• Manuel Pires da Rocha

A última peça que Fernando Lopes-Graça compôs dedicou-a a Álvaro Cunhal, no seu 80.º aniversário
Músico e militante em comunhão
com o povo a que pertencia
Nos 110 anos<br>de Fernando Lopes-Graça

«Acordai, homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis, vinde no clamor das almas viris arrancar a flor que dorme na raiz», foi o que o poeta escreveu. E acertadamente o fez naquele século XX em que, mais do que em qualquer outro tempo, se decidiu que a velha sentença de que «sempre houve ricos e pobres» não tinha de ter futuro.

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Disse-o com a veemência e o encanto de que só a Arte é capaz quando o artista percebe que «arrancar a flor» é matéria do porvir, e no gesto se empenha misturando-se com os demais. Não depende a justeza daquelas palavras do caminho que pudessem seguir – o de serem guia ou, apenas, inquietação – porque justas eram-no já por si só. Tratava-se, isso sim, de as tornar essenciais, como Lopes-Graça sabia que o seriam se lhes juntasse a sua música. «Acordai» é o hino que sabemos ser, concebido para munir de bela determinação a classe que tão duramente se entrega à antiga luta. Um canto heroico entre muitos outros cantos, um título apenas do catálogo volumoso que é a obra de Fernando Lopes-Graça.

Fernando Lopes-Graça nasceu em Tomar, em 17 de Dezembro de 1906, onde duas sociedades filarmónicas ensaiavam já, para além dos respetivos reportórios, as diferenças de visão monárquica e republicana – de um lado a Nabantina do outro a Gualdim Pais. O encontro com a música aconteceria, porém, noutro lado. Por altura dos seus onze anos o pai do jovem Fernando tomaria de trespasse o hotel da terra, onde morava já um velho piano pelo qual o rapaz se encantou. De tal modo que um dos hóspedes, o Tenente Aboim, oficial do Estado-Maior, sugeriu que o moço passasse a ter aulas de piano com a Dona Maria Imaculada, filha do General, que lhe daria as tais lições no próprio Quartel-General, à Várzea Grande.

Comentaria mais tarde Lopes-Graça ter entrado na música «pelas mãos da tropa, e não pelas da Igreja ou da Nobreza, como nos belos tempos em que o músico era ungido do Senhor ou de Sais». E se da entrada de Fernando Lopes-Graça na música foi a sua Tomar testemunha, foi também ali que, pela voz da telefonia, conheceu «O Mar», de Debussy, numa interpretação de Arturo Toscanini, momento que há-de ter sido importante, ou não o teria retirado da memória para no-lo contar.

Sabe-se que os fotogramas nasceram mudos e mudos por cá vão permanecendo, como é do conhecimento geral, congelado que fica o tempo nos contornos que a luz ali fixou. Nada de mais – ninguém exigiria a Nadal ou ao nosso Relvas que fizesse falar os seus «bonecos», tanto se gosta deles assim como são. Já a sucessão de imagens a que chamamos cinema sempre lidou mal com o silêncio, pelo que a sua exibição nos tempos do cinema mudo recorria, regra geral, ao labor de um pianista. Fernando Lopes-Graça tinha catorze anos quando se iniciou no ofício de pianista do Cine-Teatro de Tomar, pintando os dramas de Hollywood e outros que por lá tenham passado com as cores da música de Debussy e da literatura musical russa, recriada por um jovem pianista da terra que assim experimentava os seus caminhos.

Música e consciência social

A inscrição da linha de tempo da vida de Lopes-Graça não faria particular sentido nas páginas do jornal do seu Partido, a não ser para dizer da coincidência dos seus dias com os da luta militante, primeiro contra o fascismo e logo pela democracia de que foi fundador e combatente até poder ser. Importa, por isso, seguir-lhe os passos para que se perceba que Lopes-Graça os guiou pela determinação de querer fazer parte do tempo – social, político, cultural – que habitou. A partir de 1923 será aluno do Conservatório Nacional cujo curso de Composição concluirá em 1931. Serão seus mestres Adriano Meira (Curso Superior de Piano), Tomás Borba (Composição), Luís de Freitas Branco (Ciências Musicais) e Vianna da Motta cuja Classe de Virtuosidade vai frequentar em 1927. Frequentará depois (1928) o Curso de Ciências Históricas e Filosóficas, primeiro em Lisboa no Convento de Jesus, depois em Coimbra.

