• Manuel Gouveia

O Candidato

Nos EUA cresce um sentimento de desconforto e revolta com a evolução do capitalismo. Não é ainda uma resistência ao próprio capitalismo e, nesse sentido, deixa espaço para nostalgias utópicas de regresso a um outro capitalismo, que surgem à «esquerda» e à «direita».

A imensa concentração de riqueza na grande burguesia e a consequente depauperação das massas trabalhadoras é a base da luta dos «99%» ou dos apelos à recuperação da «classe média».

É falsa a imagem de uma América de grunhos conservadores, violentos e primários, de um país disposto a eleger Donald Trump para presidente. A esmagadora maioria dos americanos não o deseja. Mas muitos não estão dispostos a votar na alternativa criada pelo próprio sistema.

O discurso de Bernie Sanders no comício com os seus apoiantes na Convenção Democrática é elucidativo. Valoriza os extraordinários resultados alcançados (18 milhões de votos, 46 por cento dos delegados eleitos na Convenção e o candidato mais apoiado pela juventude em todos os estados) e enquadra-os com uma frase arrojada nos EUA: «As eleições vão e vêm, mas a luta por justiça social, económica, ambiental e racial continua!».

Depois, aponta o programa para a «revolução política» que propõe e avança duas prioridades para essa «revolução»: primeiro, «tornar claro que o que queremos alcançar é a transformação da sociedade americana», que esta não funcione para apenas o «1%», subir o salário mínimo para 15 dólares por hora, criar empregos através do investimento público na degradada infra-estrutura pública, derrotar o TTIP, universalizar o sistema de saúde, investir em energia renovável, reformar o destruído sistema de justiça e as injustas políticas de imigração. E a multidão aplaude-o, até que aponta a segunda prioridade – «derrotar Trump, eleger Hillary» – e recebe a mais extraordinária assobiadela, que só é substituída pelo slogan «Queremos o Bernie», que é como quem diz, queremos o nosso candidato nas presidenciais.

Entre as energias transformadoras que revela e as ilusões paralisantes que promove, assim é o candidato Bernie Sanders. O futuro próximo da América está na forma como os seus apoiantes vão lidar com esta contradição.

 



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