«Há valores
que não podem,
nem devem
ser mercantilizados»
Privatização da Fortaleza de Peniche
é um atentado à democracia
Erguer um verdadeiro museu <br>da resistência

Mais de 600 ex-presos políticos, seus familiares, amigos e muitos democratas, aprovaram no sábado, 29 de Outubro, um apelo onde se exige que o Governo ponha fim ao projecto de concessão da Fortaleza de Peniche, que, a ser concretizado, seria mais um passo na política de fazer esquecer que o fascismo existiu, com todo o seu cortejo de crimes, e representaria um atentado à democracia, conquista inseparável da resistência do povo português à ditadura.

No local que o Executivo PS quer transformar num hotel à beira mar plantado, o mesmo que os presos nem sequer podiam ver, estiveram pessoas do Porto, Coimbra, Marinha Grande, Peniche, Algarve, Beja, Évora, Barreiro, Baixa da Banheira, Setúbal, Almada, Vila Franca de Xira, Alhandra, Algueirão, Sintra, Montemor-o-Novo, Alpiarça e Couço e de muitos outros locais do País, para dizer «Não» à intenção de entregar a privados o Forte de Peniche, local histórico da resistência ao fascismo e da luta pela liberdade, onde milhares de portugueses foram sujeitos às mais severas condições de isolamento, maus tratos e às tristemente célebres medidas de segurança que prolongavam indefinidamente as penas de prisão decididas pelos tribunais plenários.

No apelo «Em defesa da Fortaleza de Peniche, símbolo da repressão e da luta contra o fascismo», dirigido ao primeiro-ministro e aprovado com emoção e lágrimas, sob uma intensa salva de palmas, refere-se que «há valores que não podem, nem devem, ser mercantilizados» e lembra-se que «os edifícios da Cadeia do Forte de Peniche, onde estiveram 2500 presos, encerram uma história de milhares de anos de vidas privadas de liberdade e sujeitas a um regime prisional odioso que não poupava os familiares dos presos, também eles sujeitos a actos de repressão, arbitrariedade e humilhação» e «numerosas manifestações de luta, solidariedade, dignidade e apego à liberdade».

Museu da Resistência

«O respeito pela memória de milhares de portugueses que deram o melhor das suas vidas, e muitos a própria vida, por um Portugal livre e democrático, exige a preservação da Fortaleza de Peniche como símbolo da resistência e da luta contra o fascismo», sublinha o documento, acrescentando: «O dever do Estado não é atentar contra um dos mais significativos símbolos da repressão», mas sim «adoptar as medidas políticas e financeiras para garantir a preservação da Fortaleza de Peniche como património nacional ao serviço da comunidade e assegurar a instalação de um verdadeiro museu da resistência que cumpra a imperiosa função de dar a conhecer às jovens gerações o que significaram 48 anos de ditadura fascista para o nosso País, quantos sacrifícios impôs aos portugueses e o que foi a heróica luta do povo pela liberdade e pelas conquistas da Revolução de Abril».

A criação do museu foi defendida por Domingos Abrantes, dirigente do PCP e o preso vivo com maior número de anos de detenção no forte. «Preservar a Fortaleza de Peniche como símbolo da memória da resistência e luta é uma exigência que fazemos ao Governo em defesa da liberdade e da democracia», destacou, citando Borges Coelho: «As sociedades que não preservam a memória não acautelam o futuro».

«Por isso, hoje e aqui, e amanhã pelo País fora, afirmamos ao Governo a nossa determinação de tudo fazer para impedir mais um atentado à memória da resistência. Fazemo-lo pela liberdade, fazemo-lo para honrar a memória das vítimas do fascismo, fazemo-lo para que a mais sentida e vibrante palavra de ordem, “fascismo nunca mais!” não seja apenas uma quimera, mas uma realidade que perdure para sempre», afirmou Domingos Abrantes.

José Pedro Soares, também ele preso político, presidiu ao «encontro – convívio de ex-presos políticos, familiares e amigos». Contou, numa intervenção bastante sentida, o que passou naqueles longos anos enclausurado e as brutais torturas a que foi submetido.

Poesia de resistência

Domingos Lobo e Manuel Diogo intercalaram as intervenções com poesias da resistência, tornando o momento ainda mais bonito. «Um homem só no segredo», de Carlos Aboim Inglês, «Helena», de Manuel da Fonseca», «Manhã», de Luís Veiga Leitão, «Todos os punhais», de José Gomes Ferreira, «O manholas», de Domingos Lobo,

A iniciativa – em que participou Luísa Araújo, do Secretariado do Comité Central do PCP – terminou com os temas «Venceremos» e «Grândola Vila Morena». Por último os participantes visitaram o Parlatório, o Segredo, o Pavilhão A e B, o Bloco C e a Cisterna, acompanhados, respectivamente, por José Ernesto Cartaxo, Álvaro Pato, Manuel Candeias, Adelino Pereira da Silva e Domingos Abrantes.


Povo solidário

A iniciativa – realizada no pátio do forte, onde estiveram, entre outros ex-presos políticos, António Gervásio, Manuel Pedro e Francisco Braga – contou ainda com as palavras de José António Amador, na altura um jovem que estava entre a população que recebeu os presos políticos libertados na madrugada de 27 de Abril de 1974. O seu testemunho fez vir à memória o que foi a solidariedade da população de Peniche, durante anos e anos, com as famílias e amigos dos presos antifascistas.

Recordou, por exemplo, o ano de 1952, quando «a população de Peniche, chamada por mulheres de presos políticos, protestou à frente da fortaleza por melhores condições prisionais». Extraordinária foi também a solidariedade daquele povo na fuga, em 1960, que devolveu à liberdade e à luta dez destacados dirigentes e militantes do PCP (Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes, Carlos Costa, Jaime Serra, Francisco Miguel, José Carlos, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério Carvalho e Francisco Martins Rodrigues). Em 1954, os pescadores de Peniche estiveram envolvidos na fuga de Dias Lourenço, até ao fim da sua vida militante do PCP.

«Outra forma de solidariedade foi prestada por algumas famílias, nomeadamente de pescadores, que recebiam em suas casas mulheres, mães e filhos de presos para assim, numa deslocação a Peniche, puderem visitar os seus maridos, filhos e pais


Histórias reais

O capitão de mar e guerra Machado dos Santos começou por «repudiar a estrambólica intenção do Governo de fazer o que quer fazer com vários monumentos nacionais, particularmente com o Forte de Peniche», para depois se apresentar como um dos militares, juntamente com outros, como o major José Maria Moreira Azevedo, hoje coronel, encarregado pela Junta de Salvação Nacional de proceder formalmente «à abertura das portas da prisão política de Peniche» na madrugada de 27 de Abril de 1974. «Não foi fácil convencer o general Spínola», confessou, informando que «só no dia 26 de Abril, depois de almoço, é que o “senhor” decidiu aceder às pressões de libertação dos presos políticos». «Este foi um dos momentos mais significativos da minha vida, podem crer», garantiu. Com presos políticos não podia existir democracia em Portugal.

Causa nobre

Eulália Miranda falou da sua experiência de criança, lembrando que a sua família, assim como tantas outras, percorriam «muitos e muitos quilómetros, com grandes dificuldades financeiras, para visitar durante uma hora, duas ou três vezes por ano, o seu pai». «Esperávamos junto a um portão enorme, à chuva, ao frio, ao calor, inquietos pelo medo e pela incerteza», lembrou, sem esquecer as palavras da sua avó: «Vocês têm que ser fortes, não podem chorar. Não deixem que o vosso pai fique triste e que os carrascos tenham pena de vós. Ele está ali por uma causa nobre.»

Bastante emocionada, Eulália, filha de Dinis Miranda, revelou não conseguir apagar da sua memória «o barulho de uma chave enorme que abria as portas», o que a «intimidava», assim como «o choro das crianças que queriam ver os pais, tocá-los e beijá-los, o que lhes era negado porque só os podíamos ver da cintura para cima, através de um vidro».

Por isso não percebe por que é que o Governo quer entregar o Forte de Peniche a privados. «Aquelas paredes, aquelas janelas, estão cheias de dor e de sofrimento, mas também de luta e de coragem», frisou.


URAP defende maior investimento do Estado no forte de Peniche
Ponto de encontro e de vontades

Marília Villaverde Cabral, coordenadora do Conselho Directivo da União de Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP), saudou todos os «companheiros presentes», especialmente os «homens que, pelo seu amor à liberdade e ao povo, aqui passaram anos das suas vidas».

Deu a conhecer que a URAP, logo após ser conhecida a decisão do Governo de concessionar o forte, não só tomou uma posição pública contra a intenção, como, imediatamente, se juntou à onda de protestos, divulgando a petição pública «Forte de Peniche, defesa da memória, resistência e luta». Sobre a acção que decorria, qualificou-a de «um grande ponto de encontro e de vontades para que o museu da resistência não seja descaracterizado, mas, pelo contrário, com um maior investimento, seja mais valorizado».

Anunciou, por outro lado, que a URAP já fez um levantamento do nome de todos os presos políticos que estiveram na fortaleza [estando o mesmo a acontecer no Porto e em Angra do Heroísmo] e que, por decisão da Câmara e da Assembleia Municipal de Peniche, vai ser inaugurado, a 25 de Abril, um monumento em sua homenagem.

«Vamos continuar a lutar pela preservação do Forte de Peniche, como símbolo da repressão e da resistência antifascista e, assim, honraremos os tarrafalistas, os marinheiros insubmissos, todos os presos políticos e outros antifascistas, homens e mulheres que há 40 anos fundaram a URAP e de cuja herança tanto nos orgulhamos», declarou.

 
 

Manhã

Bom dia. Diz-me um guarda.

Eu não ouço...apenas olho

das chaves o grande molho

parindo um riso na farda.

 

Vómito insuportável de ironia

Bom dia, porquê bom dia?

 

Olhe, senhor guarda

(no fundo a minha boca rugia)

aqui é noite, ninguém mora,

deite esse bom dia lá fora

porque lá fora é que é dia!

Luís Veiga Leitão


Todos os punhais

Todos os punhais que fulgem nos gritos,

Todas as fomes que doem no pão

Todo o suor que luz nas estrelas

Todas as lanças nos dedos da reza,

Todos os soluços para ressuscitar os filhos mortos,

Todos os desejos nos alçapões do frio,

Todas as jóias nos pescoços dos espelhos rachados

Todos os assassinos que andaram aos colo das mães,

Todos os atestados de pobreza com lágrimas de carimbo,

Todos os murmúrios do sol no quarto ao lado à hora da morte…

 

Tudo, tudo, tudo

Se condensou de repente

Numa nuvem negra de milhões de lágrimas

A humilharem-me de ternura

eu que quero ser alheio, duro, indiferente…

 

. Enquanto os outros dançam, cantam, bebem,

vivem, amam, riem, suam

neste pobre planeta

magoado das pedras e dos homens

onde cresceu por acaso o meu coração no musgo

aberto para a consciência absurda

deste remorso sem sentido.

José Gomes Ferreira




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