Lopes-Graça tem dezanove anos em 28 de Maio de 1926, o dia do golpe de Estado que abrirá caminho ao regime fascista em Portugal. O País irá ser vítima do projeto reacionário de uma burguesia retrógrada, inimiga feroz de todo o assomo de liberdade – e, desde logo, da liberdade de criação – de todo o esboço de dignidade. Consciente de si, o jovem estudante Lopes-Graça é cativado pelos ideais de justiça da ainda recente Revolução de Outubro. Os anos que se seguirão serão de um empenho cívico que viria a ser reprimido com a prisão (por duas vezes na década de 1930, acusado de disseminar «propaganda subversiva e organização da Frente Popular»), o desterro e a proibição de exercer o ofício de professor. Identificado pelo regime como seu inimigo principal – justificadamente, assinale-se – é impedido, em 1931, de ocupar o lugar de professor no Conservatório Nacional, por si conquistado em concurso público.

Em 1936 Lopes-Graça é encerrado em Caxias e, logo a seguir (1937) forçado ao exílio. Fixa-se em Paris, onde retoma a actividade política – ora ao serviço do Governo da Frente Popular nas Maisons de la Culture, ora colaborando em iniciativas do Partido Comunista Francês – e a actividade académica, estudando Composição e Orquestração com Charles Koechlin. Os estudos, a leitura, a vivência em Paris, a convivência com escritores e artistas da sua geração proporcionaram-lhe a sólida cultura humanística que fará do Músico figura ímpar do seu tempo e construtor indispensável do nosso tempo, em que o crescente conhecimento da sua extensa obra musical, ensaística e literária é, cada vez mais, um contributo essencial na construção da Democracia Avançada que o Partido de Lopes-Graça propõe hoje ao povo português.

No regresso a Portugal, em 1939, retoma os seus labores de cronista e crítico musical, musicólogo e professor, organizador e dinamizador cultural. Convidado no ano seguinte a dirigir os Serviços de Música da Emissora Nacional, será impedido de exercer funções por se ter recusado a assinar a declaração, exigida a todos os funcionários públicos, de «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas».

Nos anos 40 consolida-se o seu percurso de compositor – iniciado em 1927 com a escrita das «Variações sobre um tema popular português», para piano – com a obtenção do primeiro prémio de composição patrocinado pelo Círculo de Cultura Musical (em 1940 e em 1942.). No plano da escrita colabora na Seara Nova e no Diabo, participando, com Bento de Jesus Caraça, na organização da Biblioteca Cosmos, publicando os títulos Introdução à Musica Moderna e Bases Teóricas da Musica.

Uma Arte socialmente empenhada

Uma fotografia da época fixa-o num dos famosos «passeios do Tejo», a forma encontrada pelos comunistas para, no início dos anos 40, realizar encontros e reuniões de intelectuais, a salvo da vigilância policial. Os passeios eram organizados por Alves Redol, Soeiro Pereira Gomes e António Dias Lourenço, e reunião destacados nomes da cultura e da resistência antifascista, como Álvaro Cunhal, Manuel da Fonseca, Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Alexandre Cabral, Carlos de Oliveira, Carlos Pato ou Fernando Piteira Santos, para além dos organizadores, eles próprios nomes cimeiros do neo-realismo português. É também desse tempo o quadro de Abel Manta em que o compositor contracena com Francisco Pulido Valente, António Sérgio, Aquilino Ribeiro, Câmara Reis, entre outros.

Nos anos 1940-41 Lopes-Graça está muito próximo do movimento de reorganização do PCP, fazendo-se publicar em revistas nas quais escrevem quadros mais destacados do Partido, participando em iniciativas culturais de comprometimento dos intelectuais portugueses com a defesa de uma arte socialmente empenhada e politicamente enquadrada.

Em 1945 adere ao MUD, formando o Coro do Coro do Grupo Dramático Lisbonense à frente do qual participa em iniciativas do Movimento. Datam desta altura as primeiras Canções Heróicas, peças essenciais de todos os palcos da História recente de Portugal, desde os da resistência ao fascismo aos da reivindicação de um Portugal emancipado e de progresso, capazes de mobilizar para a vivência da Arte aqueles, amadores, a quem a Política do Espírito salazarista atira para os braços da manipulação. Nesse sentido prossegue o trabalho de recriação dos cantos populares portugueses, afirmando o caráter nacional da sua obra, interessada pelo «contacto assíduo do compositor com as fontes da música rústica». Em Lopes-Graça a música nacional é a recusa do pitoresco com que as classes dominantes retrataram o povo português, algures entre o boçal e o pateta. Trata-se, para o compositor, de fazer uso das ferramentas de escrita musical da tradição clássica europeia para a construção de um discurso nacional, ciente de que «qualquer cultura musical, antes de ser um corpo de obras e de ideias perfeitamente definido e mais ou menos consciencializado na pessoa dos seus génios representativos, existe potencialmente e infuso nas manifestações espontâneas da sua música popular».

