• Bárbara Barros

A abertura de um novo Centro de Trabalho foi, para muitos, um misto de emoções, com o orgulho a conviver com a saudade
PCP inaugurou novo Centro de Trabalho em Braga
«Nunca deixaremos de estar<br>no sítio certo»

Sábado, 39 anos depois de adquirir o Centro de Trabalho que até ali era a sede do PCP no distrito depois de um conturbado período histórico que levou ao assalto e incêndio do primeiro em liberdade, o PCP inaugurou uma nova sede em Braga.

Pelas três, numa tarde em que a chuva ameaçava voltar, centenas de camaradas e amigos do Partido juntavam-se na Praça da República, lugar costumeiro de concentração para outras iniciativas e lutas. Começava a arruada que dava início às festividades do dia, com um grupo de bombos de Cabeceiras de Basto a conduzir a multidão. Percorrendo as ruas do centro da cidade, em direcção à nova morada da sede regional do PCP, o som dos bombos e a alegria dos presentes ia contagiando o ambiente.

Horas antes de se encher a cidade de cor e de palavras de ordem, já o novo Centro de Trabalho bulia com os preparativos da inauguração. Desde a manhã, foram chegando camaradas às dezenas para limpezas e arranjos de última hora, para preparar e cozinhar os petiscos que se serviriam à tarde ou montar o sistema de som. À hora de almoço, entre garfadas de uma refeição comida à pressa, por conta das tarefas que faltava concluir, ouvia-se já a Carvalhesa.

Parava de chover e tudo ganhava corpo, finalizando as jornadas de trabalho que ao longo dos últimos tempos marcaram as rotinas em Braga. Entre reuniões preparatórias do XX Congresso, discussão das Teses e outras iniciativas, foram muitos os que deram o seu contributo para que fosse possível abrir as portas da nova casa do Partido.

O caldo verde, as bifanas, as moelas e as pataniscas já estavam prontas e o vinho verde da região já estava fresco quando se começou a ouvir o ribombar que anunciava a chegada da arruada. O entusiasmo aumentava e fazia-se sentir a presença e a força, naquela avenida, de um Partido que abre as suas portas aos trabalhadores e ao povo.

Da chuva já não havia sinal, apenas da enorme vontade de entrar e conhecer cada uma das salas, em cada um dos três pisos que dão forma ao novo Centro de Trabalho. Em poucos minutos, as janelas estavam enfeitadas com gente a espreitar cá para fora e o barulho das conversas percorria todo o espaço. Em cada canto se ouvia «isto é muito grande, muito bonito», entre sorrisos e cumprimentos.

Memória e futuro

Pouco depois, deu-se início ao período das intervenções com a chegada do Secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, que se juntou às centenas de pessoas que se concentravam na entrada do Centro de Trabalho. O primeiro a falar foi Carlos Almeida, membro do Secretariado da Direcção da Organização Regional de Braga (DORB) e responsável pela Organização Concelhia de Braga, numa intervenção algo emocionada, espelho da emoção generalizada que se fazia sentir entre os presentes num momento tão marcante para o Partido. «Podem crer que a decisão que nos trouxe até aqui foi muito difícil de tomar», confessava Carlos Almeida, acrescentando, de seguida, que hoje se percebia que tinha sido acertada, já que o PCP tem agora «um espaço renovado, digno, com excelentes condições para o trabalho necessário, preparado para bem receber os trabalhadores e o povo de Braga».

Sobre a anterior casa – o número 15 da Rua de Santo André – lembrou o responsável da organização concelhia vários momentos lá passados, desde campanhas eleitorais a lutas travadas, às comemorações dos êxitos, os sorrisos, as lágrimas e os abraços. «Tudo isso são memórias que vêm connosco e ficam para sempre, porque é sobre a nossa história que continuaremos a construir o futuro em que acreditamos». «Esta casa é, também por isso, uma justa homenagem a todos os militantes que, ao longo de décadas, cuidaram do seu Partido», sublinhou Carlos Almeida, garantindo ainda no final da sua intervenção que «hoje mudamos de morada, mas jamais deixaremos de estar no sítio certo».

Já João Frazão, da Comissão Política do Comité Central e responsável pela Organização Regional de Braga, afirmou crer que «inaugurar um novo Centro de Trabalho é uma boa maneira de cumprir um dos objectivos do XX Congresso do Partido», porque «estamos a reforçar a capacidade realizadora e de intervenção do Partido».

O responsável da organização regional aproveitou ainda para desafiar «os camaradas da Célula do Complexo Grundig, que agora são nossos vizinhos», a aproveitarem estas novas instalações, «assim como a célula dos trabalhadores da autarquia, dos professores comunistas ou dos trabalhadores do têxtil, vestuário e calçado». «Aqui temos de organizar a luta dos trabalhadores e das populações pelos seus direitos», lembrou o dirigente.

