• Carlos Lopes Pereira

O esquecimento das Houston do Sul

Inundações e deslizamentos de terras provocados pelas chuvas causaram mais de um milhar de mortos e desaparecidos, em meados de Agosto, em Freetown. Muitas casas ficaram destruídas e cinco mil pessoas perderam todos os seus bens.

Os grandes meios de comunicação ocidentais ignoraram ou deram pouco destaque à tragédia na capital da Serra Leoa, um «distante» país africano.

Importância mediática muito maior recebeu, dias depois, a passagem de um furacão pelo Texas provocando 60 vítimas em Houston – ainda que as inundações do mês passado tenham matado 25 vezes mais pessoas em África do que o Harvey nos Estados Unidos.

Esta desigualdade de tratamento mediático é evidente, mesmo quando se sabe que foi o presidente Donald Trump a retirar-se dos acordos climáticos de Paris e não, por exemplo, o presidente Ernest Bai Koroma, da Serra Leoa, que reconhece a urgência de reduzir as emissões de gases relacionadas com o «efeito estufa» e o aquecimento global.

Segundo a Organização Mundial da Saúde, os desastres naturais agravados pelas mudanças climáticas originam 60 mil mortes todos os anos, com uma maior incidência nos países menos desenvolvidos. Um índice elaborado pela universidade estado-unidense de Notre Dame mostra que entre os países mais vulneráveis às mudanças climáticas estão a República Centro-Africana, o Chade, a Eritreia, o Burundi e o Sudão, seguidos pelo Iémen, o Afeganistão e a República Democrática do Congo. Sete dos 10 países mais vulneráveis às mudanças climáticas são africanos.

Apartheid climático

Abordando este apartheid climático – e mediático –, Gemma Solés i Coll escreveu na semana passada no El País um artigo intitulado «O esquecimento sistemático das ‘Houston do Sul’».

Conta ela que as cidades indianas de Mumbai, Bangalore ou Chennai; a cidade mais populosa do Paquistão, Karachi; ou a capital do Bangladesh, Dakha, sofreram mais de 1400 vítimas desde Junho e milhões de afectados depois das piores chuvas das monções a atingir o Sudeste Asiático desde há anos. No Nepal, as chuvas torrenciais deixaram 150 mortos e 90 mil localidades devastadas. Na província de Guizhou, na China, deslizamentos de terras devidos a chuvas torrenciais causaram a morte de mais de 50 pessoas e cidades como Donguan, Shenzhen, Zhongshan e Zhuhai declararam-se em alerta vermelho por causa das chuvas e evacuaram 70 mil habitantes. «No total, 41 milhões de pessoas na região sofrerão severamente para conseguir alimentos e enfrentarão um aumento de doenças como o paludismo e o tifo ao longo dos próximos meses», alerta.

A autora lembra que já antes denunciara o risco que as cidades costeiras africanas correm devido às mudanças climáticas. Lamenta, contudo, que «nas primeiras páginas dos jornais com maior tiragem as vítimas de Houston tenham adquirido maior importância do que as de Freetown, Karachi, Mumbai ou Donguan juntas». E interroga-se se «não deveríamos começar a dar mais visibilidade e apoio às castigadas ‘Houston do Sul global’, que acumulam mais vítimas e prejuízos, problemas e desafios do que a urbe texana».




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