Aviões norte-americanos bombardearam o exército que combatia o EI
Damasco e Moscovo lamentam colapso do cessar-fogo
EUA minaram trégua na Síria

Os governos sírio e russo negam a autoria do ataque a um comboio humanitário, próximo de Alepo, ocorrido já depois do fim de um cessar-fogo violado pelos EUA e por «grupos rebeldes» apoiados por estes.

No mais recente episódio de uma guerra que durante a última semana foi parcialmente interrompida, em resultado de uma trégua provisória estabelecida entre a Rússia e os EUA, uma coluna humanitária das Nações Unidas foi atacada nas proximidades de Alepo.

A ONU suspendeu imediatamente as acções de entrega de ajuda humanitária, mas declarou ser prematuro atribuir a autoria do incidente em que morreram pelo menos 20 civis e um membro do Crescente Vermelho Árabe Sírio, e no qual 18 camiões carregados de ajuda de emergência foram destruídos.

A entrega de ajuda humanitária em Alepo foi, durante a pausa nas hostilidades, um ponto de discórdia. A ONU lamentou com insistência o facto de um comboio com bens de primeira necessidade permanecer parado do lado turco da fronteira. Os governos sírio e russo, depois de concretizarem a retirada das tropas da principal estrada de acesso à cidade, conforme estabelecia o acordo de cessar-fogo, anunciaram o regresso dos contingentes militares argumentando com o incumprimento da desmilitarização da zona por parte dos grupos armados.

Entretanto, os EUA aproveitaram o ataque à coluna humanitária, realizado esta segunda-feira, 19, para atribuir, com elevado grau de segurança, responsabilidades à Rússia e à Síria. Damasco e Moscovo negaram terminantemente e um porta-voz do Ministério da Defesa do Kremlin rejeitou mesmo a acusação sustentado na análise de imagens divulgadas por «activistas» sírios.

À margem da Assembleia Geral da ONU que se iniciou em Nova Iorque, Rússia e EUA presidiram a uma reunião de países envolvidos no conflito. Como se esperava, o encontro foi dominado pelo colapso do cessar-fogo acordado entre os responsáveis diplomáticos russo e norte-americano, o qual entrou em vigor dia 12.

A trégua foi definitivamente minada depois de aviões norte-americanos terem bombardeado posições do exército sírio quando este combatia o Estado Islâmico (EI) em Deir Ezzor, no sábado, 17. Inicialmente, o Pentágono ainda tentou alijar responsabilidades, mas posteriormente assumiu dizendo ter-se tratado de um erro. Pelo menos 60 soldados das forças armadas sírias morreram.

As autoridades de Damasco e Moscovo protestaram com veemência. O embaixador da Síria nas Nações Unidas, à margem da cimeira do Movimento de Países Não-Alinhados que se realizou na Venezuela, afirmou ser evidente que «o objectivo desta agressão norte-americana foi levar ao fracasso o acordo entre a Rússia e os Estados Unidos».

Deliberadamente

Já na segunda-feira, em visita oficial ao Irão, o presidente sírio Bachar Al-Assad, considerou o ataque em Deir Ezzor uma «flagrante agressão norte-americana» com o propósito de continuar o apoio às organizações terroristas e, no caso concreto, «beneficiar o EI».

«Cada vez que o Estado sírio obtém progressos no terreno, ou no sentido da reconciliação no país, os estados anti-Síria aumentam o apoio a organizações terroristas», acrescentou, antes de revelar que «nenhum dos factos no terreno aponta para um erro ou uma coincidência».

Num balanço efectuado antes de retomar as operações militares, a Síria contabilizou mais de 300 violações do cessar-fogo por parte dos grupos armados que, aliás, nunca foram claros quanto à observação da trégua. A semana passada, o presidente russo, Vladimir Putin, considerou que os EUA estavam a utilizar a interrupção das hostilidades para proteger o «reagrupamento de terroristas», que mudam «um emblema por outro, um nome por outro», mas conservam «a sua capacidade militar».

«É isto que estamos a ver e isto é triste», concluiu.

 

PCP questiona UE sobre Síria

O deputado do PCP no Parlamento Europeu João Ferreira pretende saber se a Alta Representante da UE para a Política Externa «tenciona propor ao Conselho [Europeu] uma tomada de posição imediata de condenação das violações do cessar-fogo, nomeadamente por parte dos EUA e dos grupos por estes apoiados» na Síria. O eleito comunista solicita, igualmente, «informação sobre que medidas serão tomadas no imediato para ajudar a restabelecer a ajuda humanitária às populações».

Na pergunta endereçada segunda-feira, 20, João Ferreira nota a gravidade da situação na Síria, lembrando que, «nos últimos dias, um ataque da aviação dos EUA matou pelo menos 62 soldados sírios» e que «terroristas do Estado Islâmico progrediram para o território ocupado pelos soldados mortos».

«Sobre os acessos humanitários, está previsto que as forças em combate se abstenham de fazer fogo e que se afastem dos corredores para garantir que organizações humanitárias viabilizem aos habitantes essas ajudas. Todavia, nas últimas horas foi atacado um comboio humanitário que tentava entrar em Aleppo, ataque que levou já a Cruz Vermelha Internacional a adiar a entrega de ajuda humanitária a quatro cidades isoladas na Síria», acrescenta-se.

 



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