Antes de terminar, não esqueceu João Frazão de enumerar as tantas tarefas colocadas ao colectivo partidário, agora a partir desta nova casa, nomeadamente a de «assegurar o êxito da campanha de fundos de 50 mil euros que lançámos para custear as despesas inerentes à aquisição deste Centro de Trabalho».

Um Partido diferente
dos que são iguais

Neste espaço, que albergará a Organização Concelhia de Braga, a Direcção da Organização Regional de Braga e a Juventude Comunista Portuguesa, usou da palavra, por fim, Jerónimo de Sousa. O Secretário-geral do PCP referiu-se à concretização da campanha de fundos como uma forma de distinguir este Partido dos outros, que, por um lado, dependem demasiado do Estado e do poder económico e, por outro, não transmitem confiança suficiente aos seus militantes quanto ao destino das suas contribuições.

Jerónimo de Sousa mencionou ainda a actual solução política e o papel do PCP em todo o processo de repor e conquistar direitos e rendimentos, lembrando que dando mais força ao PCP «mais perto ficarão os objectivos por que lutamos, materializando o sentimento de esperança dos portugueses». «Um Centro de Trabalho tem que estar sempre ligado à vida que o rodeia. De portas franqueadas aos militantes mas também às populações, aos seus problemas e aspirações concretas», acrescentou o Secretário-geral do PCP, deixando clara a importância de manter a ligação do Partido às massas.

No final das intervenções, o Avante Camarada e o hino nacional como que baptizaram o espaço que ali se inaugurava oficialmente com o içar da bandeira nacional, ladeada pela bandeira rubra do PCP. No entanto, a iniciativa estava longe de terminar.

Enquanto os presentes conversavam, conheciam a sua nova sede, comiam, bebiam e partilhavam memórias da história do Partido até aqui, o músico Jorge Lomba animava o ambiente, transformando a inauguração numa festa popular. As horas passavam sem chuva e sem cansaço, com direito ainda a bolo alusivo e a mais música com o grupo Cantares da Terra.

Já passava muito da hora de jantar quando os últimos camaradas e amigos se iam preparando para terminar o convívio, no fim de um dia cheio de emoções, muita alegria e muito orgulho na etapa que ali se encerrava. Estava assim inaugurado o novo Centro de Trabalho, com os trabalhadores e o povo, com alegria, força e confiança.

Voltou então a chuva, que cobriu os vidros com caixilhos de madeira, antes limpos pelas mãos militantes dos que ajudaram a garantir que naquele sábado se abririam todas as janelas; a calçada portuguesa na entrada, onde se pode ler «PCP», com a foice e o martelo, pelas mãos generosas dos que ajudaram a garantir que naquele sábado se pisaria com segurança e sem margem para dúvidas aquele «chão nosso»; os portões pintados de branco, pelas mãos abnegadas dos que ajudaram a garantir que naquele sábado se abririam de par em par, a todos quantos vierem por bem, as portas da nova casa do Partido em Braga.


Resistir e lutar sempre

Com a inauguração do novo Centro de Trabalho do Partido em Braga inicia-se um novo capítulo de uma história recheada de heroísmo e tenacidade, sempre em favor dos trabalhadores e do povo. A primeira casa do Partido em Braga foi incendiada no dia 11 de Agosto de 1975, num dos vários episódios da vaga terrorista que teve os comunistas e as forças mais consequentes do processo revolucionário como alvos privilegiados.

No ano passado, evocando os 40 anos sobre este dramático acontecimento, o PCP realizou uma acção pública que contou com as intervenções do responsável pela organização regional, João Frazão, e de Teresa Lopes, dirigente do PCP em Braga aquando do assalto. Na iniciativa, que juntou centenas de militantes e simpatizantes do Partido junto ao local onde se localizava o malogrado Centro de Trabalho, lembrou-se a participação da extrema-direita e de sectores e responsáveis da Igreja Católica no ataque à sede do PCP, protagonizado por marginais dirigidos por conhecidos cadastrados. O ataque destruiu por completo o edifício, enquanto os militantes que lá resistiam, cercados, só conseguiram sair escoltados por militares.

Por essa mesma altura, no distrito de Braga, outros assaltos semelhantes destruíram ou danificaram sedes comunistas: em Fafe, na Póvoa do Lanhoso, em Vila Nova de Famalicão, em Vila Verde, em Vieira do Minho. Os comunistas resistiram sempre e não desistiram de afirmar o seu projecto e de lutar ao lado dos trabalhadores e das populações contra a exploração, pelo progresso e a justiça social. Assim fizeram durante décadas no Centro de Trabalho situado na Rua de Santo André, no centro da cidade, e assim continuarão a fazer nas novas instalações. Porque o PCP é assim, revolucionário e indomável.

GC



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