Mais do que história, a Revolução de Outubro aponta ao futuro
Nos 100 anos da Revolução de Outubro
O futuro constrói-se<br>e conquista-se

A sessão de abertura das comemorações do centenário da Revolução de Outubro, promovidas pelo PCP, realizou-se no sábado num Fórum Lisboa transbordante. Nas intervenções, nas expressões artísticas e culturais e na atitude emocionada das centenas de pessoas presentes conjugaram-se a determinação e a confiança no futuro, que, como afirmou o Secretário-geral do Partido, «não acontece, constrói-se e conquista-se».

 

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O momento era de evocação do centenário desse acontecimento maior da marcha dos trabalhadores, dos explorados e dos oprimidos no sentido da sua libertação e emancipação, mas foi do futuro que se tratou no Fórum Lisboa, na tarde de sábado: desse futuro que há 100 anos a Revolução Socialista de Outubro iniciou e mostrou ser possível; esse futuro pelo qual se batem milhões de seres humanos e que, baseados nos ensinamentos da Revolução e no exemplo dos seus protagonistas, os trabalhadores e os povos acabarão por transformar em presente. De facto, quer da intervenção de Jerónimo de Sousa quer das de Pedro Guerreiro e Manuel Rodrigues, respectivamente membros do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central, sobressaiu a actualidade e vitalidade do projecto comunista, que o PCP orgulhosa e convictamente transporta vai para 96 anos.

É, aliás, a própria realidade de um capitalismo sem solução para os problemas do mundo contemporâneo e que responde ao agravamento da sua crise estrutural com o agravamento da exploração e da opressão e o recurso ao fascismo e à guerra que impõe como actual e urgente a construção do socialismo e do comunismo, objectivos programáticos supremos do PCP. Como vincou Jerónimo de Sousa na sua intervenção, a necessidade de um sistema alternativo ao capitalismo, o socialismo, «está hoje mais presente no debate político e ideológico, e embora abrindo caminho com dificuldade, a tendência é para a recuperação nas massas do seu poder de atracção».

Como também foi sobejamente realçado na sessão de sábado, a actualidade e premência da superação revolucionária do capitalismo e da construção do socialismo não significam que a revolução socialista esteja «ao virar da esquina» e que se vá concretizar da mesma forma em todos os países. Pelo contrário, há que ter em conta a diversidade de soluções, etapas e fases da luta revolucionária e a certeza de que não há «modelos» de revolução ou de socialismo. Em Portugal, o caminho para o socialismo passa pela luta pela democracia avançada e, no imediato, pela ruptura com a política de direita e pela concretização de uma política patriótica e de esquerda.

Retomando aquele que foi um lema do XIII Congresso (Extraordinário) do PCP, no qual se avaliou o «terramoto» ocorrido nos países socialistas do Leste, que rapidamente se alastraria à própria União Soviética, culminando no seu desmembramento e desaparecimento, Jerónimo de Sousa garantiu que «comemoraremos os 100 anos da Revolução de Outubro reafirmando que fomos, somos e seremos comunistas».

Arte, cultura e revolução

As três intervenções (a que voltaremos nas páginas seguintes) não esgotaram a sessão de sábado, que contou ainda com momentos de música, poesia e com a projecção de um filme sobre os 72 anos da libertação de Auschwitz pelo Exército Vermelho, que ali se assinalaram, realizado especialmente para a ocasião.

Combinando magistralmente a imagem e o som, o filme divide-se em duas partes: uma primeira em que se destaca o carácter criminoso do nazi-fascismo, os trabalhos forçados, as execuções, os campos de concentração e as câmaras de gás; e uma segunda, ao som da canção popular russa «Kalinka», onde se dá realce à resistência, à luta popular e sobretudo ao impetuoso avanço do Exército Vermelho, que libertou o campo da morte e os seus prisioneiros. As filmagens dos abraços dos presos aos seus libertadores, de tão belas, eram simplesmente esmagadoras... O silêncio sofrido com que os presentes reagiram à primeira parte deu lugar, na segunda, às lágrimas e aos aplausos.

