• Jorge F. Seabra

Coimbra, o Convento<br>de S. Francisco<br>e a colecção Miró

Cidade universitária que no último meio século perdeu muita da sua actividade industrial, Coimbra viu grande parte do seu património destruído por erros e decisões políticas, locais e nacionais, postas em prática nas últimas décadas pelos partidos do então chamado «arco de poder» (PS, PSD e CDS).

Foi nesse contexto de degradação do tecido económico, social e cultural da cidade, onde por vezes se misturam sonhos de grandeza, que surgiu e se concretizou o projecto de recuperação do velho Convento de S. Francisco, depois acrescentado e reconvertido em Centro de Congressos e Espaço Cultural (CCEC CS. Francisco).

O «novo» Convento de S. Francisco – cuja construção, envolta em inúmeros problemas e conflitos, pôs a nu a forma improvisada como foi planeado e executado –, ocupa uma área de 35 000 metros quadrados, ombreando ou ultrapassando, tanto em capacidade como em qualidade técnicas, instituições congéneres mais conhecidas, como o Centro Cultural de Belém ou a Fundação de Serralves.

Só o seu maior auditório, situado nas novas edificações projectas pelo arquitecto Gonçalo Byrne, tem capacidade para 1125 lugares, equiparando-se favoravelmente ao maior auditório da Casa da Música do Porto, permitindo, ao contrário deste, a realização grandes de espectáculos de ópera. A isso se acrescenta o auditório da velha igreja, «apenas» com 500 lugares, várias salas de reuniões para 200, 120, 80 e 60 lugares, uma sala-estúdio com 140 lugares, extensos espaços longilíneos das alas reconstruídas, ideais como áreas expositivas, um café-concerto e um restaurante com 120 lugares, para além de outros salões e espaços de apoio.

Contudo, uma infra-estrutura desta dimensão e qualidade em Coimbra levanta sérias interrogações quanto à forma de aproveitar todas as suas potencialidades e de assegurar sua sustentabilidade financeira, uma vez que não se insere numa grande área metropolitana com aeroporto internacional, como as suas congéneres de Lisboa e do Porto.

Tal como o museu Guggenheim de Bilbau (salvaguardando as evidentes diferenças da estrutura e da cidade), que não tem uma ligação directa com a restante actividade cultural da cidade, também o CCEC Convento S. Francisco deve atrair cidadãos das diversas regiões do País e de outras nacionalidades, assegurando, dessa forma, a sua sustentabilidade financeira, podendo assim, colateralmente, apoiar a restante produção cultural da cidade e da região, evitando um efeito de eucalipto.

Mas para trazer os turistas que desembarcam nos aeroportos do Porto (a 1h de distância) e de Lisboa (a 2h), torna-se essencial que se possa juntar ao «isco» da velha Universidade de Coimbra, Património Mundial da Humanidade, um outro chamariz de primeira grandeza ancorado no CCEC Convento S. Francisco, que possa ser reconhecido por cidadãos dos quatro cantos do planeta.

Daí a oportunidade verdadeiramente estratégica de aproveitar a colecção Miró, entretanto aparecida nas cinzas da escandalosa falência do BPN, para a sediar no novo centro cultural de Coimbra, descentralizando o turismo cultural das grandes cidades que têm outras capacidades e outros polos de atracção.

Há mais de um ano, em Junho de 2015, quando ainda se discutia se a colecção Miró era pertença do Estado com o próprio governo PSD-CDS a querer vendê-la argumentando que «para além da amortização dos prejuízos do BPN, ... não se vislumbra qualquer outra forma de rentabilizar estas obras» (Público 16-4-15) –, a CDU avançou com uma proposta ao executivo camarário e à Assembleia Municipal de Coimbra, apelando para a mobilização de todos para que a colecção Miró ficasse instalada no CCEC Convento S. Francisco.

Infelizmente, e como afirmou a CDU na última Assembleia Municipal (7-10-15), «o executivo camarário e os outros grupos deste Assembleia não deram a importância devida a esta proposta, deixando passar uma oportunidade (talvez única) de projectar o CCEC S Francisco e a cidade para um nível superior de atracção cultural e turística, resolvendo simultaneamente um problema de financiamento que não parece ter outras soluções credíveis no horizonte».

A CDU não dá, contudo, a batalha como perdida e continuará a lutar por esse objectivo porque o considera bom para a cidade e para o País.

 



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