• José Pedro Soares

A escultura-memorial homenageia os que sofreram e resistiram na cadeia do Forte de Peniche
Lutaram e resistiram. Esquecer, nunca

O Forte de Peniche encheu-se de novo neste sábado, dia 9 de Setembro, para uma muito justa homenagem aos que se bateram de forma tão empenhada na luta contra o fascismo. Foi um dia de imensa satisfação e de alegria para todos os que puderam assistir à inauguração da escultura-memorial de homenagem aos presos políticos da cadeia do Forte Peniche e, desta forma, lembrar e perpetuar, naquele local emblemático da resistência à tirania fascista, todos os que ali sofreram e resistiram.

Dá mais gosto visitar a Fortaleza de Peniche. Logo que ultrapassamos a imponente muralha, o fosso e as suas centenárias portas de madeira, abre-se todo aquele espaço renovado com relva e novas cores que naquele tempo não existiam.

Desse jardim da resistência e entre as ameias no paredão lateral da Fortaleza podemos livremente ver a imensidão azul oceânica do mar de Peniche, local de onde este sábado regressámos, ex-presos, muitos familiares, centenas de pessoas para esta cerimónia de inauguração.

Este era há muito um objectivo da Câmara Municipal e da URAP mas que ainda não ficou realizado na sua totalidade, faltando o memorial aos presos da Cadeia do Forte de Peniche, onde, um a um, serão gravados todos os nomes dos cerca de 2500 presos.

O fascismo foi um regime político criminoso. Esta evocação e homenagem foi mais um alerta contra o esquecimento, uma outra chamada de atenção para que ninguém abdique dos direitos alcançados com o 25 de Abril e os exerça sempre, porque essa é também a melhor forma de defendermos a democracia e a revolução que em 1974 abriu finalmente as portas desta e das restantes prisões do fascismo.

Reconhecidamente o mestre José Aurélio deu-nos mais uma das suas extraordinárias criações, esta escultura-memorial, esta peça que tão bem identifica e simboliza o degredo da prisão fascista e também os sonhos e as vontades dos que ali encarcerados continuaram a lutar e a acreditar em valores humanos superiores, nunca deixando cair os braços e a vontade de resistir até às grandes vitórias da Revolução de Abril.

O artista, sabemo-lo bem, também ele foi opositor a esse ignóbil regime e disse-nos do grande prazer que sentia em se envolver na realização deste seu novo trabalho. É muito interessante a sua explicação sobre esta escultura e daquelas aves que simbolicamente colocou no cimo dos 25 mastros, pássaros diz ele, mas para os que ali viveram enclausurados são gaivotas. Sempre ali houve gaivotas.

Companheiros de jornada

Apesar das grades nas janelas, mesmo no tempo em que os vidros eram martelados para que os presos não pudessem ver o exterior, havia sempre uma fresta por onde as espreitar, ou então no balanço elevado de um pulo dava para olharmos lá para fora. Também na ida ao recreio ou ainda nos dias em que tínhamos visitas, bem como nos tempos anteriores quando se ia despejar os baldes, lá estavam elas, voando ou pousadas sobre as muralhas. Foram sempre companheiras libertárias nesse tempo fosco e escuro de opressão e fascismo, sempre elas e o mar.

O mar que nos dias e noites invernosos batia com estrondo nas muralhas, gerando um barulho ensurdecedor e até brutal quando as elevadas ondas batiam e a água entrava violentamente na furna, aquele buraco que perfura parte do imenso rochedo, formando uma pressão no respirador do qual com fúria saem fortes rugidos e tufões de vento e água. «Ó Diniz, que barulho… tu conseguiste dormir? Isto foi toda a noite.»; «Faz como eu, pá, tapa a cabeça com a manta» – era assim sobretudo no pavilhão A, o das salas colectivas mais junto ao mar.

Desta cerimónia fica-nos também a foto conjunta dos ex-presos políticos junto da escultura-memorial neste dia da sua inauguração, mais um interessante registo.

A tarde já ia longa, para muitos amigos vindos de longe chegava rapidamente a hora de partirem mas ainda tivemos o prazer de escutar o jovem grupo «Cauda de Tesoura» interpretando cantigas sobretudo do Zeca e de assistir à conversa de Ana Aranha com Anabela Carlos e Álvaro Pato, ambos filhos de presos na Cadeia do Forte de Peniche.

Por fim, já quando o tempo arrefecia e o sol ia lentamente desaparecendo no confim do horizonte, o Coro Lopes-Graça da Academia de Amadores de Música, dirigido pelo maestro titular José Robert, trouxe-nos a beleza da palavra de tantos dos nossos melhores poetas com os arranjos musicais do nosso saudoso compositor, acompanhados desta vez por João Lucena ao piano.

A Fortaleza de Peniche é já um dos locais mais visitados do País e sê-lo-á ainda mais quando forem concretizadas as decisões do Governo, quando toda a Fortaleza for recuperada e erguido finalmente o Museu Nacional da Resistência e da Luta pela Liberdade. Foi o forte movimento de opinião manifestada por todos aqueles que chocados e mesmo indignados lutaram e, assim, impediram a entrega a interesses privados e para fins de exploração turística e hotelaria deste local tão simbólico da luta e da resistência ao fascismo.

Parabéns ao município de Peniche e à URAP e a todos que com a sua presença, a sua palavra e a sua voz, com a sua luta têm contribuído para que se encontrem as melhores soluções para a recuperação e preservação da Fortaleza e a defesa da memória história da luta e resistência dos portugueses.




 Versão para imprimir            Enviar este texto            Topo

Outros Títulos: