• Jorge Cordeiro
    Membro
    da Comissão Política

O PCP
não prescinde
da sua independência
de análise
Revanchismo e desorientação

A tentativa de condicionamento político ensaiada pelo PSD no decurso do debate parlamentar sobre o Estado da Nação ficará registada como uma nova e patética prova da desorientação que reina pelos lados do partido da Lapa. O exercício a que Aguiar Branco se entregou dedicando ao PCP a sua intervenção revela desde logo uma ostensiva ignorância da natureza, princípios e coerência do Partido pretendeu atingir.

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Julgar que o PCP se revelaria vulnerável perante a pueril narrativa que clamando pelo resgate da coerência que disse admirar mas que agora, para seu desgosto, vê perdida no quadro da nova fase da vida nacional e da actual solução política, fica a meio caminho entre o cinismo e a ingenuidade. Desde logo porque o PCP não é permeável a bajulações, não se subordina por critérios ditados por interesses alheios aos que determinam o seu posicionamento e atitude políticas, nem prescinde da sua própria independência de análise.

Descontando os adornos de oratória parlamentar, o que Aguiar Branco procurou foi acusar o PCP de apoiar agora o que antes rejeitara. Onde procura identificar a alegada incoerência, o que reconhece é o seu inconformismo de ver derrotado, por razão da atitude coerente do Partido, o projecto de devastação social que o governo PSD/CDS tinha em curso. O que o PSD não perdoa é a contribuição decisiva dada pelo Partido para interromper o rumo de descalabro económico e social que ambicionava prosseguir.

Basta ler o que Passos Coelho afirmou em entrevista recente a um jornal diário para se perceber o que os move. Não, o PCP não se desviou um milímetro da sua posição de combate à política de direita e de luta contra o ataque a direitos e o roubo aos rendimentos dos trabalhadores e do povo. Esses mesmos roubos e ataques que o ex-primeiro-ministro confessa desejar ter visto continuar e que apresenta como troféus da sua governação. Esse mesmo processo de declínio económico que levou o País à mais profunda e prolongada recessão mas que Passos Coelho identifica como ganhos de credibilidade nacional aos olhos da agiotagem que sugou o que ao País e ao povo pertenciam.

Esse mesmo processo de retrocesso social e negação do acesso à saúde, à educação ou à protecção social que infernizou a vida dos portugueses mas que Passos Coelho idolatra enquanto obra da tal consolidação orçamental de que se orgulha de levar à mesa de Merkel, Schauble e alguns outros dos seus patrões. Ao contrário de Passos, de Durão ou da Albuquerque, que se desdobram na procura de argumentos que justifiquem as «sanções», o PCP rejeita-as em absoluto. Não porque elas sejam injustas, não por razões que mais décima acima ou abaixo possa explicar, não porque haja países que sejam filhos e outros enteados, não porque o País esteja na trajectória ditada pela União Europeia ou a jurar cumprir o que nos querem impor. Simplesmente porque elas são inaceitáveis e uma grosseira violação do direito soberano de Portugal e das suas instituições de decidirem sobre o que melhor serve o seu desenvolvimento.

 

Não desperdiçar
oportunidades

 

Em 4 de Outubro não foi só o governo de Passos e Portas que foram derrotados. Os resultados então expressos foram também, e inequivocamente, uma condenação da sua política. É no terreno da política e não dos seus protagonistas que o futuro da vida política nacional se decidirá. A questão principal não está em abstracto na verificação de qual o partido, seja ele PSD, CDS ou PS, que conduz a vida política mas sim na resposta à questão de que política e para quem ela é realizada.

O caminho aberto na nova fase da vida política nacional decorrente da entrada em funções de um governo do PS no quadro de uma nova correlação de forças na Assembleia da República e da posição conjunta subscrita entre o PCP e o PS permitiu interromper o rumo de desastre e dar resposta a problemas e aspirações do povo. Limitados mas com real significado. A exigir novos e mais decisivos avanços tendo em conta a situação a que o País foi conduzido.

E, por isso, a exigir uma determinada rejeição de constrangimentos e chantagens externas crescentemente inconciliáveis com as opções de fundo indispensáveis para garantir uma política que promova a produção, o emprego, o investimento, a redução dos défices estruturais. Ontem como hoje é esta a atitude e posicionamento do PCP. Sempre ao lado dos trabalhadores e do povo, não desperdiçando nenhuma oportunidade de conseguir avanços e conquistas, denunciando e combatendo o que atenta contra o interesse nacional, não prescindindo da política alternativa patriótica e de esquerda indispensável ao desenvolvimento soberano, afirmando o seu projecto e ideal. Tão mais próximos e realizáveis quanto mais força e influência o PCP tiver.

 



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