• Ana Miguel

Três dias em que fomos Mar

Assentando no facto de Portugal possuir «muito mais território marítimo do que terrestre», o Grupo de Trabalho do Espaço Ciência tomou a decisão de levar à 41.ª Festa o Mar – Património e Potencialidades, com natural destaque sobre vinte e seis soluções do PCP para a valorização, defesa, progresso e benefício económico, social e de lazer das águas, flora e fauna.

Mar de vozes livres/sempre a crescer a crescer1 com milhares de visitantes a explorarem os recursos e conteúdos dando a conhecer na evolução técnico-científica o trabalho nas áreas artística, histórica, antropológica ou sociológica.

Surpreendendo quem quis passar da intuição viva ao pensamento abstracto e dele à prática, pelo uso de utensílios quotidianos e mecanismos da Física foram comprovadas leis da refracção da luz, do funcionamento dos submarinos, do poder do sal no Mar Morto facilitando a flutuação dos corpos, da gravidade como consequência da curvatura do espaço-terra, da propagação do som, entre o constante questionar sobre coisas naturais e fabricadas e até de outras que à data desta Festa ainda não sabemos se existem.

Sob um polvo gigante e azul, as crianças desenvolviam o sentido e o gesto pintando fundos marinhos ou desenhando a vida em águas livres de poluição e de donos. Nas novidades deste ano estavam quatro instalações: o fundo do mar com peixes e baleia colocados estrategicamente entre duas passagens a fim de ganharem movimento, a âncora de ferro centrada numa estrutura semelhante a um pódio, a representação à escala natural do trabalho dos operários dos estaleiros nacionais e a questão Achas que sabes o que é o mar.

Impulsionando o conhecimento científico como direito de todos, as exposições voltam a ser disponibilizadas gratuitamente, através do endereço electrónico geral@festadoavante.pcp.pt

Demonstrações de equipamentos apresentadas pela Mútua dos Pescadores permitiram aos visitantes conhecer como uma balsa ou lancha pneumática toma forma em poucos minutos quando lançada ao mar. Com capacidade para salvar seis pessoas, possui âncora flutuante, pirotécnicos, bomba, fundo térmico e reserva de água potável. Outros apetrechos de trabalho como o fato térmico ou históricos como o telégrafo de máquinas do Almansil, ou os navios-motor e embarcações de pesca construídos à escala por Luís Serra, também estiveram expostos.

Documentários de vários países em passagem contínua trouxeram lutas e cultura e, dirigido por Ivo Castro, o Coro da Mútua homenageou o trabalho e a vida no rio e no mar através de canções populares e modas das várias regiões portuguesas.

A finalizar este diário de bordo registamos o empenho dos 60 construtores, procurando o rigor científico, didáctico e pedagógico do tema que escolheram, proveram do necessário e tornaram preste para curiosos e especialistas a 17.ª Ciênci@vante!

 

Debates

Tratando temas diferentes, as intervenções dos cinco especialistas convidados trouxeram aos debates realizados a necessidade do investimento nos recursos naturais e ambientais, da educação e da cultura na preservação dos recursos do tempo que nos cabe viver, motivando à aportação de uma centena de participantes.

No sábado, a abrir o debate, Fernando Barriga alertou para a «diminuição das reservas, transformando-se em materiais de consumo» com cada pessoa a gastar «1,6 milhões de quilogramas de minerais e combustíveis ao longo da vida». Se «o lápis é composto de argila, borracha, látex, pedra-pomes, óleo de soja, enxofre, cálcio, bário, alumínio ou latão e outros minerais, imagine-se o telemóvel». Paula Sobral continuou essa leitura com o «problema global da maior parte do lixo marinho ser plástico, estando mais de 700 espécies afectadas».

Já no domingo, Fernando Sequeira destacou que «a relação dos portugueses com o mar é uma inevitabilidade histórica desde antes e depois da nacionalidade». Mas a adesão à CEE, lembrou, arrastou-nos para uma «ruptura histórica com o mar», levando à «perda da frota mercante, da investigação e da pesca numa evidente degradação das políticas.» Também Frederico Pereira sublinhou na «articulação de Portugal com a imensidão do mar, a sucessiva falta de políticas activas» e a pesca como actividade fundamental na soberania alimentar, considerando o abastecimento à população e as regiões que dependem quase exclusivamente dela.» Números trazidos por João Delgado fazem da pesca «a actividade que maior sinistralidade tem no mundo do trabalho com 50 por cento dos seus trabalhadores a sofrerem um acidente nalgum momento» do seu labor.

Augusto Flor, responsável pelo Espaço Ciência, considerou as perguntas e inquietações colocadas um valioso contributo para a luta do PCP.

 1 ARY. As portas que Abril abriu. Obra Poética. Edições Avante! Lisboa: 1995.




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