Guerra Mundial, duas canções deste património ganharam projecção universal – «Kalinka» e «Katyusha», em grande medida graças à divulgação pelos Coros do Exército Vermelho criados por Boris Alexandrov.
Ambos  diminutivos  afectuosos de nomes femininos,«Katyusha» ganharia ainda outro significado, fruto do apreço que a infantaria soviética criou pela viatura equipada com múltiplos lança-foguetes, característica dos campos da batalha de 41-45.
Os artilheiros do exército vermelho não nutriam grande entusiasmo pelas «Katyushas», que tinham por pouco certeiras e morosas no recarregamento, mas em compensação os  soldados russos e alemães consideravam-nas de grande eficácia como apoio de ofensivas terrestres e blindadas.

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«Ain’ That Good News»
Espiritual Negro (trad.)

De criação anónima popular como a esmagadora maioria dos temas espirituais afro-americanos, Ain’ That Good News existe em diversas colectâneas compiladas ao longo nomeadamente do séc. xix, com várias versões quer na letra, quer na harmonização, correspondendo em geral aos estilos característicos das regiões do Sul dos EUA onde foram recolhidas, mantendo-se naturalmente em todos o cunho religioso que encobre a lamentação e o protesto pela situação esclavagista e de segregação racial.
À semelhança de outros espirituais que se tornaram standards de jazz e de rhythm & blues nas vozes de intérpretes como Ella Fitgerald, Paul Robeson, Aretha Franklin e muitos outros, Ain’That Good News ganhou especial popularidade a partir da gravação realizada em 1964 pelo cantor Sam Cooke de que resultariam numerosos covers.
Adaptado por Cooke numa situação pessoal particularmente dramática (morte por afogamento do seu filho, então com 18 anos), o invulgar arranjo incluindo não apenas o tradicional coro, mas também um vasto e complexo arranjo instrumental que viria a influenciar o som característico do R&B dos anos 60/70, mantendo até hoje enorme popularidade, quer na versão coral mais tradicional, quer nos mais diversos acompanhamentos  instrumentais, desde o singelo trio piano-baixo-bateria até a orquestras mais elaboradas como a da conhecida versão de Wynton Marsalis para a orquestra do Lincoln Center.

 

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Sergio Ortega
«El Pueblo Unido Jamás Será Vencido»

Ambas da autoria de Sérgio Ortega Alvarado (1938-2003), fundador do grupo da Nueva Trova chilena Inti-Illimani, as canções «El Pueblo Unido» e  «Venceremos» são seguramente os mais conhecidos temas do vasto cancioneiro criado durante o governo de Unidade Popular de Salvador Allende.
A frase que constitui o refrão de «El Pueblo Unido», praticamente recitado, muito contribuiu para a expressão da canção com versões totais ou parciais em dezenas de línguas. A primeira gravação realizou-se durante uma gigantesca acção de massas em Santiago do Chile, escassos três meses antes do golpe de Pinochet. Na data do golpe, Ortega e o seu grupo encontravam-se em Paris, participando na Festa do L’Humanité, vivendo no exílio até à sua morte, não apenas em França, mas em numerosos países (incluindo Portugal) onde participaram em inúmeras iniciativas de solidariedade com o Chile.

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Ludwig van Beethoven (1770-1827)
Coriolano, op. 62, em Dó menor
(Abertura)

A abertura Coriolano foi composta em 1807 por Ludwig van Beethoven para a tragédia teatral do mesmo título escrita por Heinrich Joseph von Collin (não confundir, portanto, com uma outra peça Coriolanus, bem mais conhecida, de William Shakespeare, na qual Collin se inspirou).
Esta obra que, na sua construção e evolução temática, segue a par e passo o desenrolar da trama, foi estreada em Março de 1807 num concerto privado no palácio do Princípe Franz Joseph von Lobkowitz, e tem naturalmente um único andamento: Allegro com brio. E brio é o que não falta, naturalmente, na invenção dos temas e no seu desenvolvimento e encadeamento, enriquecidos pela maestria das dinâmicas e da orquestração, que não traem o génio do compositor.


Ludwig van Beethoven (1770-1827)
Fantasia Coral, op. 80, em Dó menor

É esta, sem dúvida, a peça mais transcendente e fulgurante de todo este concerto de abertura.
Não apenas pela genialidade da música do grande Mestre de Bona mas porque estarão em acção, na sua plenitude e certamente dando o máximo de si, numa obra de considerável duração, a orquestra e o coro sinfónicos, 4 solistas vocais e ainda um solista de piano.
Frequentemente associada à 9ª. Sinfonia de Beethoven, essa associação não é apenas devida à similitude (excluindo naturalmente o piano-solo) dos exigentes dispositivos instrumentais e vocais que o compositor escolheu para esta obra mas também a uma associação ou parentesco entre o tema principal da Fantasia e o do próprio Hino à Alegria com que termina o 4º. e último andamento daquela sinfonia.
A Fantasia Coral op. 80, foi composta em 1808 para um concerto especial de beneficência realizado em 22 de Dezembro do mesmo ano na Akademie, no qual foram também estreadas a 5.ª e a 6.ª sinfonias, o 4.º Concerto para Piano e Orquestra, assim como excertos da Missa em Dó Maior (!!!). Coisa pouca, portanto!  Nestas condições, Beethoven, com a apresentação de um tal repertório e a possibilidade de utilização de uma orquestra, um coro, quatro solistas vocais e um pianista solista, tinha então à sua disposição o «material humano» capaz de estrear, ainda, esta Fantasia Coral, sendo difícil de imaginar o resultado final de um tal concerto.
Para a execução na Festa desta peça, convidámos os cantores Ana Paula Russo, Cátia Moreso, Marco Alves dos Santos e José Corvelo, bem como o pianista António Rosado, que estarão à frente da Orquestra Sinfonietta de Lisboa e do Coro Sinfónico «Lisboa Cantat», dirigidos respectivamente por Vasco Pearce de Azevedo e Jorge Carvalho Alves.


 


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