- Edição Nº2231  -  1-9-2016

Desporto para o povo?

A vitória da selecção nacional de futebol no europeu e uma série de excelentes resultados em várias modalidades, ampliados pela comunicação social de forma exaustiva, produziram um duplo efeito: Uma onda de euforia e, ao mesmo tempo, uma ilusão quanto à realidade da situação em que se encontra o desporto nacional.

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Ainda o país não estava recomposto de tamanha euforia e incontáveis homenagens, cerimónias e festividades, e de novo o desporto ocupou boa parte das prioridades mediáticas, ainda por cima num momento em que, como é hábito, a agenda noticiosa era escassa. Vinham aí os Jogos Olímpicos!

Ouviram-se previsões para todos os gostos. Desde os mais pessimistas aos mais entusiasmados que anunciavam medalhas…duas, três, quatro, cinco… Terminados os jogos, as opiniões também divergem entre os que consideram a prestação nacional positiva e os que a consideram negativa e aquém das possibilidades.

Uma coisa é certa: Esta invulgar sequência de acontecimentos e resultados desportivos globalmente positivos veio despertar mais consciências para a realidade do desporto nacional, que vai muito para além do futebol, e para a necessidade de uma reflexão sobre as razões para que «o desporto nacional sofra de uma das suas mais graves crises desde 1974» (1).

A pequena dimensão do nosso país não pode ser um argumento válido quando nos comparamos com os outros países com idêntico número de habitantes. Onde está então o problema?

O problema é do foro político(2), ou seja está nas políticas, nas opções, nas prioridades.

Estado da arte

Alguns elementos daquilo que o PCP caracterizou, em 2015, como um diagnóstico devastador:

- As crianças do 1.º ciclo do básico continuam sem Educação Física pedagogicamente integrada;

- Atendendo à forma como se implementaram, as actividades chamadas de enriquecimento curricular desempenham unicamente uma função de ocupação do tempo livre, revelando-se até como prejudiciais para a afirmação da Educação Física curricular;

- Os jovens que frequentam as escolas do 2.º e 3.ºciclos do básico e do secundário, enfrentam com os seus professores dificuldades acrescidas de realização da Educação Física e do desporto escolar;

- A actividade física e desportiva nas universidades é praticamente inexistente;

- O subsistema do desporto federado continua a não ver reconhecida a importância da sua acção em termos da formação, orientação e especialização dos jovens que revelam maiores aptidões, não recebendo da parte dos governos o apoio indispensável para a estruturação do nível de alto rendimento que um país moderno exige. Devido a esta situação Portugal não consegue ombrear com os países europeus e vários do resto do mundo, que possuem características demográficas e estruturais do mesmo nível;

- O parque de instalações desportivas espalhadas pelo território mantém-se caracterizado por uma enorme subutilização, enfrentado sérios problemas de gestão;

- A ausência de esforços conjugados entre os diversos sectores do Estado, as autarquias locais, o movimento associativo desportivo e as empresas, impede que se estruture uma política nacional de desenvolvimento do desporto;

- A transferência de competências e responsabilidades do Estado Central para o Poder Local no sentido do desenvolvimento da prática desportiva e da criação das bases materiais para a viabilizar, não é acompanhada da indispensável transferência de meios financeiros;

- O movimento associativo desportivo vive um momento extremamente difícil. Dificuldades que advêm da crise que limitou fortemente a capacidade de financiamento local, do agravamento das condições de vida e da desregulação dos horários de trabalho dos seus dirigentes, da alteração da lei do arrendamento urbano;

- O desporto para as pessoas com deficiência continua a ser apresentado através dos êxitos conseguidos por alguns atletas que, com as suas famílias e os seus treinadores, são afinal quem sustenta a sua preparação, sem receber o apoio significativo;

- A dotação orçamental para o sector, assumindo desde há muito tempo uma pobreza constrangedora, foi agravada com o pretexto da crise. Na verdade, esta situação traduz o desprezo a que é votado o desporto, e desconhece, ou recusa, por incompetência e incúria, o enorme papel que as actividades físicas e desportivas podem e devem desempenhar em termos de poupança em saúde, de aumento da produtividade, na luta contra o insucesso escolar e a favor da integração social dos jovens;

- A penúria dos meios postos à disposição dos diferentes subsistemas, impede o indispensável desenvolvimento do desporto de alto rendimento – o que põe em causa não só a resposta aos/às jovens que a ele desejam aderir, como também a afirmação internacional do País –, e leva conduz à mercantilização das práticas.

Há quem defenda um amplo «consenso da visão do desporto nacional para o século XXI» (3).

Mas não se pode escamotear que, também no desporto, há concepções políticas e ideológicas inconciliáveis. O PCP considera indispensável uma nova política para a educação física e o desporto que, ancorada nos desígnios constitucionais, rompa decididamente com anteriores opções políticas neste sector.
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1) Alfredo Melo de Carvalho – Avante! – 11/8/2016
2) José Garcia, chefe da missão portuguesa aos Jogos Olímpicos
3) Francisco Teixeira da Mota – Público – 19/8/2016

 


Octávio Augusto