As urnas e os coveiros

A leitura mediática das eleições autárquicas começou antes de qualquer voto ter entrado nas urnas e, quando ainda havia votos a serem contados, foram-se tecendo sentenças. Veja-se um director de informação de um dos canais de televisão que, quando ainda não havia resultados de Loures, disse ter «elementos» que apontavam para a perda da presidência da Câmara pela CDU, que deveria passar para terceira força política. Os resultados são públicos, Loures renovou a confiança na CDU e ainda esperamos que o tal director venha rectificar o erro, tal como esperamos que nos expliquem por que razão ambas as estações privadas excluíram a CDU e só a CDU dos seus painéis de comentadores...

A forma como a generalidade da imprensa se rende aos encantos do CDS-PP é sintomática da falta de rigor e isenção. Se alguns dos que exultam os resultados de Cristas em Lisboa olhassem para os números perceberiam que os votos e os mandatos de 2017 são menos do que os que receberam em 2013 de forma isolada. Apesar de ter mais uma presidência de Câmara, estas representam um quarto dos eleitos pela CDU.

Mas não esqueçamos o trabalho militante que na comunicação social foi feito para permitir que hoje se diga alarvidades a este propósito. Como o programa do provedor do telespectador da RTP o demonstra, pelo menos em Lisboa o CDS-PP foi claramente beneficiado durante a campanha eleitoral, com uma presença desproporcional à sua influência real. Depois do truque concretizado, não há como saber como se distribuiriam os votos sem esse efeito. E o truque continua, dando palco mediático a quem se afirma como a grande força da oposição, apesar de as suas candidaturas não terem chegado aos três por cento no total nacional.

Nesse mesmo programa, um dito especialista explicava a presença desproporcionada de figuras de um outro partido face ao PCP na comunicação social da seguinte forma: «Existem factores de proximidade, porque são intelectuais, são professores universitários.» Também os há no PCP, como operários, empregados, pequenos empresários ou estudantes – e, para além de não bater a bota com a perdigota, este argumento revela um profundo preconceito. Mas a estes acrescentou uma outra categoria: «São comentadores.» Ora, se o são é porque lhes é dado esse espaço!

Não há como explicar, por exemplo, que em Almada, quando um dirigente nacional por lá passava, só o candidato da CDU, que por sinal era também presidente da Câmara, não fosse ouvido.

A dinâmica montada permite, agora, a leitura de dinâmicas locais como se se tratasse de fenómenos de âmbito nacional. Só este erro propositado dos media (com algumas forças a contribuir para a festa) explica que a eleição de um vereador do BE em Lisboa seja dado como uma retumbante vitória, enquanto a sua ausência da vereação no Porto seja ignorada.

Logo surgem nos jornais, nas rádios e nas televisão comentadores que sonham ser coveiros e porventura não o conseguiram por força das restrições nas contratações pelas autarquias. A lenga-lenga do inevitável desaparecimento do PCP voltou em força, ainda que o argumento usado seja o dos resultados eleitorais que confirmam a CDU como grande força de esquerda no Poder Local, com uma presença em todo o território nacional que tantos cobiçam.




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