• António Santos

México e o preço do grande muro

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Pode-se dizer que há décadas que o México é um país que exporta limões e importa limonadas. É assim, por exemplo, com o petróleo e a energia. Quando, em 1994, o país norte-americano assinou com os EUA e com o Canadá o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio, mais conhecido pela sigla inglesa NAFTA, os limões tornaram-se mais baratos e as limonadas ficaram mais caras. A NAFTA encheu os bolsos de alguns milionários, mas para a maioria dos mexicanos foi uma receita para a catástrofe: passados 23 anos, a percentagem da população a viver abaixo do limiar da pobreza não só não baixou como aumentou, atingindo hoje quase 55 por cento dos mexicanos; a emigração para os EUA duplicou até atingir o recorde histórico de 13 milhões de trabalhadores; o crescimento económico manteve-se estagnado abaixo de um por cento; a violência tornou-se endémica e, em 2016, atingiu um recorde de 21 mil assassinatos. Se fizéssemos a conta aos prejuízos que, ao longo destes 23 anos, a NAFTA representou para os rendimentos dos trabalhadores mexicanos, daria para pagar a construção de um muro tão grande que daria a volta ao mundo, selaria duas vezes a fronteira com os EUA e ainda sobrava troco. Ou seja, quando Trump insiste que, de uma ou outra forma, o México pagará o muro, quer apenas dizer que a relação neocolonial está para durar, mesmo que em vez de vender limonada os EUA queiram agora vender limões e gás ou comprar limonadas e petróleo.

Trump vem reiterando a ameaça de aplicar um imposto de 35 por cento na importação de produtos fabricados no México. Na mira das políticas proteccionistas do presidente eleito dos EUA estão indústrias como a automóvel, a eléctrica e electrónica, exportações que representam um superavit comercial de 60 mil milhões de dólares e mais de cinco por cento da produção económica mexicana. Donald Trump sintetizou a situação num tweet recente «A General Motor vai enviar o modelo Chevy Cruze fabricado no México para os concessionários dos EUA livre de impostos na fronteira. Fabriquem nos EUA ou paguem um grande imposto fronteiriço».

Gasolinazo

Com o devido desconto que o populismo de Trump sempre merece, a ameaça é para ser levada a sério: mais de três quartos das exportações mexicanas têm como destino o vizinho do Norte e os EUA têm o poder de fazer desabar o castelo de cartas da economia mexicana. Enquanto se mantiver o domínio imperialista, pagar o muro é somente o beija-mão que lembra quem manda e quem obedece.

Submisso à pressão imperialista, a administração de Peña Nieto tem dado sinais de que pretende reajustar a economia mexicana aos novos desígnios de Washington. A braços com uma crise económica que parece não ter fim, o presidente mexicano respondeu, no âmbito do Pacote Económico 2017, com a liberalização dos combustíveis que, em poucos dias, ditou aumentos no preço dos combustíveis na ordem dos 20 por cento. Começava o efeito dominó: embora só afecte parte dos custos de produção, os grandes grupos económicos aplicaram o aumento ao custo final de produtos alimentares e de primeira necessidade; o aumento do salário mínimo ficava eclipsado; um frenesim especulativo atirava a inflação para as alturas; o fantasma de Trump desvalorizava o peso em mais de 11 por cento...

Ao longo da última semana sucederam-se por todo o país as gigantescas manifestações populares contra o chamado «gasolinazo» e a brutal repressão policial dos protestos, que já causou mais de seis mortos e 1500 detidos. Cresce também o número de bombas de gasolina ocupadas pelas populações e os apelos à demissão de Peña Nieto.

 



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