A música, que sempre acompanhou os revolucionários, ficou no sábado bem entregue a Alexandre Branco Weffort e ao projecto Terras do Zeca. O primeiro, com a sua flauta transversal, interpretou excertos de peças clássicas de Debussy e Fernando Lopes-Graça e ainda «Mudar de Vida», de Carlos Paredes, dando expressão ao que fora apresentado como «Revolução na Música, Música e Revolução». As vozes de Maria Anadon e Filipa Pais conduziram uma visita ao legado musical de José Afonso, o Zeca, desaparecido há 30 anos.

Na poesia, outra firme aliada dos revolucionários de todo o mundo, André Levy e Mafalda Santos declamaram Armindo Rodrigues, Jorge de Sena, Vladimir Maiakovski, Manuel da Fonseca, Bertolt Brecht e Papiniano Carlos. O mais belo dos momentos estava guardado para o fim, com centenas de punhos cerrados e vozes afinadas a cantar A Internacional, que mais do que um hino permanece como testemunho de uma inquebrantável determinação de continuar e levar a bom porto o combate por uma sociedade liberta da exploração e de todas as formas de opressão.

 

Ode à Revolução, Vladimir Mayakovsky

 

A ti,

assobiada-

escarnecida por balas de metralhadoras,

a ti,

que as baionetas ferem,

que as maldições envolvem,

grito enebriado

o início da ode

solene.

Oh! Bestial!

Oh! Ingénua!

Oh! Mesquinha!

Oh! Sublime!

Que outro nome te foi dado?

Em que te tornarás, ser de duplo rosto?

Um arquitectura harmoniosa

ou um amontoado de ruínas?

Exaltas o maquinista

coberto pela poeira do carvão,

o mineiro que perfura as entranhas da terra...

Exaltas,

veneras

o trabalho humano.

E amanhã... (…)

Os burgueses amaldiçoam-te:

«Oh! sê três vezes maldita!»

mas o poeta,

eu,

dou-te a minha bênção:

Oh! Quatro vezes bendita, sê gloriosa!

 

Entre patrão e operário, de Armindo Rodrigues

 

Entre patrão e operário,

entre operário e patrão,

o que é extraordinário

é pretender-se união.

 

Não vista a pele do lobo

quem do lobo a lei enjeita.

A propriedade é um roubo.

Ladrão é quem a aproveita.

 

Negar a luta de classes

é negar a evidência

de um mundo de duas faces,

de miséria e de opulência.

 

O Couraçado Potemkine, de Jorge de Sena

 

(…) Nos cais do mundo, olhando o horizonte,

as multidões dispersas

esperam ver surgir as chaminés antigas,

aquele bojo de aço e ferro velho. (…)

Uns morrem, outros vendem-se,

outros conformam-se e esquecem e outros são

assassinados, torturados, presos.

Às vezes a polícia passa entre as multidões,

e leva alguns nos carros celulares.

Mas há sempre outra gente olhando os longes,

a ver se o fumo sobe na distância e vem

trazendo até ao cais o couraçado. (...)

 

Itinerário, de Papiniano Carlos

 

Os milhares de anos que passaram viram

a nossa escravidão.

NÓS carregámos as pedras das pirâmides,

o chicote estalou,

abriu rios de sangue no nosso dorso.

NÓS empunhámos nas galés dos césares

os abomináveis remos

e o chicote estalou de novo na nossa pele.

A terra que há milhares de anos arroteámos

não é nossa,

e só NÓS a fecundamos!

E quem abriu as artérias? quem rasgou os pés?

Quem sofreu as guerras? quem apodreceu ao abandono?

E quem cerrou os dentes, quem cerrou os dentes

e esperou?

Spartacus voltará: milhões de Spartacus!

os anos que aí vêm hão-de ver

a nossa libertação.




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