• Manuel Pires da Rocha

Ay Carmela!

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No velho Centro de Trabalho de Coimbra do Partido, na muito mais velha Rua da Sofia, o Joaquim Pires Jorge contava aos miúdos que por ali andavam, acompanhando a militância dos pais, histórias da sua vida clandestina. O Pires Jorge era o contrário do herói posto ao espelho. Para nós era o justiceiro a cores dos filmes a preto e branco que passavam na TV ao domingo à tarde. Para ele não era nada disso – aquilo que nós achávamos fantástico o Pires Jorge achava «natural».

O fascismo era cruel e desumano? Pois então o natural era dar-se o corpo e o entusiasmo ao combate. Acho que entendíamos o que o Pires Jorge queria dizer. E há-de ser por isso que não entendemos que raio de coisa é essa da «crise de valores», angústia falsa na boca dos mesmos que berram as virtudes do «empreendedorismo» da sociedade de classes. «Valores» aprendemo-los nós naquela disponibilidade feliz para estar ao serviço da justiça à vista de toda a gente, correndo os riscos inerentes. E isso as crianças (também as que éramos) percebem muito bem.

O Pires Jorge era uma enciclopédia de ternura e é a homens e mulheres como ele que muito devemos este rasgo de alegria que levamos nas lutas. Estava preso em Espanha quando rebentou a Guerra Civil Espanhola e falou-nos disso – da prisão em Cáceres, da sua entrega à PIDE pelos fascistas espanhóis. E falou-nos e mostrou-nos a Guernica de Picasso que, para mim, permaneceu para sempre a ilustração das palavras do Pires Jorge, contada traço a traço, desde o berro do cavalo ao pranto da mãe, o filho morto nos braços.

Naqueles tempos iniciava actividade em Coimbra a Brigada Victor Jara, e uma das canções mais saborosas daquele grupo de jovens da UEC era «Jarama», canto de outra Brigada – a Lincoln, dos norte-americanos das Brigadas Internacionais. «There is a valley in Spain called Jarama» e os relatos do Pires Jorge era a História da luta de classes no século XX aprendida da voz do protagonista, dos cantos dos combatentes daqueles dias de luta por um mundo melhor, que já poder ser e virá. 

As canções dos revolucionários são a banda sonora da História, desde a Revolução Francesa à Unidade Popular do Chile, da Revolução de Outubro à de Abril, aqui connosco.

Desta Espanha aqui ao lado, houve um tempo em que soprou bom vento (bons casamentos sempre os houve), enchendo de entusiasmo popular a bandeira tricolor da República. E de canções. O golpe foi profundo para uma Europa capitalista em perda dos impérios coloniais e a ver sair às ruas os ideais do socialismo e do comunismo. Então, como agora, o Capital não se deitou a dormir e, como sempre quando se levanta o sopro da tal «terra sem amos», armou-se fascismo e caiu com a máxima violência em cima da República de Espanha e dos republicanos do mundo inteiro. No Alentejo dos nossos dias ainda há quem se lembre daquele tempo de maus ventos mas bons casamentos – os republicanos fugidos aos fascistas de Franco para a protecção das gentes de Ficalho e de outros lugares de consciência colectiva, a PIDE a entregar os que encontrava aos pelotões de fuzilamento.

«Ay Carmela!» permaneceu símbolo desse tempo, memória já de si memória de outro tempo em que a Espanha se defendia dos exércitos de Napoleão e a canção se chamava «El Paso del Ebro» ou «El Ejército del Ebro». O texto original cedia por vezes o lugar ao de «Viva la Quince Brigada», com palavras de homenagem à Brigada de combatentes comunistas da Guerra Civil. Fosse com que letra fosse esta era uma das canções da República Espanhola, por quem deram a vida milhares de espanhóis e de revolucionários de todo o mundo nos anos em que a Espanha era a trincheira antifascista da Europa Ocidental. Eram estas as palavras:

Ay Carmela!

El Ejército del Ebro/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Una noche el río pasó,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Y a las tropas invasoras/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Buena paliza les dio,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/  

El furor de los traidores/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Lo descarga su aviación,/¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Pero nada pueden bombas/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Donde sobra corazón,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/

Contrataques muy rabiosos/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Deberemos combatir,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!/ Pero igual que combatimos/ ¡Rumba la rumba la rum bam bam!/ Prometemos resistir,/ ¡Ay, Carmela, ay, Carmela!//

Deste lado da fronteira sempre se acolheram as canções daquele lado. Tanto, que de algumas se perdeu a certidão de nascimento. Se perguntarmos a um alentejano de Aljustrel ou a um seu descendente da cintura industrial de Lisboa que canção é aquela que diz «Santa Bárbara Bendita», não haverá lugar a dúvidas – é moda de terras do Cante. E o certo é que a cantiga aceita sê-lo sem denúncia do nascimento asturiano, que as cantigas do povo entregam-se a quem as cante sem cuidar de registo de propriedade. Coisa natural. Tão natural como Michel Giacometti ter dado ao título do documentário «Povo que Canta» as palavras de um verso de uma canção da Guerra Civil de Espanha: «Pueblo que canta no morirá.»

«Ay Carmela!» faz parte de um cancioneiro vasto de belas canções da Guerra Civil de Espanha, juntamente com «Viva la Quince Brigada», «Puente de los Franceses», «La Plaza de Tetuán», «En el Barranco del Lobo», «Ya sabes mi paradero», «El Quinto Regimiento», «El Tren Blindado», «En la Plaza del mi Pueblo», «Jarama Song», «Cabo de Palos», «El Pozo Maria Luisa» (a tal Santa Barbara Bendita), «Himno de Riego», «A las Barricadas» e «Anda Jaleo», de Federico Garcia Lorca, entre muitas outras.

Todas elas existem sob as mais variadas versões arranjos, leituras. «Ay Carmela!» não se ficou pelos campos de batalha da Guerra Civil. Atravessou toda a ditadura de Franco, clandestina das histórias dos pires jorges de fala castelhana, basca, catalã, galega, ressurgindo na monarquia constitucional no seu corpo original de canção republicana sem idade. E noutros palcos ainda – no cinema de Carlos Saura, nas tábuas do teatro, num musical.

«Ay Carmela!» permanecerá nas vozes dos revolucionários republicanos, para os dias em que a bandeira tricolor tome de novo as ruas de Espanha. Mesmo que o Capital venha exibindo as bombas com que vem sangrando sempre os gestos de emancipação. De nada lhes vai valer, «Ay Carmela!» é quem o diz: «de nada podem as bombas / onde sobra o coração».




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