• Vasco Cardoso

Retalho de um país

Os meses de Verão trazem às nossas aldeias uma vida que há muito é só memória de um tempo em que estas ainda tinham gente. É difícil isolar uma causa desta sangria que esvaziou grande parte do País, que fez, primeiro os adultos, depois as crianças, saírem para longe, deixando para trás aqueles a quem já faltavam as forças para irem em busca de uma vida melhor. Se, nos tempos do fascismo, a miséria, a repressão e a guerra colonial empurraram muitos para lá dos Pirinéus, com a política de direita, que interrompeu o esboço de um país mais justo e avançado iniciado com Abril, essa sangria nunca terminou, tendo sido particularmente agravada com os quatro anos de Pacto de Agressão que PS, PSD e CDS, de braço dado com a troika, impuseram ao povo português.

É por isso que não será demais lembrar o impacto duradouro daquilo que foram os quatro anos de governo PSD/CDS que, entre outras dimensões da nossa vida colectiva, arrancaram cerca de meio milhão de compatriotas às suas terras e famílias, levando-os para outras geografias em busca de trabalho. E, tal como as anteriores gerações, foi sempre mais fácil a saída do que o regresso.

Não saberemos quantificar o custo desta mais recente vaga de emigração. Mas, como em tantas outras coisas, se é uma evidência a perda que tal fenómeno representou (e representará por muitos anos) para Portugal, também não podemos ignorar as vantagens que a deslocação dessa imensa força de trabalho representou para o grande capital e as grandes potências. Aos operários da construção civil, agrícolas, fabris, juntaram-se enfermeiros, engenheiros, médicos, professores e outros quadros técnicos, fundamentais para o processo de apropriação e concentração da mais-valia.

Seria contudo ingénuo admitir que a emigração portuguesa esteja actualmente numa fase de inversão. Sem um crescimento económico sustentado, sem a dinamização do aparelho produtivo nacional, sem a melhoria dos salários e dos rendimentos, sem a defesa e valorização dos serviços públicos, no fundo, sem uma política que tenha como objectivo principal servir o povo, em vez do capital – o mesmo será dizer, sem uma política que coloque os interesses nacionais à frente das pressões e ingerências externas –, Portugal continuará a exportar o melhor que cada país tem: o seu povo.




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