O mote está dado: é preciso «reconciliar os cidadãos com o projecto europeu». O pretexto encontrado: primeiro o «Brexit» e depois a vitória de Trump justificam a urgência de «inventar um futuro para a Europa» e esconjurar a «ameaça populista».

Assim nasceu o «Movimento 9 de Maio» (data da Declaração de Schumann, feita em 1950 e tida como momento fundador do processo de integração capitalista europeu).

Filho dilecto do Consenso de Bruxelas, o movimento (m9m) junta sectores da direita e da social-democracia europeias, dos conservadores alemães aos socialistas portugueses, passando pelos liberais e pelos verdes europeus. Integra também, entre outras personalidades, representantes directos do grande capital, como os oriundos da confederação do grande patronato europeu, a BusinessEurope.

No passado dia 15, através de um manifesto publicado simultaneamente na imprensa de vários países europeus (Portugal incluído), o m9m apresentou-se e disse ao que vinha (www.m9m.eu). O resultado: com pouco menos de cinco mil caracteres ergue-se um monumento à hipocrisia e à desfaçatez, ao mesmo tempo que se aponta, de forma relativamente desabrida, o que por aí pode vir pela mão desta gente.

Os subscritores do manifesto começam por enunciar o que dizem ser os «factores que preocupam o cidadão» (e que são, no seu entendimento, perversamente manipulados por «aqueles que tentam minar as nossas democracias»). São eles: «o aumento das desigualdades sociais, os receios relacionados com a vaga de imigração, sistemas educacionais e culturais deficitários, a desconfiança generalizada nas elites políticas, demasiado focadas nos seus interesses pessoais, e nas instituições públicas, percepcionadas como ineficazes e demasiado dispendiosas». Ou seja, uma manhosa mescla de consequências evidentes das políticas que os próprios subscritores defendem e puseram em prática (mas nunca assumidas como tal), com objectivos, mais ou menos assumidos, que consistem em dar cabo do que resta das funções do Estado, ou não fossem as instituições públicas «ineficazes e demasiado dispendiosas».

Quem provocou o aumento das desigualdades sociais? Os subscritores não esclarecem. Quem degradou os «sistemas educacionais e culturais»? Silêncio de chumbo. Quem, afinal de contas, integra as «elites» a que os subscritores apontam o dedo? Nem uma palavra, não se vá perceber que o manifesto foi redigido frente ao espelho.

Partindo da afirmação de Trump de que «os europeus têm que ser responsáveis pela sua própria segurança, do ponto de vista político e financeiro», o m9m deixa mais uma vez claro ao que vem. Os riscos são enormes, consideram, o desastre espreita e pode concretizar-se, caso não se adopte as medidas necessárias. E atenção, muita atenção: «um pouco por toda a Europa, os partidos moderados estão sob forte ameaça». «Por isso, é urgente agir!», conclui o manifesto.

E que propõem então os promotores do m9m, supõe-se que, todos eles, oriundos dos «partidos moderados»? Nada menos do que «um roteiro ambicioso e pragmático para proteger e melhorar a vida do cidadão europeu». E adiantam de que é feito este roteiro, esclarecendo que «de entre as nossas propostas emblemáticas estão: a criação de um Erasmus para o Ensino Secundário, o aprofundamento das políticas comuns na área da defesa, uma duplicação imediata do montante do plano de investimento dito Juncker e a constituição de listas transnacionais para as próximas eleições europeias».

Propaganda, escalada militarista, injecção de mais dinheiro público nas multinacionais e novos ataques às soberanias nacionais com novos impulsos federalistas – eis o «novo futuro» que o m9m quer «inventar» para a Europa.

A vocação imperialista é assumida sem rebuços: «chegou o momento de se desenvolver uma verdadeira política externa e de defesa comum. É tempo de a União Europeia se assumir como uma potência política e agir em conjunto para ter um impacto real sobre o destino democrático, cultural, social, económico e ecológico da humanidade».

Não logrando os seus objectivos, o risco, salienta o m9m, é o da «marginalização dos nossos interesses e dos nossos valores – num mundo onde não representaremos brevemente mais de 5% da população e em que que nenhum Estado do continente vai fazer parte do G7».

A situação e evolução da integração capitalista europeia confirmam uma tese plena de sentido e de actualidade: para salvar a Europa é preciso derrotar a União Europeia.




Edição Nº 2244
http://www.avante.pt - Jornal «Avante!»' name='v1' id='v1'>
-->