Roy Daza, membro da comissão de assuntos internacionais do Partido Socialista Unido da Venezuela
«A nossa maior vitória é a paz»

No momento de solidariedade na Festa do Avante falaste do golpismo na Venezuela. Podes detalhar?

A crise política e económica na Venezuela foi, em boa parte, impulsionada pela actual administração na Casa Branca, a qual encontrou uma conjuntura favorável determinada pelo arrastamento da queda do preço do petróleo, de cuja transacção a a Venezuela depende demasiado. A partir de Fevereiro deste ano, o imperialismo norte-americano decide derrubar o presidente Nicolás Maduro. Avançam suportados numa campanha mediática internacional sem precedentes; tentam, embora sem sucesso, aplicar a carta democrática da organização de Estados Americanos e agudizam o cerco financeiro, imposto a partir de 2014.

A violência que provocou já mais de uma centena de mortos, foi um elemento mais dessa estratégia.

Como é que se responde a uma situação dessas?

Face a um golpe com expressões de violência, desacato institucional [por parte do parlamento e da procuradora-geral], manipulação da opinião pública e cerco financeiro, a resposta tinha de ser política. Foi por isso que convocámos a Assembleia Constituinte. Tinha de ser o povo a impor a paz. É por isso que, desde então, não passou um só dia sem que o movimento popular bolivariano marcasse presença nas ruas.

Neste quadro foi igualmente de extrema importância a manutenção da aliança cívico-militar.

A direita fracassou não apenas porque a maioria dos venezuelanos acorreu em massa a votar na Assembleia Constituinte como saída pacífica para a crise, mas também porque parte da sua base social repudiou a violência, isto apesar de não serem partidários das orientações bolivarianas.

A nossa maior vitória é a paz, não temos outra.

O que pretendem os EUA com o derrube de Nicolás Maduro?

São conhecidas as riquezas no subsolo da Venezuela e a ambição do imperialismo de as voltar a depredar. Mas isso é apenas parte da questão. O imperialismo sabe da força e autoridade bolivariana na região, reconhece o valor do exemplo e a solidariedade da Venezuela no contexto dos avanços progressistas na América Latina. Derrubar a Venezuela este ano é para Washington determinante pelo que pode condicionar as forças progressistas latino-americanas no seu conjunto, as quais se preparam para passar à ofensiva política.

Que caminho concreto a Venezuela pode seguir, designadamente para superar carências e erros identificados?

Uma das discussões fundamentais da Assembleia Constituinte é a reorientação da nossa economia, incluindo o nosso papel no mercado de petróleo. O tema não é novo e não pode ser abordado de forma leviana. Trata-se, no fundo, de superar o capitalismo rentista.

Subsistem ainda carências de natureza política e de organização do Estado, as quais a Assembleia Constituinte está igualmente a discutir, tais como o aprofundamento da democracia e o reforço dos mecanismos institucionais para defender a soberania perante intentona golpistas.

A Assembleia Constituinte decidiu que a nova Constituição será submetida a referendo. Quer isto dizer que será o povo da Venezuela a pronunciar-se sobre os caminhos que pretende trilhar.

 



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