Num programa da televisão portuguesa dedicado a Michel Giacometti – companheiro e camarada essencial na obra de Lopes-Graça – afirmava uma alentejana de Peroguarda que o etnólogo que por ali parava para levar os cantos do povo, levando-os, deixava-o sempre mais rico. O mesmo, ou semelhante viria a dizer Lopes-Graça: «que retirei eu do roubo das canções? Eu vo-lo confesso. Revelaram-me elas melhor a alma do povo português, ensinaram-me a conhecê-lo mais intimamente, ajudaram-me a procurar uma mais funda identificação com ele e eu considero isto um benefício muito importante para um artista, para um músico, que deseja e se esforça por que a sua arte, mais do que uma aventura ou uma confissão pessoal, seja um meio de comunicação, melhor, um meio de comunhão com o povo a que pertence.»

Opção natural

A Arte de Lopes-Graça soube ser mais do que um meio de comunhão do Compositor com o tal povo da sua pertença – foi (é) um lugar de encontro da sua música com as palavras de muitos artistas na construção de objectos totais de comunicação. Na obra de Lopes-Graça juntam-se Camões, António Nobre, Torga, Armindo Rodrigues, José Gomes Ferreira, Casais Monteiro, Cesariny, Raul Brandão, Gil Vicente, Cochofel, Bocage e os muito mais que foram precisos para a construção de uma pátria musical que inclui ainda Lorca e Machado.

Em 1948 Lopes-Graça torna-se militante do Partido Comunista Português, a opção natural quem conhecia já a perseguição política, a prisão, o desterro e o exílio; o gesto natural de quem vinha lutando com as mesmas armas de resistência com que lutavam os comunistas, partilhando os mesmos cárceres, as mesmas praças, as mesmas vontades, a determinação. Adere ao Partido num momento crucial da luta antifascista, por cá, e da ofensiva anticomunista no plano internacional, de que o maccartismo é dramático exemplo. Na sua pátria o tempo é de corajosa e desafiadora iniciativa cultural, no âmbito musical mas também nos da literatura, da revelação do património popular, das artes plásticas; um tempo de reforço do Partido, que regista a adesão de jovens intelectuais, muitos deles oriundos do MUD, que viriam a assumir responsabilidades na estrutura clandestina e nos órgãos de direção partidária. A tarefa no plano internacional era a da consolidação da paz num contexto em que se agudiza, de novo, o natural conflito de classe, agora entre os velhos estados capitalistas e os recém-criados estados socialistas. Lopes-Graça participa nesse grande movimento internacional progressista, deslocando-se à Polónia para estar presente no 1.º Congresso dos Intelectuais para a Paz, e a Praga para tomar parte no 2.º Congresso dos Compositores e Musicólogos Progressistas.

Apresse-se a linha do tempo o suficiente para situar Lopes-Graça em 25 de Abril de 1974, as Heróicas a tomar as ruas de Lisboa na voz de quem as sabia de cor, logo depois tingindo de «vozes ao alto» o primeiro 1.º de Maio. Trazendo-as de novo Jornadas e Cantos Moços para o cantar coletivo em 25 de Maio de 1975, na celebração da Revolução no Coliseu, juntando as vozes dos milhares de desafinados às afinadas vozes do Coro da Academia de Amadores de Música, corpo musical de todas as lutas nascido em 1945 para ser companheiro da vida toda de Fernando Lopes-Graça. Coro militante, da têmpera do seu maestro, mobilizador das ruas, fábricas, campos, escritórios, escolas, o seu canto levantado em nome de uma democracia simultaneamente política, económica, social e cultural, interventor principal em comícios e festas do PCP, Unidades Colectivas de Produção da Reforma Agrária, coletividades e salas de espetáculos.

Da última vez que o visitámos, trabalhava na sua última obra, a Música Festiva Op.153 n.º 23, Nos 80 anos do grande camarada e amigo Álvaro Cunhal. Depois de nos abrir a porta sentou-se no banco do piano e debruçou-se sobre a folha, gatafunhando-a. Pediu um cigarro, que partiu ao meio, como dizem que sempre fazia, e falou sobre o Michel (Giacometti). Estavam ali as lutas de Portugal inteiro, no meio dos protagonistas do nosso passado recente – o Partido, a música do povo e o militante. Bem dizia o velho Vladimir Ilitch que «o Comunismo é a juventude do mundo», o lugar para onde se dirigem os que, de Heróica nas vozes, assim se anunciam: «vimos do cabo do mundo, vimos do fundo da vida: que somos o próprio mundo, e somos a própria vida.»

(Texto construído a partir de excertos de trabalhos de Mário Vieira de Carvalho, António Borges Coelho, Álvaro Cunhal e Filipe Diniz)




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